Um fim de semana com Estrelas

Quando o projeto Med-Wolf se aproxima da sua conclusão, os balanços vão-se sucedendo. Pois urge prestar contas do que foi feito, das ações que vão carecer de continuação, do que haverá a melhorar em iniciativas futuras.

Desta feita, o palco tornou a ser a Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Castelo Branco, agora com organização da Associação Portuguesa do Cão da Serra da Estrela. Numa palestra face a um auditório repleto de estudantes e docentes daquela instituição, foram resumidos alguns dos principais resultados do Projeto, com especial ênfase para a dotação de várias explorações pecuárias de vedações e de cães de gado, ajudas concretas e importantes à proteção dos mais importantes ativos dos criadores: os seus animais.

Mas o cão de gado foi a estrela deste fim de semana: na sexta-feira, a ESA albergou um fórum subordinado ao tema “Cães de Proteção de Rebanho, Porquê?” De início destinado à troca de ideias e de experiências entre pastores e criadores de gado, este evento acabou por atrair um público mais alargado, agregando também criadores de cães e até participantes oriundos de Inglaterra, como a única criadora de Cães da Serra da Estrela daquele país. Os mais de 20 profissionais da pastorícia presentes vieram não só de perto, mas também da região do Sabugal e de paragens bem mais a norte, como Cinfães e Lamego.

Nunca é demais salientar a importância destas “tertúlias” em que se estabelecem contactos e partilham histórias, e onde também se conhecem soluções empregues em diferentes sistemas de proteção do gado. Por exemplo, nota-se que ainda causa espanto a criadores mais próximos da nossa zona raiana o uso que colegas seus, em paragens como a Serra de Montemuro, dão ao Serra da Estrela, que ali funciona como eficiente guarda de vacas em pastagens de montanha.

Experiências ainda mais distantes foram as partilhadas por um convidado especial: o pastor espanhol Ruben Tascon, fundador da Asociación para la Conservación del Mastín Español Tradicional, que já fora um dos palestrantes na véspera.

Crente convicto na falta que o lobo faz ao ecossistema em que trabalha, por manter afastados predadores e cães vadios que atacam o gado e lhe transmitem doenças, este criador, descendente de uma família ligada à pastorícia há gerações sem conta, elencou as características e o papel do mastim espanhol, ao fim e ao cabo ecoando as práticas deste lado da fronteira.

Falou igualmente da associação Ganaderos Ibéricos Unidos, que ambiciona dar uma voz mais clara e forte aos criadores, sempre que se “discuta ou negoceie qualquer assunto que diga respeito à pecuária extensiva ou semiextensiva em território espanhol”. Um exemplo que deveria frutificar também em Portugal...

Por fim, no domingo teve lugar a XXVII Exposição Canina Monográfica do Cão da Serra da Estrela, com o desfile e a distribuição de prémios por entre 75 garbosos exemplares da raça, nas suas versões de pelo curto e comprido.

Resistir

Nestes dias de cinzas, a tentação natural seria escrever sobre a nova revoada de incêndios que se abateu sobre nós. Mas pouco haverá a acrescentar a tudo o que tem vindo a ser dito; sobre a urgência de cuidar melhor da floresta, de fiscalizar os criminosos e os negligentes. Que ao menos as tragédias deixem como legado mais preparação para os anos difíceis que as alterações climáticas por certo irão trazer no futuro imediato.

Os danos causados à fauna também foram terríveis: das centenas de animais domésticos vitimados pelos fogos às incontáveis criaturas silvestres e habitats que foram dizimados. Mas o tempo da renovação virá de seguida: a vegetação que lança rebentos para a luz, os herbívoros que regressam pouco a pouco, logo seguidos pelos seus predadores naturais.

Mas há quem encontre os culpados mais bizarros para os incêndios florestais: o autarca de Artigues, uma pequena aldeia do Sudeste de França, veio afirmar que os lobos também têm culpas no cartório, por afastarem os rebanhos de locais que depois secam e servem de pasto às chamas – esta teoria, que cá também há anos se viu ventilada, talvez ainda venha a permitir que os lobos sejam acusados de causarem o desemprego e mil outras calamidades...

Ninguém, muito menos quem se dedica à pecuária, fica a ganhar com estas fantasias. Importa é lançar mãos à reconstrução, sempre com o objetivo de não deixar morrer a pastorícia. Por esse mundo fora, aliás, a profissão de Pastor tem vindo a atrair cada vez mais interesse, como revela o número 14 da revista “Carnivore Damage Prevention News” (Notícias da Prevenção de Danos Causados por Carnívoros), dirigida por uma bióloga portuguesa.

Nestas páginas, que pode descarregar gratuitamente em www.medwolf.eu, as novas desta redescoberta são animadoras: por exemplo, na Suíça existe um curso específico de formação de pastores, em que cerca de 50% dos formandos possuem educação universitária e muitos (41%) têm raízes urbanas, sendo que mais de metade (59%) são mulheres. Trata-se de uma verdadeira vocação, alimentada pelo interesse pela Natureza e pelos animais. Uma tendência também verificada noutros países com formação nesta área: da França à Holanda, passando pela Alemanha.

Também é ali versada a European Shepherd Network (Rede Europeia de Pastores), uma organização de âmbito europeu que representa vários grupos ligados à pastorícia, de inúmeras paragens e culturas. Unir esforços e ter uma voz mais forte são as grandes ânsias; assim como promover o intercâmbio de conhecimento e a dignificação da atividade, enquanto parceira fulcral no desenvolvimento sustentável dos territórios europeus (shepherdnet.eu).

Outro ponto alto é o conjunto de entrevistas a pastores de seis países. O Sr. Joaquim Nunes, de Batocas, é o “representante” português – vindo de uma realidade bem diferente da suíça, a não ser pelo amor ao campo e aos animais, que todos estes profissionais partilham e dão aqui testemunho. Vale a pena ler.

Tempo de balanço

No passado dia 3 de Outubro, teve lugar em Lisboa uma reunião com todos os parceiros do Projeto Med-Wolf. Foram recapitulados 5 anos de intensa atividade em várias frentes, nos distritos da Guarda e de Castelo Branco, e na província de Grosseto, em Itália: da minimização real dos prejuízos nas explorações pecuárias à sensibilização dos mais jovens, passando por inúmeras ações científicas, de formação técnica e de cooperação internacional.

A missão, diminuir o conflito entre a presença do lobo e as atividades humanas, em regiões rurais onde os hábitos culturais de coexistência se perderam, era assumidamente ambiciosa. Mas estamos em crer que os resultados deste esforço conjunto inédito – integrando organizações portuguesas e italianas de natureza agrícola e ambiental, entidades estatais e centros de investigação – terão sido também francamente positivos.

Os números apoiam esse otimismo: 19 produtores pecuários foram apoiados com a instalação de 34 vedações que protegem hoje cerca de 3.000 animais – e reduziram em 88,1% o número de cabeças de gado afectadas por ataques de lobo. 31 cães da raça Cão da Serra da Estrela foram integrados e acompanhados, resultando numa em menos 60% de animais afetados por ataques de lobos. E muitos daqueles cães ainda não atingiram a maturidade.

Para monitorizar a população de lobos, duas equipas, com um total de 5 técnicos, examinaram uma área de 5.000 km2; percorrendo um total de 2.700 km. Montando também dezenas de operações de armadilhagem fotográfica, esperas e estações de escuta de uivos. Foram treinados e colocados no terreno dois cães detetores de vestígios de lobos. Um total de 1.054 dejetos e de vestígios colhidos nos ataques a gado foram alvo de análises de ADN. Resultados preliminares: o número de áreas de 10 x 10 km em que foi detetada geneticamente a presença de lobos passou de 2, em 2002, para 11 em 2016.

A vertente científica incluiu várias reuniões técnicas de intercâmbio transnacional e a organização do IV Congresso Ibérico do Lobo, em Castelo Branco, com participantes de 7 nacionalidades. Sob a direção de uma bióloga portuguesa, renasceu a revista “Carnivore Damage Prevention News”, congregando experiências e conhecimentos nesta área.

A divulgação junto a públicos de todas as idades abarcou folhetos com informação aprofundada sobre o lobo-ibérico, atividades culturais, intervenções no ambiente escolar, em festivais, exposições e muito mais. O Ecoturismo também foi alvo de iniciativas-piloto inéditas na zona.

A coexistência entre o Homem e o lobo na região raiana pode ser mais harmoniosa e proveitosa; para isso, este Projeto apoiou os interessados na resolução dos conflitos com um predador que tem um importante lugar na nossa História, na nossa Cultura e também na preservação do equilíbrio ecológico destas terras. 

Entrada vedada

Muito temos falado aqui dos cães de gado, da sua importância para a diminuição dos prejuízos causados por lobos e do valor que aquelas raças caninas têm para o nosso País. Mas o fornecimento de material e know-how para a instalação de vedações fixas tem sido outra importante ferramenta do Projecto, contribuindo para acabar com os ataques em muitas explorações pecuárias.

Até agora, 19 produtores receberam este apoio e 34 vedações foram instaladas: 27 em Almeida, 4 em Pinhel, 2 na Guarda e uma no Sabugal. Naturalmente, as zonas mais expostas e as explorações já com prejuízos reportados tiveram prioridade. Ficaram assim protegidos perto de 3.000 animais: 2.044 bovinos, 881 ovelhas e 26 avestruzes. As vedações construídas têm perímetros entre 60 e 1.160 m; algumas acabaram por ficar com dimensões superiores, após os proprietários terem decidido ampliar o seu perímetro. Por conta dos beneficiados, ficou o trabalho de construção e soldadura, assim como o material para fixar os painéis aos postes e para os portões.

Esta iniciativa é um sucesso: não houve qualquer ataque de predadores dentro das áreas assim protegidas, com a excepção de uma exploração de avestruzes onde a vedação foi inicialmente mal instalada. Nem escavando os predadores conseguem ultrapassar este obstáculo. A segurança suplementar proporcionada aos animais teve efeitos globais: de 0,24 ataques por mês que cada uma destas explorações sofria, em média, passou-se para 0,04 – uma redução de 83,3%. O número de cabeças de gado afectadas foi reduzido em 88,1%.

Em termos gerais, uma vedação eficaz deve ter uma altura mínima de 1,8 m a partir do solo, com “pescoço de cavalo” no topo, com um mínimo de 50 cm de extensão de rede, voltado para o exterior a um ângulo de 45º (cuidado quando a vedação confina com outros terrenos ou caminhos públicos). A malha deve ser enterrada ou haver uma rede no exterior fixa ao solo, para impedir que os predadores escavem por baixo da vedação.

Os postes podem ser de madeira, metal, betão ou pedra, sendo enterrados no solo a uma profundidade mínima de 40 cm, idealmente a 60 cm. Devem estar espaçados a uma distância de 2 – 2,5 m, no caso de rede eletrossoldada, ou 4 – 5 m, no caso de materiais mais rígidos.

Parte da rede (que deverá ter uma espessura mínima de 6 mm no caso de gado bovino e de 5 mm para ovinos) será enterrada a uma profundidade mínima de 30 cm; com uma extensão em forma de “L” com um mínimo de 50 cm, voltada para o exterior da vedação.

A área da vedação deverá ser suficiente para acomodar todos os animais, seguindo as normas legais de segurança e de bem-estar, não esquecendo os cães de gado, se necessários. Não esquecer, igualmente, que é preciso solicitar autorizações de construção camarárias, ou, se a vedação ficar no interior de uma Área Protegida ou em zonas de Rede Natura 2000, ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

Estranhas misturas

Há pouco mais de três anos, mencionámos aqui a questão dos animais que resultam de cruzamentos entre cães e lobos. Com efeito, as duas espécies, sendo geneticamente muito próximas, conseguem produzir híbridos férteis; tal poderia resultar em novos perigos para a já periclitante sobrevivência do lobo ibérico. No limite, a diversidade genética do Canis lupus signatus estaria em risco, dada a facilidade com que os híbridos se adaptam à vida em alcateia, podendo depois vir a cruzar-se com lobos “verdadeiros”.

A hibridação nada tem de estranho se pensarmos no gado muar; este demonstra como espécies aparentadas facilmente se reproduzem entre si, embora neste caso resultando em exemplares inférteis. Outros cruzamentos fascinantes ocorrem de quando em vez. Como os descendentes de leões e tigres; chamados “ligres” e “tigreões” (estes mais raros). Pensava-se que eram estéreis; mas pelo menos duas ligras, em jardins zoológicos, já tiveram filhotes, de um tigre e de um leão. Há até quem aceite como possível que no século XIX, no zoo de Hanôver, tenha nascido uma ninhada de híbridos raposa-cão; animais improváveis que terão morrido dias após o parto.

Certo é que os lobos produzem descendência com exemplares de espécies que lhes são geneticamente próximas: chacais, cães selvagens asiáticos, dingos, coiotes e, claro está, cães. Aliás, raças caninas foram propositadamente criadas através de cruzamentos com lobos. Como o cão-lobo checoslovaco, inventado nos anos 50 do século passado para auxiliar forças militares de elite. O holandês saarlooswolfhond foi criado em 1932 por Leendert Saarloos, também a partir do cruzamento de um cão de pastor alemão com uma loba; pensava-se que a nova raça seria apta para trabalhar no auxílio a cegos, mas hoje é popular como cão de companhia.

Voltemos aos híbridos cão-lobo em Portugal. Com uma boa notícia: a equipa do Projecto Med-Wolf recolheu e analisou 302 amostras na sua área de estudo, particularmente nos concelhos de Almeida, Pinhel, e Sabugal, não tendo detectado indícios genéticos que assinalem a presença de híbridos na região. Isto embora eles existam noutras áreas da Península Ibérica.

Por outro lado, um trabalho científico recente, da autoria de investigadores portugueses e liderado por Ana Elisabete Pires, veio dar-nos novas sobre este tema. O estudo de 196 cães de Portugal (e alguns exemplares de Espanha e do Norte de África) assim como de 56 lobos, confirmou a existência de uma diferenciação genética significativa entre o lobo ibérico e as raças caninas portuguesas. A ausência de sinais de introgressão (fluxo de genes entre espécies através de cruzamentos entre híbridos e “originais”) é um bom sinal para o lobo ibérico – tal como a constatação de que ele é um “reservatório de diversidade genética única do lobo cinzento”; mais uma razão para nos empenharmos na preservação deste nosso património natural. 

A Natureza é um espectáculo

O Projecto Med-Wolf e o Grupo Lobo sabem que parte decisiva do seu labor é mostrar a todos como é, na realidade, o verdadeiro lobo. Não o bicho das crendices nem o monstro que supostamente comeria pessoas às dúzias, nem o predador “botado” ou largado nos nossos montes sabe-se lá para quê.

A nossa mensagem de coexistência com o lobo ibérico tem vindo a visitar escolas, festivais, sempre com algo a ensinar aos mais novos. Em apresentações, teatros de fantoches e muito mais. A mostra “Coexistir com os Grandes Carnívoros – O Desafio e a Oportunidade”, continua a circular pelo País. E a grande exposição “Reis da Europa Selvagem – os nossos últimos grandes carnívoros” não pára de atrair visitantes ao Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa – um evento espectacular com dezenas de animais naturalizados, para o grande público e para todas as idades.

Por coincidência, foi há dias inaugurada no Museu de História Natural e Cultural da Universidade do Oregon a exposição “Lobos e Terras Selvagens no Século xxi”; ilustrando a luta pela sobrevivência deste predador nos EUA, assim como o papel vital que os humanos terão no seu futuro. Uma mostra com preocupações científicas que integra cinco lobos e um coiote naturalizados – logo num momento em que o estado do Oregon decidiu, entre muita polémica, permitir a caça de dois lobos selvagens.

Estas iniciativas museológicas, apresentando o que se chamava “animais embalsamados” são herança de dias em que a caça de animais hoje protegidos era uma realidade indiscutida; e sempre representam uma forma de a sua morte não ter sido totalmente em vão. Nunca substituirão o contacto directo com animais vivos e em liberdade; no entanto, podem ser um auxiliar na consciencialização de muitos para as ameaças sofridas por várias espécies.

Outro género de “espectáculo” é representado por atracções itinerantes como a “Wolves of the World”, nos mesmos EUA. Aqui, lobos de várias subespécies são apresentados a fazer “truques” e até a receber festas dos espectadores mais novos. A “alcateia ambulante” inclui 10 animais salvos de cativeiros ilegais e desastres naturais como o furacão Katrina. Mas apresentar ao público uma espécie selvagem reduzida a número circense, trate-se de lobos, orcas ou águias, passa mensagens erradas: um animal silvestre não é um bicho de estimação, não é um adereço para nos preencher as horas de tédio. Nem acariciar um lobacho transmite aos mais jovens a noção de que se trata de um predador, de uma criatura nascida para ser livre, digna e esquiva ao contacto com o Homem.

Para resguardar animais que já não podem regressar à Natureza, nada como recriar da forma mais fiel possível o seu habitat original. Como faz o Centro de Recuperação do Lobo Ibérico, perto de Lisboa – aqui o visitante até pode sair sem ter visto um único lobo; mas descobre quase tudo sobre esta espécie emblemática...

Um mundo agridoce

Quando todo o País parece parar para se proteger da canícula de Agosto, aproveitemos também para uma pausa e perscrutemos algumas notícias que nos chegam um pouco de todo o mundo, respeitantes ao estado das populações de lobo e de outros grandes animais ameaçados.

Más notícias vêm na revista científica Royal Society Open Science. Dois cientistas americanos concluem que seis dos grandes carnívoros perderam mais de 90% dos seus territórios históricos: o lobo da Etiópia, o lobo vermelho, o tigre, o leão, o mabeco (cão selvagem africano) e a chita têm vindo a ser expulsas dos seus habitats por actividades humanas como a agricultura. Esta conclusão foi obtida comparando as distribuições de 25 grandes carnívoros presentes na “Red List” da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) com mapas de há 500 anos. Resultados alarmantes: 15 daquelas espécies perderam mais de metade do seu território. O caso do tigre atingiu os 95%.

Perigosas ameaças serão sempre as estradas que retalham habitats, condenado inúmeros animais ao isolamento e aos riscos colocados pelo trânsito, em estradas nem sempre preparadas para evitar acidentes com a vida selvagem. Em Portugal, ainda há pouco surgiu um lince atropelado na zona de Mértola.  Em Espanha, uma loba apareceu morta na auto-estrada A-1, após ter sido atropelada por vários veículos. Mas esta última notícia encerra um lado algo positivo: a zona do acidente, o Valle del Lozoya, está na comunidade de Madrid, de onde os lobos desapareceram nos anos 40 do século xx, tendo retornado há pouco.

Melhor sorte teve outra fêmea, que viajou 500 km da Alemanha até chegar à Dinamarca, formando a primeira alcateia desde 1813, data de abate do último lobo dinamarquês – já haviam sido filmados machos por aquelas paragens há 5 anos. Mais uma prova do regresso do lobo a paisagens fortemente humanizadas, após séculos de perseguição impiedosa. Segundo o jornal inglês Guardian, foram recentemente avistados exemplares na Holanda e mesmo no Luxemburgo. As alcateias da Alemanha e de França continuam a prosperar.

Neste último país, novos indícios de que os lobos estão mesmo às portas de Paris: avistamentos nos départements de Yvelines e Essone, que já integram em parte a zona metropolitana da capital. Ao alarme causado pela presença de dejectos e de pegadas lupinas em alguns subúrbios, a ONG Alliance Avec Les Loups tentou tranquilizar os parisienses, garantindo-lhes que os lobos não “estão interessados em comer pessoas. Nós caminhamos sobre duas pernas, eles só querem saber de animais com quatro patas”. Em contraponto, mais a sul, realizou-se há dias uma manifestação de criadores franceses a protestar contra a presença do predador.

É um mundo de contrastes, complicado de gerir a contento de todos. Mas não páram de surgir exemplos de que a coexistência é mesmo possível.

Um modesto centenário

Já foi há mais de 4 anos; 1.520 dias passaram desde que a primeira destas crónicas foi aqui publicada, num acto de coragem editorial do “Terras da Beira”.

É verdade: partindo da intervenção do projecto Med-Wolf, já lhe apresentámos 100 pequenas crónicas sobre o lobo, esse desconhecido, começando pelas lendas de antigamente (e as de hoje), até temas que podem marcar balizas para o futuro, como saber se o lobo faz falta, qual é o seu lugar no nosso ecossistema ou como o binómio Lobos & Turismo pode vir a representar um rendimento importante para as nossas comunidades.

Lamentámos a morte de uma loba, quisemos saber quantos lobos temos, o que pensamos deles e, sobretudo, quem ameaça quem. Já que saber mais é coexistir melhor, abordámos temas sérios como o lobo e as presas silvestres, a questão do maneio ou a Lei do Lobo; perguntámos o que é ser “criador” de gado; passámos em revista os diferentes métodos de protecção, começando pelos melhores amigos da pecuária, os cães de gado. Isto entre 100 títulos que nos pareceram relevantes para ampliar o conhecimento de quem nos lê sobre uma espécie tantas vezes incompreendida: o cão descende deste predador? O que está no menu do lobo? Com que “presentes envenenados” os matamos?

Como o Med-Wolf é um Projecto sem fronteiras, demos uma volta a Itália, trazendo histórias de lobos romanos e de partilha de experiências. Sem esquecer as notícias de lobos, de Portugal à China – outros tempos, outras terras, num mundo de ameaças.

Falando, a gente entende-se. Por isso, noticiámos o encontro de gerações pela coexistência, trouxemos o mundo do lobo e especialistas internacionais em cães de gado a Castelo Branco. Celebrámos os Reis da Europa Selvagem no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, e assinalámos tantas exposições, colóquios e acções para os mais novos, pois a coexistência também se mostra. Um Projecto de futuro: ensinar a tolerância, educar para a coexistência.

Por vezes manifestámos alguma indignação, como com a ideia de abrir a caça na Malcata ou quando vimos o “serviço público” da RTP a desinformar o público sobre a realidade do lobo. Houve lugar para a tristeza perante as tragédias do fogo, ano após ano. Mas também demos boas notícias, como a chegada de subsídios para cães de gado e do Plano Nacional do Lobo.

Algumas notas mais ligeiras passaram por esta página, com textos versando curiosidades científicas, histórias da Bíblia, fábulas com lobos, S. Valentim, lobisomens e outros carnavais, e até histórias para o Natal.

Uma centena de crónicas resumível em poucas palavras: o melhor antídoto é a informação. Este Projecto recusa a lógica do “vocês” contra “nós”; trabalha pelo bem de todos, pois todos ganhamos ao proteger o lobo.

Os primeiros 100 textos podem ser consultados em www.medwolf.eu. Agora, ainda vai a tempo de sugerir os temas dos próximos, pelo email lifemedwolf@fc.ul.pt. Até já.

Leitura de Verão

Há três anos, já aqui falámos da revista “Large Carnivore Damage Prevention News” (Notícias da Prevenção dos Danos Causados por Grandes Carnívoros). Esta atinge agora a sua edição número 13, quarta sob a égide do Projecto Med-Wolf e sob a direcção de uma investigadora portuguesa. Como sempre, agrega vários artigos de fácil consulta, abordando uma variedade de temas que não pode deixar de interessar a todos os envolvidos nas questões da convivência com os grandes predadores – no caso português, o lobo.

Gratuita e acessível em formato PDF no endereço http://medwolf.eu (secção “CDPNews”), este número da revista contém textos oriundos de diversos países e especialidades técnicas. Começando com um resumo dos resultados do encontro científico “Cães de Gado: da Tradição à Modernidade”, ocorrido em Castelo Branco, com especialistas de 11 países, interessados na actualização de métodos aperfeiçoados desde tempos imemoriais, para responderem às exigências do século XXI – como denota o nome do encontro. Uma iniciativa levada a cabo no contexto do Projecto e que serviu para apontar alguns caminhos do futuro para este método ancestral de protecção do gado: “A necessidade de partilhar experiências foi destacada e foi proposto o estabelecimento de um grupo de trabalho internacional focado nos cães de gado. A permuta de experiências relacionadas com os progressos alcançados, os problemas encontrados e as melhores maneiras de os resolver, assim como a transferência de informações sobre o desenvolvimento de novos métodos e ferramentas para avaliar estes cães em diferentes cenários (por exemplo, pesquisas com cães com colares GPS) foi considerada fundamental.”

Mas este é apenas o começo. Seguem-se artigos sobre outros temas: métodos de prevenção aplicáveis a gado em maneio extensivo; o comportamento dos lobos face a vedações eléctricas; a reacção destes animais a estímulos novos; a preparação para a crescente presença de ursos e lobos no Tirol italiano; as evoluções do maneio e da gestão do gado no cantão suíço de Valais – “um exemplo de como a gestão do lobo e a política agrícola pode ter impacto sobre as práticas das explorações pecuárias de pequena escala” ; sem esquecer um resumo das tendências actuais nas explorações “Predator Friendly” (tolerantes para com os predadores), onde práticas de controlo não-letal podem ser complementadas pela comercialização de produtos com o valor acrescido de uma denominação que cativa consumidores pela coexistência pacífica e sustentável com os animais selvagens. Um tema que poderá bem vir a ganhar actualidade em Portugal, assim se juntem os desígnios de criadores de gado com visão e do marketing...

Como se vê, trata-se de leitura interessante e quase insubstituível para quem se quer manter actualizado neste campo, indo mais longe do que a mera teoria e dando-lhe acesso ao saber de experiência feito em inúmeros países.

 

Tempo de renascer

O solstício de 21 de Junho marcou o dia mais longo do ano; mas foi também uma ocasião para os festejos com que os homens desde sempre celebraram os ciclos da Natureza, a sua generosidade e os seus frutos. Dos druidas de Stonehenge à ocupação da Times Square, em Nova Iorque, por praticantes de yoga, esta ocasião astronómica nunca deixou de ser assinalada pelas sucessivas civilizações que foram construindo a narrativa da História humana.

Em Portugal, com o país ainda incrédulo ante a tragédia de Pedrógão Grande, o tempo foi mais de infelicidade do que de alegria.   

Aliás, há cerca de dois anos tínhamos aqui reflectido sobre esta desgraça cíclica dos incêndios florestais, notando que a «simples expressão, a “época dos incêndios” é emblema de um certo fatalismo também muito nosso; aperta o calor, esperamos logo que comecem a irromper os dramas na televisão ou na mata mais próxima. Mas mesmo o mais poderoso país do mundo, os EUA, têm estados, como a Califórnia, que são regularmente massacrados por incêndios gigantescos, que nem meios de combate a condizer conseguem impedir de consumir casas e vidas humanas – no total, já perto de 60 bombeiros americanos perderam a vida neste ano. O aquecimento global só irá contribuir para piorar este cenário, também em Portugal; toda a prevenção será cada vez mais indispensável.

Agora, é tempo de confortar as vítimas, ajudar os afectados a reconstruir as suas vidas e apurar responsabilidades; logo de seguida, teremos de tomar decisões relativas à nossa floresta para dificultar a repetição de semelhantes catástrofes.

E a vida vai seguindo, com a Natureza a renovar-se e as comunidades a fazerem por encontrar ainda luzes de esperança no futuro. Por exemplo, a Câmara Municipal de Torre de Moncorvo celebrou o solstício com um leque variado de iniciativas, sobretudo para os mais jovens. O Grupo Lobo foi convidado para organizar leituras de uma versão especial da história do Capuchinho Vermelho, com o lobo ibérico surgindo não como vilão mas apenas como animal que se vê levado a atacar o gado quando não tem presas naturais ao seu dispor.

Em Salvaterra do Extremo, no concelho de Idanha-a-Nova, teve lugar o Eco-festival bienal Salva a Terra, com inúmeros concertos, workshops, conferências, passeios interpretativos, cinema ao ar livre e muito mais. Tudo com o objectivo de angariar fundos para o Centro de Estudos e Recuperação de Animais Selvagens.

Aqui, o Grupo Lobo participou de diversas formas: com um espectáculo de fantoches, actividades didácticas para crianças, intituladas “Biólogo por um dia” e “Pegada na massa” e uma apresentação sobre a situação do lobo ibérico na Beira Interior. Contribuindo ainda para a deslocação da companhia teatral Jangada, da Lousada, que levou à cena, de forma graciosa, a sua peça musical “Pedro e o Lobo”, após o que foram distribuídos livros ilustrando a mesma; um verdadeiro sucesso entre miúdos e graúdos!

Turistas em terras de lobos

Manhã de Domingo. Pelo caminho empoeirado, segue uma caravana peculiar: carrinhas, um todo-o-terreno, até uma scooter. Largaram de Santo Estevão, no concelho do Sabugal.

Uns vieram de longe, outros de mais perto. Todos com um objectivo comum: descobrir a vida rural de hoje, num passeio sob a sombra tutelar do lobo ibérico. Não contam ver um destes esquivos animais, raros e temerosos do Homem – mas saber como se vive em terra de lobo, como é que a pastorícia tem vindo a (re)aprender a coexistência com o predador... é atractivo bastante para trazer gente da cidade até às nossas terras, em busca de modos de vida que muitos imaginam extintos.

Mais abaixo na picada, um território único: prados ainda verdes, lameiros bem cuidados, castanheiros imponentes, giestas em flor. Dentro dos carros, abrem-se bocas de espanto; e os que vieram de perto sentem um renovado orgulho nos panoramas que afinal estão mesmo ao virar da esquina.

Chegamos à Quinta dos Rebolais. A caravana vai estacionando, o pó dos rodados aquieta-se, os visitantes saem ainda a piscar os olhos pouco habituados à luz  – e ao ar livre, quiçá... Há famílias, casais sem crianças, exploradores a solo; saíram de Aveiro, Almada, Lisboa, Covilhã e Fundão. Todos buscam saber mais, ver tudo, conversar com quem aqui labora. E mais, claro: provar as delícias da terra, começando pelo afamado queijo.

As cabras são logo as “estrelas” para que todos convergem, a par com os robustos cães que têm por missão protegê-las e “virá-las”, facilitando o trabalho ao pastor. O dia anima-se com um passeio a acompanhar o gado até ao pasto e depois de volta. Conversando pelo caminho com o proprietário da Quinta, que não se faz rogado para explicar o seu modo de vida, as suas batalhas quotidianas, as suas expectativas. Naturalmente, o lobo vem à baila: o pastor sabe que os seus animais devem ser protegidos. Mas reconhece que o nosso maior predador tem o importante papel de eliminar javalis e outros animais que estejam doentes, antes que algumas maleitas possam ser comunicadas ao gado.

Depois é hora de ordenha; os mais afoitos oferecem-se como voluntários, colocando mãos à obra na elaboração de queijos que mais logo irão provar. E, para retemperar energias, um variado almoço campestre, onde os vegetais e o queijo são reis, bem acompanhados por um excelente lombo assado e um tinto local.

Depois dos cafés, uma apresentação sobre o lobo ibérico: a sua biologia e ecologia, os mitos que o acompanham, os esforços hoje em dia feitos para o salvar.

Para refrescar e encerrar o dia em grande, ruma-se à praia fluvial do Meimão; além do refrescante mergulho, eis o queijo antes preparado pelos visitantes, e outras delícias.

Assim correu mais um programa de Ecoturismo organizado pelo Projecto Med-Wolf. Esperando abrir mentes e caminhos para que o património que é a pecuária e o lobo possa ser usado como dinamizador da economia local. Está desde já convidado a participar no próximo!

Nova volta a Itália

Apesar do título que aqui usámos, não vamos falar de ciclismo, nem do “Giro”, a Volta à Itália em bicicleta, cuja 100.ª edição corre agora pelas planícies e montanhas italianas. Trazemos sim notícias de uma missão de intercâmbio e observação que levou vários criadores de gado portugueses à região italiana da Toscana.

Ali, o grupo, acompanhado por um técnico da Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Castelo Branco, visitou várias explorações pecuárias onde já existem, graças ao Projecto Med-Wolf, meios de protecção contra ataques de predadores. Em conversa com os seus colegas italianos, os nossos compatriotas puderam assim comparar experiências e aquilatar das semelhanças e divergências entre as situações italiana e portuguesa.

Além de colocar alguns cães de raça Maremmano-Abrucense, o Projecto tem facilitado a instalação de bastantes vedações, convencionais e eléctricas, com resultados muito positivos.

Como salientou Valeria Salvatori, coordenadora internacional do Projecto, “estamos a trabalhar para tentar reduzir os conflitos entre os predadores e as actividades pecuárias no território, sabendo que o uso bem gerido de instrumentos de prevenção vai reduzir os danos causados pelos predadores e assim mitigar o conflito. A delegação portuguesa, que está a visitar connosco explorações que pediram e adoptaram bons meios de protecção, partilhou os seus pontos de vista sobre as dificuldades actuais da gestão pecuária mas também as vantagens oferecidas pelos métodos de prevenção trazidos pelo Projecto.”

Os criadores lusos visitaram ainda a DifesAttiva, uma associação formada por explorações agropecuárias que já utilizam cães e cercas do Projecto para proteger os seus efectivos. Trabalhando também na divulgação das melhores formas de integrar cães de gado e na criação de um rótulo de qualidade para distinguir produtos de explorações apostadas na coexistência com o lobo.

Esta viagem de estudo representa mais um passo na estratégia do Med-Wolf: disseminar conhecimento e partilha de experiências entre profissionais dos dois países, mostrando que os problemas e as melhores soluções não são muito diferentes na Toscana e na Guarda ou em Castelo Branco.

Há bem pouco, aquando do Congresso do Lobo, em Castelo Branco, uma operação de intercâmbio já havia ocorrido, em sentido inverso. Numa reunião de trabalho, 20 criadores pecuários e 18 técnicos, oriundos de Portugal, Itália, Espanha, Suíça, França e até do Canadá, discutiram problemas comuns e procuraram soluções.

Primeiro apresentando os casos das suas explorações, depois, em pequenos grupos que combinavam diferentes nacionalidades e sistemas de maneio, elencando dificuldades partilhadas (foi identificado um total de mais de três dezenas!) e discutindo possíveis formas de solucionar cada uma delas.

Em breve, resumiremos aqui os resultados desta produtiva sessão de trabalho.

Passeie entre pastores e lobos

Já aqui o afirmámos: a presença do lobo pode ser um activo económico, ao funcionar como chamariz de turistas. Aqui ao lado, na reserva espanhola da Serra da Culebra, estima-se que em 2012, só de receitas directas em dormidas e refeições, o comércio local lucrou mais de 600.000 euros com o turismo centrado no lobo.

No lado português da Raia, há menos lobos e é difícil prometer ao turista que os vai poder ver. Mas há muito para descobrir, em torno do nosso maior predador: a tradição da pecuária, passeios deslumbrantes, uma riqueza natural ímpar, a simpatia das nossas gentes e a nossa gastronomia. É nesta oferta variada e sedutora que o Projecto Med-Wolf tem estado a apostar, nos passeios temáticos que já levou a cabo, com assinalável sucesso, aliás.

Com o bom tempo, chega a hora de mais duas iniciativas-piloto. Arrancando já no dia 10 de Junho, com o passeio “Um Dia com o Pastor, em Terras de Lobo”. Programa resumido: encontro no Largo do Chafariz, Santo Estêvão, Sabugal, às 9 horas. Fácil caminhada até à Quinta dos Rebolais, acompanhando um pastor, o seu rebanho e os seus cães. Chegada à quinta, convívio com a família do pastor e participação na ordenha das cabras e na preparação do queijo.

Segue-se um gostoso piquenique, com vários produtos locais. Para acompanhar a digestão, uma apresentação sobre o lobo ibérico: a sua biologia e ecologia, os mitos que o acompanham, os esforços hoje em dia feitos para o salvar. Ao lanche, uma prova do queijo produzido no próprio dia, com pão e compotas regionais; uma experiência que poucos puderam já saborear... Por fim, um refrescante mergulho nas águas da barragem do Meimão; antídoto perfeito para o calor que já se vai fazendo sentir.

Nos fim-de-semana de 17 e 18, é a vez do programa “Lobos em Terras do Côa”:

Encontro às 15:30 na aldeia de Cidadelhe. Apresentação sobre o lobo no Centro Interpretativo, perto da capela. Visita à Reserva da Faia Brava; observação de grifos e abutres do Egipto.

Jantar com petiscos regionais na Taberna do Juiz – aldeia do Juízo. Uma mesa farta com os melhores produtos da nossa região.

No Domingo, logo pelas 9:30, uma caminhada até ao Fojo do Lobo, o único do Centro de Portugal. No resto da tarde, poderá descobrir um dos excelentes restaurantes da zona e várias Aldeias Históricas que são testemunhos vivos de tempos e acontecimentos do nosso passado. Sem esquecer as termas da Fonte Santa em Almeida. Escolhas não faltam.

Estes programas custam apenas, respectivamente, 15 e 25 euros por pessoa, com descontos para crianças. São organizados pelo Grupo Lobo e pelas empresas turísticas Rotas e Raízes e Montes de Encanto. Informações e reservas pelo telefone 933237709 ou 217500073. Email: globo@fc.ul.pt.

Não perca estas oportunidades de conhecer melhor o nosso território, sob um ponto de vista que talvez desconheça.

Crianças e lobos

O velho adágio popular do “burro velho não aprende línguas” não faz muito sentido. Nunca é tarde para alargar horizontes, apreender, mudar de posições face a questões das nossas vidas.

Mas certo é que a consciencialização das populações, sobretudo a propósito de temas ambientais, tem tido mais êxito através da educação dos mais jovens. Quantas crianças não terão já convencido os pais a separar lixo ou a não desperdiçar recursos? E elas depois crescem e tornam-se adultos mais conscientes e com práticas mais sustentáveis.

Por isso, o Projecto Med-Wolf tem organizado inúmeras sessões de informação, exposições e palestras em escolas; mas também em contextos que desafiam os jovens e os levam a conhecer mais de perto a Natureza.

Por exemplo, integrando o projecto “Junto à Terra”, uma iniciativa da EDP para dar a conhecer e valorizar o património natural da zona de Trás-os-Montes abrangida pelas barragens do Baixo Sabor e de Foz Tua. Alunos de Alfândega da Fé, Macedo de Cavaleiros, Mogadouro e Torre de Moncorvo percorreram 5 oficinas temáticas – todas integradas num Passaporte a ser preenchido com “Selos” das diversas actividades – incluindo a da “Descoberta do Lobo”. Aqui aprenderam a reconhecer pegadas, o dia-a-dia de uma alcateia, muitos dos mitos e lendas que rodeiam este animal único. Nas palavras do Hugo, um dos alunos que participou nas oficinas, “aprender no campo é mais interessante do que estar um dia inteiro fechado na escola”. Além de complementar o ensino clássico com toda uma valiosa paleta de cheiros, panoramas e experiências, poderíamos nós acrescentar.

Mas não se trata apenas de um dia de campo; em breve estes alunos irão produzir conteúdos multimédia que transmitam às suas comunidades o que ali aprenderam, mormente a relação das riquezas naturais de que usufruímos com importantes actividades económicas, da fileira do azeite à criação de cães de gado.

No passado dia 7 de Abril, o Grupo Lobo esteve também no Município de Lousada, na apresentação da obra de Luiz Oliveira e Fedra Santos, “Pedro e o Lobo”, que contou com a colaboração do Grupo Lobo na produção dos textos relativos ao lobo ibérico. Este livro passa a integrar o Plano Municipal de Leitura e vai ser distribuído aos alunos do 3.º ano de escolaridade de todas as escolas do concelho. Uma obra muito interessante que a companhia de teatro Jangada de Pedra encena recorrendo a formas animadas, num jogo visual sempre a seduzir e a divertir os petizes. Foi ainda inaugurada a exposição itinerante “Um Uivo pela Sobrevivência”, patente na Biblioteca Municipal de Lousada até ao final do mês de Abril.

Esta actividade formativa não pára, mesmo no Centro de Recuperação do Lobo Ibérico, onde a presença de escolas é uma constante, sendo muitas vezes recebidas com o “bónus” das histórias do contador António Fontinha.

Porque a Terra pertence aos nossos filhos, convém que eles aprendam a tomar conta dela.

Vacinas, cães e lobos

Pelas piores razões, as vacinas estão no centro de notícias e muita discussão. Isto pelo aparente regresso de uma doença há muito tempo discreta: o sarampo. Relativamente inócua em crianças, pode ter resultados e sequelas bem graves em adultos e jovens. Como aconteceu agora.

Neste caso, a recusa da vacinação não resultou de qualquer crendice dos pais, mas foi influenciada por uma reacção violenta a uma outra vacina. No entanto, após notícias, depois desmentidas, que estabeleciam uma ligação entre autismo e vacinas, países como os EUA viram decrescer bastante o número de crianças imunizadas: o que as coloca em risco e também ameaça pessoas com sistemas imunitários debilitados que podem vir a contactar com portadores de doenças sem sintomas.

Em Portugal a vacinação não é obrigatória para os humanos; mas é-o para animais domésticos como os cães. A raiva, por exemplo, pode colocar pessoas em perigo, se forem atacadas por animais contagiados. Apesar de oficialmente erradicada desde 1956, esta doença causou já dois mortos no nosso País neste século, com um dos casos a resultar de uma mordedura de um cão ocorrida na Guiné-Bissau, e o outro causado por um ataque de um gato, em Angola.

Em toda a Península Ibérica, apenas foi diagnosticada raiva a um animal destas duas espécies em dias recentes: um cão espanhol que, há quatro anos, atacou várias crianças e um adulto antes de ser abatido pela polícia. Veio depois a apurar-se que contraíra a doença em Marrocos, onde passara alguns meses.

As variantes comuns da raiva são a forma “muda”, que começa por causar prostração. Segue-se a paralisia muscular e tremores, acabando o animal infectado por ficar com a língua pendurada, sem conseguir beber nem comer. A morte ocorre poucos dias depois, geralmente devido à paralisia dos músculos respiratórios.

A forma “furiosa” é que dá a hidrofobia o seu nome mais conhecido, “raiva”: os animais ficam inquietos, com pupilas dilatadas e comportamentos agressivos, mesmo face a objectos imaginários. Baba com espuma, convulsões e paralisia são outros sintomas. Um animal com raiva furiosa terá uma semana ou menos de vida.

Para evitar esta e outras doenças, todos os cães de gado integrados em rebanhos e manadas no decurso do projecto MedWolf são devidamente vacinados, sem despesas para os seus donos.

Note-se, para finalizar, que os próprios lobos também contribuem para diminuir o alcance de algumas doenças, estas nos animais pecuários. Tendo mais facilidade em caçar javalis e veados  debilitados por doenças, evita que estes transmitam ao gado maleitas como a tuberculose e a brucelose. Sendo um superpredador, diminui ainda os números de outros carnívoros, como a raposa, a geneta, o texugo ou a fuinha, minimizando o seu impacto sanitário nos animais domésticos e na caça. Quase como uma vacina da própria Natureza...

O lobo e as presas silvestres

Não há grande mistério sobe a alimentação do lobo em Portugal: há mais de 30 estudos sobre o tema, partindo da análise de fezes recolhidas em várias zonas. Sabemos que este predador, infelizmente, tem por base do seu sustento as espécies domésticas: cabras, ovelhas, vacas e equídeos surgem em mais de 70% das amostras. Note-se que o lobo também se alimenta de carnívoros, como raposas, gatos e cães, o que prova a sua importância no controlo do número de carnívoros de médio porte, em particular de cães vadios.

Um caso muito interessante encontra-se no Parque Natural de Montesinho, distrito de Bragança, onde os animais pecuários representam menos de metade da dieta do lobo e os ungulados silvestres, como o javali, o corço e o veado, são parte muito significativa da mesma. Em algumas regiões, verifica-se, desde 1980, um aumento no consumo destes animais por parte do lobo; por exemplo, uma alcateia do núcleo populacional de Bragança passou de 30% na década de 1980 para 70% na década de 1990.

Ou seja: quando o lobo encontra mais animais silvestres no seu território, tende a alimentar-se deles com maior frequência, recorrendo menos ao gado doméstico, o que facilita a coexistência entre o predador e os seres humanos.

Parece uma equação simples: para diminuir o número de ataques a explorações pecuárias, mitigando os conflitos, basta povoar as nossas serras de espécimes que o lobo aprecie. Não de forma irresponsável, como aconteceu no início desta década, quando corços importados de França foram libertados na Serra da Estrela, para delícia dos caçadores mas com elevados riscos de transporte de doenças perigosas, como a raiva.

Desde o final de 2011, corre nas Serra da Freita, Arada e Montemuro um projecto de reintrodução do corço. Da responsabilidade da Universidade de Aveiro e da Associação para a Conservação do Habitat do Lobo (ACHLI), tem vindo a acompanhar no terreno a adaptação das dezenas de animais recém-chegados, esperando que se possa implantar ali uma população silvestre viável. Para tal, alguns destes corços estão a ser seguidos por GPS.

Segundo um responsável da ACHLI, “Nesta região, o lobo depende muito dos rebanhos e faz sentido a reintrodução de presas naturais porque as alcateias preferem estas aos animais domésticos”.

No papel, tudo parece bem encaminhado: ajudamos a enriquecer estes habitats com espécies que em tempos já os povoaram, o lobo começa a optar menos vezes pelo gado doméstico e a suscitar menos ira por parte dos criadores.

Mas aqui entra em cena o factor negativo do costume. Os caçadores furtivos não querem saber do trabalho envolvido num projecto desta natureza; apenas querem abater mais umas peças. Assim, vão-se multiplicando os colares GPS que são encontrados naquelas serras... cortados pelo bicho mais daninho da criação, o Homem.

Comprovando mais uma vez que sem uma profunda mudança de hábitos, a preservação da biodiversidade e da herança natural que vamos deixar aos nossos filhos será muito difícil.

A questão do maneio

Sempre que o lobo, após algum tempo de ausência, intensifica a sua presença numa zona, surgem os mesmos problemas; quer se esteja na raia portuguesa ou em Itália. Os hábitos e tradições para defender o gado foram em grande parte esquecidos. As pessoas, desabituadas de conviver com este predador, inventam fábulas como as reintroduções (que nunca aconteceram na Europa), atribuem aos lobos hábitos “diferentes”, o diabo a sete. E estão hoje rotinadas com métodos que funcionavam bem sem lobos mas que agora são pouco eficazes, redundando por vezes num agudizar dos prejuízos.

Por exemplo; em zonas mais a norte de Portugal, inúmeras manadas de vacas são bem protegidas, mesmo que pastem em zonas muito extensas. A vigilância humana e bons cães de gado asseguram isso, assim como a recolha dos animais à noite e em situações mais vulneráveis: antes e após as parições, nos primeiros meses de vida ou animais debilitados. Mas estamos aqui em presença de criadores que nunca deixaram de contar com a ameaça do predador; nunca perderam de vista as cautelas a manter.

Por estas paragens os hábitos são outros. Mas a mudança é imperiosa; pelo recrudescimento da actividade do lobo e pelo previsível “apertar da malha” na atribuição das compensações. O maneio deve ser adaptado ao tipo de gado, ao tipo de pastagem, aos objetivos de produção, às características da região, mas também ao risco de ataques.

Sobre este tema, salientamos um artigo agora publicado na revista científica “Biological Conservation”, que tem por autora principal uma investigadora portuguesa, Virgínia Pimenta. Partindo da análise dos registos oficiais de 2012 e 2013, conclui-se que apenas 2% das explorações foram afectadas por ataques de lobo, dos quais menos de 4% sofreram mais de 10 ataques por ano. Após procederem a 68 entrevistas a criadores de gado, os autores constataram que os ataques foram concentrados no sistema de maneio extensivo, particularmente em manadas, pertencentes a vários proprietários e pastando sobretudo em terras comunitárias, longe do seu abrigo e raramente confinadas durante a noite.

Proteger esses efectivos durante a noite no Inverno parece ser o factor mais importante para reduzir os ataques de lobos, o que pode ser alcançado através da mudança das práticas de maneio. Os ataques foram muito mais reduzidos no sistema semiconfinado, provavelmente porque as manadas pastavam mais próximas do abrigo e eram frequentemente mantidas em cercas ou em estábulos. Explorações que levam os bezerros de três meses de idade para as pastagens foram associadas a cerca de 90% dos ataques.

A conclusão é animadora: «existem mudanças simples nas práticas dentro de cada sistema que podem ser relativamente fáceis de implementar e que podem reduzir bastante os prejuízos. Nessas circunstâncias, o conflito com os lobos pode ser mitigado sem a necessidade de mudar o próprio sistema de maneio pecuário». 

Os Reis da Europa Selvagem chegam ao Museu

O Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa e o Grupo Lobo apresentam a exposição ‘Reis da Europa Selvagem – os nossos últimos grandes carnívoros’ e convidam-no a estar presente na sessão de inauguração no dia 2 de março, às 18h00.

Trata-se de uma exposição cientificamente rigorosa que combina as vertentes didática e lúdica para dar a conhecer a biologia, o habitat, os hábitos alimentares, a organização social e as ameaças aos grandes carnívoros europeus – o urso, o glutão, o lince e o lobo – bem como a sua relação histórica e cultural com o Homem. É dedicada uma especial atenção ao lince-ibérico, o felino mais ameaçado do mundo, e ao lobo-ibérico, cujas populações continuam ameaçadas.

Cristiane Bastos-Silveira, curadora da coleção de mamíferos do MUHNAC, explica que a exposição se centra em torno dos grandes carnívoros por serem «um dos grupos animais mais controversos e complexos de gerir em termos de conservação devido, em grande parte, à existência de uma hostilidade muito enraizada na história e cultura da humanidade e também à ideia que ainda persiste de que o impacto destas espécies na vida do Homem é negativo».

«Temos algumas novidades, como dois dioramas totalmente produzidos no MUHNAC que representam os habitats do lobo e do lince ibéricos, mas também uma experiência de realidade aumentada onde o público vai ter a possibilidade de imergir um cenário virtual».

Para além de dar a conhecer os grandes carnívoros europeus, esta exposição é também mais uma face visível do projeto Life Med-Wolf, de que o Grupo Lobo, uma associação não-governamental de Ambiente cuja missão é a conservação do lobo e do seu ecossistema em Portugal, é o coordenador nacional.

Francisco Petrucci-Fonseca, Presidente do Grupo Lobo, explica que esta exposição, em parceria com o MUHNAC, «insere-se numa das ações do projeto Life Med-Wolf, cujo objetivo é diminuir o conflito entre a presença do lobo e as atividades humanas, em regiões rurais onde os hábitos culturais de coexistência se perderam. Esta exposição possibilita o conhecimento de espécies emblemáticas da nossa fauna, com dados científicos apresentados de uma forma acessível ao público em geral».  

Direcionada para o grande público e para todas as idades, “Reis da Europa Selvagem – os nossos últimos grandes carnívoros” é uma oportunidade única para conhecer melhor estas espécies, mas também lança pontes para uma maior tolerância e compreensão para com estes grandes carnívoros.

Os Reis da Europa Selvagem

Se está a ler este texto, se calhar interessa-se por vida selvagem, por estas coisas da Natureza. Sabe quais os carnívoros com os quais partilhamos o território nacional; sobretudo os maiores, como o lince e o lobo ibéricos. E claro que o urso, que já habitou estas paragens e talvez hoje em dia se dedique a regressos ocasionais, também lhe é familiar.

Mas talvez não conheça assim tão bem o glutão. Se for versado em super-heróis, pode ser que o reconheça pelo nome que os americanos lhe dão: “Wolverine”. Já os canadianos preferem chamá-lo “Carcajou”. É notório pelo seu apetite (que originou o nome) e pela ferocidade com que enfrenta adversários bem maiores do que ele. Habituado à neve, este parente do texugo, que faz mais lembrar um urso, ainda hoje habita países europeus como a Noruega, Suécia e Finlândia. Isto apesar das perseguições que lhe vão movendo, por contar com renas e ovelhas entre as suas presas.

Assim lhe apresentámos uma das estrelas da exposição Reis da Europa Selvagem, prestes a ser inaugurada no Museu Nacional de História Natural e da Ciência. Uma organização conjunta desta entidade e do Grupo Lobo, com o apoio do Projecto Med-Wolf e da Large Carnivore Initiative for Europe.

Será uma exposição sem paralelo em Portugal. Apresentando, pela primeira vez, exemplares de animais naturalizados (ou “embalsamados”) provenientes do espólio de um coleccionador particular, o senhor Valentim Fernandes dos Santos (1929-1997), para além de espécimes das colecções do próprio Museu. Será assim oferecida ao visitante a visão, sob um prisma original, de inúmeros animais, incluindo os quatro grandes carnívoros já mencionados mas também muitas das suas presas.

A exposição estará patente em 486m2 de espaço expositivo, integrando muitas soluções cénicas e interactivas de grande impacto e utilidade didáctica. O visitante terá a oportunidade de contemplar dezenas de exemplares naturalizados das presas naturais dos predadores; de grande (cabras, veados, alces), médio (coelhos, lebres, aves) e pequeno porte (roedores). Estes exemplares serão apresentados num cenário expositivo moderno, em que sons, imagens e novas tecnologias conduzirão o visitante a descobrir habitats recriados ao pormenor e a revisitar a herança cultural e os mitos que envolvem estes grandes carnívoros. Ficando ainda a conhecer melhor a actual situação das populações do lobo e do lince ibéricos.

Será mesmo algo nunca visto em Portugal: uma exposição espectacular e cientificamente precisa, juntando a vertente didáctica e um carácter muito lúdico. Em breve, vai poder saber tudo no endereço de internet museus.ulisboa.pt/. Prepare-se. Vai valer a pena a viagem a Lisboa, só para conhecer de perto o lobo, o lince, o urso e o glutão, derradeiros Reis da Europa Selvagem.

Os refugiados do reino animal

O Centro de Recuperação do Lobo Ibérico (CRLI) é um espaço único em Portugal. A 30 km de Lisboa, no concelho de Mafra, estendem-se 17 hectares de terreno, num vale isolado e arborizado, que servem de lar a alguns lobos ibéricos. Recriando o habitat natural destes predadores, os seus cercados têm dimensões em função do tamanho das alcateias que se vão formando, com topografia variada e uma boa cobertura vegetal.

Note-se que o CRLI nada tem a ver com as teorias da conspiração dos lobos “largados” ou “botados”. O Centro foi criado em 1987 pelo Grupo Lobo com o objectivo de acolher lobos que não podem viver em liberdade: vítimas de armadilhas, de maus tratos, de cativeiros ilegais e ainda outros que já ali nasceram no passado. Todos eles são responsabilidade do ICNF; não podem ser sequer transportados sem autorização oficial... quanto mais libertados – nunca nenhum o foi, nunca nenhum o será.

Ao mesmo tempo que o CRLI providencia os melhores cuidados aos animais que ali encontraram refúgio, facilita a realização de estudos que, com a investigação realizada na Natureza, servem de base para um esforço de comunicação que informa o público sobre a verdadeira identidade e essência do nosso lobo.

Ao longo dos 30 anos do Centro, mais de 100.000 visitantes descobriram um predador quase mítico, a sua biologia e ecologia; assim como as ameaças que sobre ele pairam. A maioria desses visitantes são crianças, vindas de escolas de todo o país. Os lobos aqui refugiados têm assim um importante papel: são verdadeiros embaixadores dos lobos na Natureza e sensibilizam a opinião pública para a causa de um dos últimos grandes carnívoros do nosso País.

Note-se que o CRLI vive da receita dos visitantes e graças à generosidade de apoiantes em todo o mundo; quando foi preciso comprar os seus terrenos, então em risco de serem perdidos, foram lançadas duas campanhas de angariação de fundos. Milhares de dadores das nações mais variadas deram uma ajuda decisiva para salvar o Centro.

O CRLI tem, ao fim e ao cabo, tudo a ver com o espírito do Projecto Med-Wolf: é dando a conhecer o lobo ibérico, desde sempre rodeado de mitos e superstições, que se explica às novas gerações (mas não só) que ele é apenas mais um animal, vivendo de acordo com os ditames da sua natureza e da evolução. Não é um monstro agressivo, mas um bicho tímido que tende a fugir mal vê humanos; não se trata de uma novidade em Portugal mas sim de um nosso conhecido de antanho – com que poderemos conviver melhor conhecendo os seus hábitos e as formas de defender os nossos animais das suas incursões. Um animal que faz parte da nossa forma de viver o campo; como a sua contraparte, o cão de gado. É todo este património cultural e natural que está também à vista dos visitantes do CRLI.

Quando for a Lisboa, não deixe de o visitar; informe-se como através do telefone 261 785 037.

A coexistência também se mostra

Um Projecto ambicioso como o Med-Wolf tem como alvo resultados a médio e longo prazo: modificação de mentalidades, educação de novas gerações para uma convivência menos conflituosa com o lobo.

Claro que a parte mais visível da nossa acção está sempre ligada a medidas muito práticas que melhoram o dia-a-dia das explorações pecuárias: dezenas de cães de gado cuidadosamente seleccionados e de vedações à prova de predadores já fazem parte do dia-a-dia de outras tantas explorações.

Mas a formação, o disseminar de informação correcta e equilibrada sobre o lobo, entre outros predadores, acaba por ser a melhor aposta para um futuro mais civilizado e com menos conflitos entre o bicho Homem e o seu ecossistema. Não há como duvidar da eficácia destas acções, sobretudo quando pensamos em quanto evoluiu em poucos anos a consciência dos portugueses quanto à reciclagem, por exemplo. A educação é a chave para a evolução.

O Projecto e o Grupo Lobo têm vindo a multiplicar-se em iniciativas que vão percorrendo todo o país, sempre divulgando dados científicos correctos da forma mais adequada a cada público. Desde o início do Projecto, mais de 4.000 alunos de vários graus de ensino foram alcançados pela nossa mensagem de tolerância e de aposta na coexistência.

Visitando escolas com o Wolf Kit, com um Teatro de Fantoches, apresentações por biólogos e pedagogos, sessões de leitura, visitas da simpática mascote Signatus... as abordagens são variadas, sempre com o cuidado de apresentar conteúdos didácticos de forma agradável e lúdica. No Centro de Recuperação do Lobo Ibérico, mais de 7.000 alunos de escolas oriundas de todo o país, puderam assim descobrir o mais imponente dos nossos predadores: o lobo. Os públicos mais adultos não foram esquecidos: duas exposições itinerantes, “Um Uivo pela Sobrevivência” e “Coexistir com os Grandes Carnívoros – O Desafio e a Oportunidade” já estiveram patentes em mais de 30 localidades, dentro e fora das zonas de presença do lobo. Contabilizando apenas com os espaços onde as entradas foram contadas, recebemos mais de 50.000 visitantes, que ficaram assim a conhecer um pouco mais sobre o nosso Ambiente e sobre um dos seus mais ameaçados integrantes.

Aliás, nos próximos dias a segunda daquelas exposições, que inclui um conjunto completo de posters informativos da Large Carnivore Iniciative for Europe, poderá ser visitada no Fórum Castelo Branco.

Em Fevereiro, este esforço terá o seu apogeu, no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa. Então, será inaugurada a maior exposição jamais dedicada aos grandes carnívoros: com inúmeros animais naturalizados, habitats recriados ao pormenor, conteúdos interactivos e muito mais. Será algo de nunca visto em Portugal:  uma exposição de grande porte, repartindo a sua vocação entre a vertente didáctica e um carácter fortemente lúdico. Vai valer a pena a viagem, só para conhecer de perto o lobo, o lince, o urso e o glutão, derradeiros Reis da Europa Selvagem.

Bom Ano Novo?

Embora o Inverno seja a estação do frio, da penúria, da escuridão e da luta mais dura pela sobrevivência, o solstício de Dezembro marca precisamente o momento em que os dias começam a ficar mais longos, expulsando pouco a pouco a escuridão.

Por isso, são incontáveis as tradições e os festejos que desde há milénios assinalam esta altura do ano. Mesmo o Natal pode ter vindo ocupar, no Império Romano, o lugar do pagão Sol Invictus – embora alguns estudiosos vejam essa “apropriação” precisamente ao contrário – e das festas desregradas da Saturnália, em que se trocavam prendas, os mestres serviam os seus escravos e o jogo era legal. Do escocês Hogmanay ao indiano Makar Sankranti, o “Festival dos Novos Inícios” que será celebrado a 14 de Janeiro, muitas destas celebrações estão ainda ligadas à propiciação de colheitas abundantes.

Hoje em dia, infelizmente, esta reverência face ao nosso mundo tende a ser substituído por uma indiferença quase criminosa, onde apenas o lucro rápido interessa, em desfavor dos ecossistemas de que fazemos parte e que iremos legar aos nossos filhos.

Mas as coisas tendem a mudar, mesmo que passo a passo. Para o lobo, por exemplo, estes têm sido dias de bons augúrios em vários países, para lá da confirmação de notícias que davam conta da sua expansão em territórios da Escandinávia, de França e da Alemanha.

Nos EUA, será distribuído perto de um milhão de dólares em nove estados, para assistir os criadores gado na minimização dos danos causados por ataques de lobos, através de meios não-letais, como vedações e cães de gado.

Na Noruega, um plano para abater quase 50 lobos, de uma população que não chega aos 70 exemplares, foi abandonado pelo governo. Isto após fortes campanhas junto à opinião pública para evitar um golpe terrível nas hipóteses de sobrevivência do mamífero mais ameaçado daquele país. Aqui, dois milhões de ovelhas são largadas nas florestas e montanhas, sem qualquer supervisão; menos de 2.000 são mortas a cada ano por lobos – um número ínfimo, comparado com as 100.000 que morrem por causas naturais ou atropeladas por comboios... Mesmo assim, o clamor pela morte de lobos esteve quase a ganhar.

Na Finlândia, está a ser testada uma curiosa medida de prevenção: para evitar que os lobos ataquem cães domésticos, estes vão “vestir” coletes com cartuchos de... piripiri. A ideia é irritar os olhos do predador ao primeiro ataque. Um dispositivo curioso que poderá, quiçá, vir a conhecer uma aplicação mais vasta, caso funcione mesmo.

Por cá, o Projecto Med-Wolf entra no seu derradeiro ano. Ainda com muito para contribuir para uma coexistência menos problemática entre o lobo e a pecuária. Assim haja boa vontade entre os homens e desejo de fazer de 2017 um ano mais benfazejo para todos.

Histórias da Bíblia e outras

Ainda há pouco aqui evocámos a dúzia de ocasiões em que o lobo é mencionado na Bíblia, como sinónimo de coisa sombria e malsã. Nada mais natural, pois desde tempos imemoriais que no Médio Oriente a pastorícia é uma das fontes de sustento das gentes.

Mas o Antigo Testamento dá-nos algumas pistas interessantes sobre o uso que já então era dado do descendente domesticado do lobo, o cão. Mesmo este sendo considerado um animal impuro, a sua utilidade é referida em várias passagens bíblicas; seja como guarda das casas (no Livro de Isaías) ou mesmo como protector dos rebanhos, como é referido em Job. Mais: até os cães assilvestrados, que ainda hoje representam um perigo para animais e para a saúde pública, são assinalados, no Livro dos Reis.

Sobre a criação do lobo, a Bíblia nada nos diz. Mas existem muitos Escritos que, de forma apócrifa, circulam em tradições milenares, contando-nos episódios cheios de sabedoria, que por uma razão ou outra não foram incluídos nos diversos cânones. Porque não acreditar num destes relatos, que nos explique a razão de ser da vinda do lobo ao mundo?

Estaria Deus no sexto dia da Criação, quando ordenou: “produza a terra seres viventes segundo as suas espécies: animais domésticos, répteis, e animais selvagens segundo as suas espécies”. Um dos Anjos que então O acompanhava atreveu-se a um alvitre: “mas porque libertas entre as mansas ovelhas o astuto e faminto lobo? Não vai ele causar desgostos aos homens?”

Deus, embora concentrado na Sua Obra, respondeu: “tudo tem o seu lugar nesta Minha Criação. Virá o dia em que até o lobo, que tanto te assusta, revelará a sua utilidade e conterá em si mesmo os remédios para as suas tropelias.”

Eras passaram até que tal desígnio se concretizasse: após o Dilúvio, Noé estava a preparar os animais para os devolver a terra firme, quando o seu filho Jafé o interpelou: “Pai, temos mesmo de libertar estes lobos? Por certo ninguém daria por falta deles…” Noé estava ciente do carácter inescapável da sua missão, pelo que respondeu: “vamos fazer até mais do que isso, filho de pouca Fé. Os cachorros que eles geraram aqui na Arca ficarão connosco. Vamos criá-los como companheiros. E por gerações infindas eles vão ter a missão de guardar o gado dos ataques dos seus antepassados. E serão muito mais do que guardiães: vão acompanhar os solitários, guiar os cegos, alegrar os mais tristes.” E assim tem sido, desde então.

No terceiro Concílio de Niceia, foi decidido que os animais não têm alma. Isto apesar de passagens como o Salmo que encoraja todos os seres vivos a louvar o Senhor e das belíssimas advertências do Eclesiastes. Mas a ideia de que cada animal tem um papel a desempenhar nunca deixou de fazer parte da forma cristã de viver o mundo; que assim continuemos, neste Natal e num 2017 que todos desejamos mais dedicado à coexistência e à Paz.

Coisas que vão mudando

Com a aproximação do fim do ano, começa a ser tempo de pensar nos inevitáveis balanços, as costumeiras adições nas colunas das boas e das más notícias com que 2016 nos bafejou. Este, pelo menos a nível internacional, reservou-nos algumas boas novas, no que tange à conservação do lobo, nos países europeus que nos são mais próximos pela geografia e pelas línguas.

Na vizinha Espanha, muito parece estar a mudar na tradicional impunidade dos que matam lobos de forma ilegal. Perto de Ávila, dois exemplares apareceram abatidos por disparos de armas de fogo; até aqui, infelizmente, nada de inédito – mas as autoridades desta vez não descansaram até chegarem à identidade de três responsáveis por este crime contra a Natureza (e contra a Lei espanhola; recorde-se que o abate de exemplares desta espécie é interdito abaixo do Rio Douro). Três participantes numa montaria foram assim detidos, após meses de investigações policiais, desencadeadas por uma denúncia. Já em Segóvia, um caçador furtivo fora antes preso, depois de divulgar fotos suas ao lado de um lobo que matara e de ter mandado a pele do mesmo a um taxidermista.

Aqui como em Espanha, já vai sendo hora de todos percebermos que a lei é para cumprir. Não podemos exigir as devidas compensações pelos ataques dos lobos a animais domésticos e depois ignorar que este mecanismo faz parte da Lei que protege o lobo ibérico.

Em França, as notícias são surpreendentes: segundo o “Observatoire du loup” – uma associação que reúne uma equipa multidisciplinar de especialistas –, o lobo estará às portas de Paris. Várias testemunhas terão vislumbrado este esquivo animal no território da Île-de-France, região a que pertence a capital francesa; mas a confirmação da sua presença ocorrerá apenas quando dejectos forem alvo de análises genéticas positivas, pois convém não esquecer que algumas raças de cães são extremamente parecidas com lobos.

Por fim, Itália. Impulsionada pelo Projecto MedWolf, acaba de nascer a DifesAttiva, uma associação formada por criadores de gado que já utilizam as ferramentas de prevenção, cães e cercas, fornecidas pelo Projecto para uma protecção eficaz dos seus animais. Tendo ainda como objectivos a divulgação das melhores formas de seleccionar e usar cães de gado e ainda o desenvolvimento de um rótulo de qualidade para distinguir produtos de explorações empenhadas na coexistência com o lobo.

Nos escassos meses que decorreram desde a sua fundação, esta plataforma já conta com 11 explorações agropecuárias associadas, tendo colaborado na integração de 30 cães e na instalação de 60 vedações à prova de predadores.  

Mais um excelente exemplo, depois da já aqui mencionada associação galega O-Xan, que pugna por uma “coexistência co-responsável”, em que a pecuária e a presença do lobo não tenham de ser mutuamente exclusivas. Que em breve estes exemplos frutifiquem também em Portugal...

Arte com lobos

O lobo, animal que desde há muito tem uma grande distribuição por todo o globo, foi parte da vida e da arte de inúmeros povos primitivos. Mesmo na Península Ibérica: junto a Ciudad Rodrigo é ainda hoje visível uma imagem paleolítica de um lobo, dentro de um auroque; no Vale do Côa, existe uma gravura que, de acordo com os especialistas, ilustra um homem com cabeça de lobo.  

Depois, o Cristianismo, seguindo as 13 menções bíblicas ao lobo, todas de cariz negativo, consolidou o novo papel deste predador na Arte europeia: durante séculos, surgiu apenas como símbolo maligno, exemplo das adversidades causadas pela Natureza, ou sob a forma do temido lobisomem – apenas milagres como o de S. Francisco de Assis e do lobo de Gubbio fugiram à regra. Mesmo o grande pintor de animais do século XX, o alemão Franz Marc, só pintou lobos como emblemas do espírito guerreiro que levaria à I Grande Guerra.

Em dias recentes, com a opinião pública mais sensível às ameaças sofridas por esta e muitas outras espécies, o lobo voltou a ser retratado sob uma luz positiva. Até em exagero: a maioria das representações artísticas actuais de lobos são meros pastiches, visões ditas “espirituais” decalcadas da Arte primitiva.

Uma bela excepção está desde Abril à vista de todos os que passem pelo Largo da Estação, no Fundão: uma enorme escultura a representar um lobo, da autoria do artista português Bordalo II.

Este street artist de 29 anos usa como matéria-prima objectos descartados, os restos inevitáveis de uma forma de vida dedicada à produção incessante, à acumulação e ao desperdício. Criando uma poderosa metáfora dos efeitos nefastos da sociedade de consumo sobre o nosso Ambiente, sobre todos os cidadãos do Planeta. As obras resultantes podem ser vistas não apenas em Portugal (vide a coruja instalada na Covilhã, o grifo de Alcains e várias peças em Lisboa) mas por todo o mundo, da Estónia às Caraíbas.

“É uma série de trabalhos que visa chamar a atenção para um problema da actualidade que tende a ser esquecido e tornado uma banalidade ou um mal necessário – a produção de lixo, o desperdício, a poluição e os seus efeitos no nosso planeta. A ideia passa por representar uma imagem da Natureza, neste caso os animais, construída com aquilo que a destrói. Estas obras são construídas com materiais em fim de vida, muitos encontrados em terrenos baldios, fábricas abandonadas ou por aí, outros vou buscar a empresas que terão de se desfazer deles para uma possível reciclagem. Pára-choques acidentados, contentores do lixo queimados, pneus, electrodomésticos, são algumas das peças que conseguimos identificar quando olhamos mais profundamente sobre a peça, que tende a camuflar o fruto dos nossos hábitos com pouca consciência ecológica e social.” Assim nos descreveu o artista a génese dos seus “big trash animals”. Em Miami, por esta altura, está a nascer mais um. 

Um êxito a repetir

Depois de meses de preparação; de elaboração de dezenas de comunicações e de posters; de infindáveis pormenores a solucionar e dificuldades a resolver. Por fim. aconteceu o IV Congresso Ibérico do Lobo.

O êxito começou logo pelo número de inscritos: nada menos que 145, entre especialistas portugueses, espanhóis e italianos. Melhor ainda: muitos dos inscritos pouco tinham a ver com esta temática, para lá de um grande interesse na preservação do nosso património natural.

Ainda antes do arranque, no dia 27, ocorreu uma iniciativa inédita e de resultados muito promissores: um encontro entre criadores de gado nacionais e congéneres estrangeiros. De Espanha, da Suíça e da região italiana de Grosseto... foram 39 os participantes neste fórum, em que se discutiram dificuldades da produção pecuária em terras de lobo e soluções que passam por diferentes métodos de protecção e de maneio do gado. Incluindo valorização dos produtos pecuários e do território. Do Canadá, veio Louise Liebenberg, responsável por uma propriedade gigantesca para os padrões portugueses, partilhando experiências com os seus 9 cães de gado e processos de rendibilização da presença de predadores, através da comercialização de produtos que se anunciam como respeitando a busca de uma coexistência mais pacífica com carnívoros como o lobo e o coiote.

Na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Castelo Branco, os participantes tiveram o privilégio de assistir a apresentações dos oradores convidados, três figuras cimeiras do mundo do estudo do lobo: John Shivik, gestor florestal do estado americano do Utah, relembrou a importância central da componente humana na gestão de conflitos com predadores; Petter Wabakken apresentou-nos os resultados de décadas de persistente estudo do lobo na Noruega; Steve Redpath, professor da Universidade de Aberdeen, descreveu alguns passos indispensáveis para envolver os criadores de gado na deliberação das medidas a tomar.

Os participantes foram apresentando, em 39 comunicações orais e 26 posters, o estado actual das suas pesquisas e do seu trabalho no campo. Abrangendo áreas tão díspares como a genética, a dinâmica das alcateias ou a construção de cercas anti-predadores.

Em redor do Congresso, muito foi acontecendo. Além das anunciadas exposições no CyberCentro, na Biblioteca Municipal de Castelo Branco e no Cine-Teatro, o próprio auditório onde decorreu o congresso recebeu a exposição “Cãostelação”, do fotógrafo Carlos Pimentel e produzida pelo Canil d’Alpetratínia, centrada nos vultos imponentes dos Cães da Serra da Estrela. Ao lado, uma pequena exposição de artefactos ligados à pastorícia e à produção de queijo, organizada pelo mesmo Canil. O Eco-Mercado foi um sucesso muito especial, com inúmeros produtos, do mel a vinhos, em exposição e venda.

Agora, é hora de começar já a planear o V Congresso Ibérico do Lobo, em Espanha...

Saber Mais, Coexistir Melhor

Nesta semana, o lobo ibérico é a estrela em Castelo Branco

O IV Congresso Ibérico do Lobo, arranca já no dia 27, prolongando-se até dia 30. Em Castelo Branco, na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico, as comunicações vão suceder-se, de peritos portugueses, espanhóis e italianos.

Cobrindo os últimos avanços e novas perspectivas sobre as dimensões Biológicas, de Gestão e Conservação e Sociais associadas à luta pela sobrevivência do maior predador a habitar território português. Isto além dos influentes e relevantes oradores convidados, sem excepção pela primeira vez num encontro deste tipo em Portugal:

John Shivik – Serviço Florestal dos Estados Unidos da América

Petter Wabakken – Universidade de Hedmark, Noruega

Steve Redpath  – Universidade de Aberdeen, Reino Unido

 

Eco-Mercado

Com produtos, sabores e tradições das terras de lobos.

Escola Superior Agrária do IPCB

Quinta da Senhora de Mércules

Junto ao Anfiteatro onde decorre o Congresso

De 27 a 29/10, 09h30 – 19h30

 

Exposição didáctica “Coexistir com os grandes carnívoros: O Desafio e a Oportunidade”

Biblioteca Municipal de Castelo Branco

Campo Mártires da Pátria (Ex Quartel da Devesa)

De 6/10 a 8/11, de Segunda a Sexta-feira, 10h00 – 18h30

 

Exposição “Arte com lobos”

O ecozine Celacanto, criado pela editora Qual Albatroz, dedicou o seu segundo número ao lobo. E apresenta aqui as obras de arte que nele figuram.

2.º Foyer do Cine-Teatro Avenida

Avenida G. Humberto Delgado

27/10 a 30/11, de Terça-feira a Sábado, 14h00 – 19h00

 

Exposição  “O lobo em fotografias”

Primeira mostra do biólogo e consagrado fotógrafo Joaquim Pedro Ferreira. O lobo ibérico, os seus habitats, as suas presas silvestres. Um olhar deslumbrante sobre este património que temos de salvar.

Cybercentro

Campo Mártires da Pátria (Ex Quartel da Devesa)

De 25/10 a 30/12, Segunda a Sexta-feira. 09h00 – 12h30; 14h00-18h00

 

O site www.congressolobo.pt Apresenta a programação detalhada deste Congresso. Todos que que vierem pelo bem da Natureza são bem-vindos!

O mundo do lobo em Castelo Branco

Está aí o IV Congresso Ibérico do Lobo, já de 27 a 30 deste mês. Em Castelo Branco, na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico, vão estar congregados praticamente todos os especialistas ibéricos que estudam este predador tão ameaçado.

Mais: para lá da sua dimensão biológica e ecológica, serão também debatidos os aspectos da gestão e conservação da espécie e a importante vertente social, em causa nas tensões entre a presença do lobo e a pecuária. Ou seja, não se trata apenas de conhecer melhor o lobo ibérico mas também de tentar encontrar caminhos para harmonizar a sua presença com as actividades humanas. Daí o lema deste Congresso: “Saber Mais, Coexistir Melhor”.

Além de estudiosos de Portugal e de Espanha, teremos representação de Itália – não esquecer que o Projecto MedWolf também ali está activo – e ainda, como convidados especiais, três das maiores autoridades mundiais deste campo. John Shivik, do Serviço Florestal dos Estados Unidos da América; Petter Wabakken, da Universidade de Hedmark, Noruega, e Steve Redpath, da Universidade de Aberdeen, no Reino Unido. Aguarda-se com grande expectativa as apresentações destes cientistas, presentes pela primeira vez num encontro em Portugal.

Ainda no lado científico, teremos dezenas de apresentações e posters da autoria dos congressistas, em sessões que por certo vão contribuir para uma partilha intensa de conhecimentos e experiências.

Não se julgue, no entanto, que se trata de um evento somente académico, longe da população e insensível às suas preocupações. Antes do Congresso, teremos um encontro de Criadores de Gado, onde convidados de várias regiões do país, e também de Itália, de Espanha e da Suíça, terão oportunidade de partilhar as suas experiências, tendo em vista uma melhor protecção de rebanhos e manadas.

Ao longo do Congresso, um Eco-Mercado promoverá a divulgação e valorização de produtos locais dos territórios que o lobo habita. Dando a conhecer produtos de qualidade da região e impulsionando o desenvolvimento sustentável em terras de lobo, será um espaço dedicado à mostra e venda de artigos, junto ao anfiteatro do Congresso. Exemplos de artigos são o azeite, os queijos, as compotas, as bolachas caseiras e as castanhas.

Paralelamente ao Congresso, irão decorrer algumas exposições sobre o lobo em diferentes locais e instituições da cidade de Castelo Branco, abrindo a iniciativa a toda a população interessada em vários espaços desta cidade, como a Biblioteca Municipal, onde já está patente a exposição “Coexistir com os Grandes Carnívoros – O Desafio e a Oportunidade”. Mostras de fotografia e de ilustração, eventos para os mais novos e para os seniores... as surpresas serão bastantes.

No site www.congressolobo.pt pode ir ficando a par das novidades e acompanhando os trabalhos. Apareça; todos são bem-vindos!

Um ecossistema de conservação

Já nestas conversas evocámos o sucedido há 80 anos na Austrália quando uma centena de sapos marinhos foi importada para aquele imenso país, para liquidar uma praga de escaravelhos que ameaçava as preciosas plantações de cana-de-açúcar. Foi pior a emenda que o soneto: os sapos, venenosos e capazes de se multiplicar como bactérias, invadiram porções imensas do território australiano, ultrapassando agora os 200 milhões de exemplares. São inúmeras as espécies quase extintas pelos sapos invasores; através do seu veneno e pelas doenças que eles transmitem.

Mas nem só de exemplos exóticos se fazem os eventos catastróficos em que a presença de uma espécie basta para colocar em tumulto todo um ecossistema. Imagine o leitor uma espécie voraz e tóxica, capaz de secar cursos de água ou de os envenenar; habituada a caçar qualquer animal, até os seus semelhantes; tão fértil e invasiva que em poucos anos altera a face de qualquer habitat, tornando-o inabitável para as demais espécies; mais venenosa do que o sapo agora à solta na Austrália – muitos dos seus exemplares dedicam-se a espalhar substâncias tóxicas onde outros animais as consomem, morrendo no local e passando, pelas suas carcaças, os venenos a outros habitantes desta nossa Natureza tão agredida.

Como deve ter depreendido, esta espécie daninha de que falamos é mesmo o Homem.

O facto de nos distinguirmos dos restantes animais pela nossa “racionalidade” por vezes parece apenas uma desculpa esfarrapada para continuarmos a espalhar a destruição e a morte em nosso redor.

Arruinamos paisagens, acabando assim com as condições de que muitos animais dependem para sobreviver. Esquartejamos habitats com estradas, casas, eólicas... dificultando o estabelecimento de populações viáveis de animais hoje ameaçados pela extinção. Damos valor apenas a criaturas que nos forneçam leite ou carne (ou lucrativos subsídios), tratando as demais como coisas daninhas a exterminar e odiar. Caçamos, perseguimos, envenenamos... assim ameaça ser o Antropoceno, a nova era que estamos condenados a habitar: definida pelos efeitos da acção do Homem.

Felizmente, o esforço no sentido de conservar a biodiversidade em Portugal também vai construindo o seu ecossistema. Integrando esforços em prol de espécies quase condenadas a desaparecer, sejam elas o lobo ibérico ou grandes aves.

A própria área de influência do MedWolf (nos distritos da Guarda e de Castelo Branco) conta com a presença de dois outros Projectos LIFE, extremamente activos no combate ao uso ilegal de venenos: o Rupis – dedicado à protecção de aves que fazem ninhos em rochas, como o britango, a águia perdigueira, o milhafre real e o abutre preto – e o Imperial, focado numa das aves de rapina mais ameaçadas da Europa das mais raras do mundo: a águia imperial.

Voltaremos aqui a divulgar estes dois Projectos, que têm interagido de forma bastante produtiva com o MedWolf na erradicação dos venenos. Entretanto, pode consultar e acompanhar a sua acção em www.rupis.pt e www.lifeimperial.lpn.pt/pt.

Um bom exemplo e uma festa

Relembremos o fundamental da filosofia do Projecto MedWolf: o seu objectivo não é defender o lobo contra ninguém, mas sim levar criadores de gado, caçadores, autarcas e outros grupos envolvidos a colaborar entre si e com os especialistas, no sentido de uma coexistência mais pacífica e racional com o nosso maior predador. Por isso, muitas das nossas actividades são viradas para uma maior eficácia das defesas do gado, com oferta de vedações e de bons cães; estabelecendo colaborações e troca de ideias entre os principais interessados.

Na Galiza (Espanha) os cerca de 600 exemplares de lobos ali presentes suscitam em média mais de mil prejuízos anuais, afectando todo o tipo de animais domésticos. Lá como cá, as razões incluem a presença do lobo e a perda de práticas tradicionais de protecção do gado. O resultado é o mesmo que aqui sentimos: alarme social, agudizar das tensões e aumento da prática abominável do furtivismo.

Em Junho do ano passado, a sociedade civil galega começou a reagir. Criadores, grupos ecologistas, investigadores e caçadores reuniram-se na cidade de Lugo para buscar formas de diminuir os conflitos causados pelo lobo. Aceitando que não existem soluções simples para o problema e que todas as respostas são inúteis sem diálogo e participação, este encontro correu de forma animadora e produtiva. Tanto assim que logo em Setembro surgiu a ideia de criar um grupo de trabalho com a missão de influenciar a gestão da espécie na Galiza.

Dois meses depois, nascia o O-Xan. Como fundadores desta organização, quatro associações de criadores de gado, duas de caçadores, entidades ligadas à conservação e de cariz científico. E muitas adesões individuais. O ponto de partida foi uma declaração conjunta: “todos os membros estão unidos por um ideal comum sustentado na afirmação de que queremos e aceitamos o lobo na Galiza, numa coexistência co-responsável.”

Uma das primeiras acções do colectivo foi reivindicar o fim dos atrasos nos pagamentos de compensações por ataques, um assunto que tem envenenado toda esta problemática. Já este ano, foi enviada à Junta da Galiza uma exigência formal de reduzir a seis meses, no máximo, a espera. E relembrando que os valores já carecem de actualização e devem passar a incluir mais tipos de intervenção veterinária.

Ou seja, o O-Xan já está a ser uma voz relevante na procura de soluções concretas e justas para os problemas da pecuária galega, quando em conflito com o lobo. Um exemplo a seguir por cá.

Outro tema: é já neste fim-de-semana que se realiza o Festival “Chocalhos”, celebrando em Alpedrinha as tradições seculares da pastorícia. A visita vale mesmo a pena, pela animação, pelo que se aprende e pelos espectáculos. A programação está em www.chocalhos.pt

Bodes expiatórios

Hoje, quem saia da maior estação ferroviária de Berlim encontra o largo da Washingtonplatz ocupado por um estranho e sinistro exército: um conjunto de 66 enormes esculturas metálicas, a retratar lobos antropomorfizados em poses agressivas, muitos empunhando armas. Um enorme cartaz pede aos passantes que “não alimentem os lobos.”

Trata-se de uma exposição do artista excêntrico Rainer Opolka, que se descreve como “fabricante de lanternas, autor e escultor”. As figuras destes lobos-homens assumem seis formas diferentes, dos líderes aos seguidores cegos; encontram-se dispostas de forma ordenada, quase em formação militar. Esta assustadora intervenção pública, intitulada “Os lobos estão de volta”, esteve antes instalada em Dresden e pretende ser uma reacção contra o regresso da violência extremista à Europa. Aliás, as poses e as saudações das várias esculturas não deixam dúvidas: trata-se de uma crítica ao nazismo e aos seus seguidores actuais – relembre-se que desde 2015 as autoridades já registaram mais de mil crimes contra pessoas que procuravam asilo na Alemanha, de grafitos a fogo posto.

Em tempos de fogo, parece que regredimos para tipos de pensamento mais primitivos, como o uso de “papões” antigos para simbolizar o Mal. E o lobo, que até tem estado a intensificar a sua presença na Alemanha e noutros países europeus, continua disponível para o papel de metáfora fácil e preguiçosa. O artista alemão retoma como lema uma frase de Thomas Hobbes, “o Homem é o lobo do Homem” – frase essa que já conta com mais de três séculos e meio. Outro exemplo recente é o nome dado aos terroristas de ocasião que embarcam em longínquos apelos à violência para cometerem actos desvairados: os “lobos solitários”.

Ou seja, para denunciar a nossa violência cometemos a violência simbólica de usar animais irracionais – movidos apenas por desejos de se alimentarem e procriarem – à laia de emblemas de tudo o que é maligno... em nós mesmos. E assim colocamos aquilo que odiamos na nossa natureza fora de nós, no corpo de um animal que antes inspirava medo e superstições.

Assim é desde tempos imemoriais o costume do “bode expiatório”: na Bíblia, o Levítico descreve a forma como um bode era deixado no deserto, carregando os pecados da comunidade; a sua morte redimiria as almas humanas. É bastante mais cómodo do que mudar os nossos comportamentos; escolhe-se um animal inútil e faz-se dele o receptáculo para toda a nossa iniquidade.

Já vai sendo tempo de ultrapassarmos medos pueris do escuro e das criaturas que nele se movem; os lobos nada têm de sobrenatural nem de maligno. São cidadãos do nosso ecossistema, não monstros capazes de simbolizar o nazismo, o terrorismo ou o Demo. Os seus instintos levam-nos a tentar alimentar-se dos nossos animais quando as presas silvestres rareiam; tal evita-se com boas medidas de protecção, como cães de gado ou vedações, não com vinganças e perseguições próprias de tribos primitivas.

De cabeça quente

Há cerca de um ano, uma destas crónicas foi dedicada ao periódico suplício dos incêndios em Portugal. Hoje, nem vale a pena engrossar o coro de todos os que têm opiniões firmes e teorias iluminadas para explicar o facto de tanta da nossa terra arder todos os anos; mais do que em países maiores, com áreas florestais mais extensas.

Certo é que ano após ano as chamas voltam, destruindo o património de todos nós e por vezes casas e outros haveres bem necessários, como culturas, palheiros e até animais. Hoje, há quem repita anualmente o mantra da “organização do território”, quem assine petições a exigir mais prisão para todos os incendiários. Pensar de cabeça quente (passe o trocadilho) nunca é boa ideia. Aliás, é de duvidar que muitos destes criminosos respondam à dissuasão, face à pouca racionalidade dos seus actos. Segundo Cristina Soeiro, professora do Instituto Superior da Policia Judiciaria e Ciências Criminais, cerca de 70% dos incendiários têm entre 20 e 35 anos, são solteiros ou viúvos, com baixos índices de escolaridade e são desempregados. Muitos sofrem de depressões, atraso mental ou hiperdependência do álcool – não admira portanto a reincidência e a falta de remorsos. Menos de 2% dos incêndios terão sido iniciados a troco de dinheiro.

Infelizmente, nada nos dá motivos de optimismo para o futuro. Com o aquecimento do planeta, fenómenos térmicos extremos levarão a longos períodos em que a biomassa das florestas estará mais seca e quente, facilitando a ignição pelas mais diversas fontes. Se é verdade que já ocorriam grandes incêndios florestais bem antes da entrada em cena do homo sapiens – sendo eles factor de renovação da floresta – certo é que hoje cada incêndio tem mais hipóteses de se transformar numa tragédia.

Evocámos então o caso da Madeira; no século xv, segundo a lenda, um incêndio ateado para abrir espaço para os colonos teria acabado por durar sete anos, sem controlo. Há escassos dias, nessa mesma ilha, percebemos como a conjunção de elevadas temperaturas com a falta de limpeza de muitos terrenos pode criar cataclismos de consequências imprevisíveis. Mas isso não nos pode levar a perder de vista que a lenda dos sete anos é apenas um mito.

A ignorância e o alarmismo continuam a acorrer ao rebate de sinos a anunciar fogo. No programa da TVI “Discurso Directo”, pudemos ver há escassos dias um “jornalista” a dar eco a superstições e fantasias absolutamente estapafúrdias. Segundo a tese deste senhor, a culpa dos fogos nos montes é dos lobos. Nem mais: por hoje haver menos rebanhos, graças à presença de lobos, haveria mais mato e, consequentemente, mais incêndios. Para piorar o delírio, aqueles lobos teriam sido, claro, “libertados aqui no ecossistema”. O putativo profissional da informação nem percebeu a contradição do que ia papagueando: então “antigamente havia muitos lobos” ali, mas não havia incêndios? Serão só os lobos de agora a causar mais fogos, quiçá por fumarem mais? A jornalista com a responsabilidade daquele programa seguiu com a emissão, gaguejando algo como: “é, hã, sinais às vezes da, hã, modernização com que o ecossistema que muitas vezes também ajudam a destruir”. Um momento deprimente.

Mais uma vez jornalistas ignorantes e impreparados amplificam ideias populares mas sem qualquer fundamento: nunca houve, nem em Portugal nem em toda a Europa, uma só acção de reintrodução de lobos.

Estes são apenas alguns exemplos da falta que fazem algumas regras elementares: não falar sem saber; procurar informação fiável; não propagarmos fantasias, julgamentos apressados nem condenações injustas.

Tradições que ganham vida

Há pouco mais de três anos, publicámos no “Terras da Beira” a primeira destas crónicas. E apresentámos então o Projecto Med-Wolf como uma “iniciativa financiada pela União Europeia que vai minimizar os conflitos entre o lobo e as populações locais, em regiões onde os hábitos culturais de coexistência se têm vindo a perder”.

Este é um aspecto-chave do Projecto, nos distritos da Guarda e de Castelo Branco e na região italiana de Grosseto: recuperar tradições que antes facilitavam a coexistência entre homens e lobos. E “tradição” não é apenas a sabedoria de usar bons cães de gado, apurando linhagens e escolhendo as raças mais adequadas a cada tipo de terreno – nisto, o Projecto já colaborou com dezenas de criadores pecuários, oferecendo cães eficientes e ajudando a cuidar deles nos seus primeiros anos.

Aproveitar a Tradição e a sabedoria antiga também pode representar uma oportunidade para revitalizar o turismo, beneficiando toda a economia local. Surgem assim eventos de grande gabarito, como o Festival dos Chocalhos, em Alpedrinha. E muitos outros, ainda de pequena escala, que o Grupo Lobo tenta sempre apoiar, tendo em vista a dignificação da pastorícia e a perpetuação da sua herança cultural. Nada mais natural, sendo estas iniciativas oriundas de criadores com quem já trabalhamos.

Por exemplo, no dia 2 decorreu um passeio em que os inscritos acompanharam a “adua” das vacas arouquesas e os cães de gado, na Serra da Freita, em Felgueira de Arões, Vale de Cambra. No final ainda assistiram à palestra intitulada “Montanhas Vivas: lobos, cães de gado e pastores”. E a exposição “Viver com o lobo e os grandes carnívoros: o desafio e a oportunidade” continuará patente no festival “Felgueira, Aldeia Viva”, até ao seu final, neste próximo Domingo.

Pouco depois, no dia 13 de Agosto, será encenado o percurso feito pelos rebanhos até há sensivelmente 25 anos, pelo monte baldio de Meridãos, na Serra de Montemuro, concelho de Cinfães. Retomando todas as práticas correntes na altura, sem esquecer o “mastigo”: bolos de farinha de milho, na sertã, e outros petiscos da época. Já na sua segunda edição, promete ser uma grande festa de convívio e de recuperação das antigas actividades dos pastores – ainda se pode inscrever, pelo e-mail globo@fc.ul.pt (ou, porque não, dar-nos ideias para iniciativas similares nesta zona).

Mais perto de nós, e quem sabe se a criar uma tradição para o futuro, o Grupo Lobo levou a cabo uma iniciativa para 37 crianças do ATL da Santa Casa da Misericórdia do Sabugal; em Quadrazais, junto ao rio Côa, deu a conhecer algumas formas de estudar o lobo – por exemplo através da detecção de dejectos, com a ajuda do “cão biólogo”, o Zeus; a identificação de pegadas; os uivos; e equipamentos utilizados na observação do lobo.

Assim se confirma que estas coisas da conservação e da biodiversidade podem ser bem divertidas; para miúdos e graúdos...

Quem deita o melhor amigo fora?

“Quem, tendo o dever de guardar, vigiar ou assistir animal de companhia, o abandonar, pondo desse modo em perigo a sua alimentação e a prestação de cuidados que lhe são devidos, é punido com pena de prisão até seis meses ou com pena de multa até 60 dias.” Assim reza a Lei n.º 69/2014, de 29 de Agosto, que veio por fim punir com penas significativas o abandono de animais de companhia.

Mas não basta a força da Lei para alterar rapidamente os maus comportamentos. O SEPNA (Serviço de Proteção da Natureza e Ambiente) da GNR anunciou que o número de denúncias relacionadas com animais de companhia “aumentou em 2015”. É triste mas vero: de Outubro de 2014 a Junho de 2015, o SEPNA recebeu 2.239 denúncias, que deram origem a 2.240 autos de contraordenação e 74 inquéritos por crime.

No Verão tudo piora: as férias não dão jeito com o Bobby; o Tareco não pode ir para o Algarve; os cães afinal não prestam para a caça... e lá vão os “amigos” para a rua, como coisas descartáveis. E muitos outros donos irresponsáveis deixam que os seus animais procriem sem controlo, multiplicando a desgraça.

Os problemas causados por cães vadios ou assilvestrados vão para lá das importantes questões sanitárias e de segurança (até nas estradas podem causar acidentes): eles competem com o lobo por território e alimento e atacam muitas vezes os animais domésticos, causando prejuízos que tendem a ser atribuídos ao lobo, mas que depois não serão compensados. A possibilidade de cruzamento com lobos, originando descendência fértil, poderá vir a ser um problema. Os riscos para as pessoas também aumentam, pois muitos cães cresceram habituados à presença do Homem, não fugindo à sua aproximação, como faz o lobo. Assim, não receiam alimentar-se de lixo em zonas urbanas nem evitam o convívio com os animais que vivem nas nossas casas, transmitindo-lhes doenças. Depois, quem vive perto deles sente receio e acaba por tomar medidas drásticas e ilegais, como o uso de venenos, causando a morte de muitos animais domésticos e de exemplares de espécies protegidas, incluindo aves necrófagas.

Há números da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária a confirmar a infeliz tendência: em 2013, os centros de recolha oficiais acolheram 27.500 cães e gatos. Em 2014, passaram a 34.000. Só em 2014 foram abatidos 14.279 animais que já haviam sido de companhia... Felizmente, o Parlamento aprovou agora o fim do abate de animais nos canis e gatis municipais, excepto em caso de problemas de saúde. Todos os animais recolhidos devem ser reclamados no prazo de 15 dias; após os quais “presumem-se abandonados e são obrigatoriamente esterilizados e encaminhados para a adoção".

De qualquer forma, o abandono é uma opção cada vez menos aceitável e humana. Antes do mais, deixar entrar nas nossas casas um animal é um acto de amor, mas que deve ser bem ponderado: podemos cuidar dele? Mesmo nas férias? 

O melhor antídoto: a informação

Em Portugal, o uso indevido de venenos vem de longe; foi até incentivado por autoridades oficiais, como “solução” para acabar com espécies que se tinham por daninhas. No topo da lista infame vinha o lobo, mas outras espécies hoje em grande risco, como a águia real, também foram assim perseguidas.

A estricnina, substância das mais usadas, chegou a merecer a alcunha de “mata-lobos”. Perto de nós, nas Astúrias, dos 225 animais selvagens encontrados com veneno nas duas últimas décadas, 152 tinham ingerido estricnina. Mas são muitos os químicos que se vêem usados em crimes. Note-se que tal até pode redundar em tragédias, como aconteceu em Belmonte há 40 anos: 21 pessoas tiveram mortes horríveis, envenenadas por carne destinada aos lobos da zona. Outros animais, muitos em risco e protegidos, acabam também por morrer quando se alimentam das carcaças dos animais envenenados.

Há inúmeras “motivações” para cometer este verdadeiro terrorismo ambiental. Uma das mais recorrentes e com piores resultados é o controlo dos animais que, na óptica dos criminosos, prejudicam a caça. Há quem queira aumentar a presença de presas apetecíveis envenenando lobos, cães assilvestrados e predadores médios como a raposa – esquecendo que os lobos, sendo predadores de topo, contribuem bastante para reduzir os efectivos de muitas espécies que se alimentam de lebres e de coelhos. O controlo de roedores e de aves silvestres consideradas prejudiciais também ocorre bastas vezes, com iguais consequências e riscos.

Como parte do Projecto LIFE MedWolf, o Grupo Lobo tem vindo a levar a cabo uma ampla iniciativa tendo em vista a redução do uso de venenos. Dinamizando reuniões com autoridades e grupos de interesse, para partilhar informação e debater esta problemática tão candente. Formando parcerias com outros projectos LIFE, orientados para combater o uso ilegal de venenos e conservar aves de rapina ameaçadas.

Realizando acções de fiscalização no terreno, sobretudo em parceria com o SEPNA da GNR e com o ICNF, e de sensibilização – estas apontadas ao público mais jovem e a especialistas.

Claro que os veterinários são um elemento-chave para melhor conhecer a situação. E podem ser uma das primeiras frentes neste combate. Por isso, o Grupo Lobo e a associação ALDEIA participaram na sessão de formação recentemente organizada pela Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, na Guarda, dirigida aos médicos-veterinários municipais da Região Centro.

As apresentações versaram a situação presente do lobo ibérico; o Programa Antídoto Portugal e as tendências do uso de venenos. Foi divulgado o protocolo de actuação e de recolha de dados a seguir em casos de suspeita de envenenamento, sendo distribuído material de consulta rápida, que suscitou bastante interesse.

Não esqueça: se deparar com um destes casos, contacte o SEPNA pelo 217 503 080, ou a Linha SOS Ambiente: 808 200 520. Este é um verdadeiro crime, que deve ser combatido por todos.

Encontro de gerações pela coexistência

Na quinzena passada, falámos aqui do IV Congresso Ibérico do Lobo, uma iniciativa do Projecto LIFE Med-Wolf que vai ter lugar na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Castelo Branco, de 27 a 30 de Outubro deste ano. Antes do mais, cabe-nos anunciar que o prazo para a entrega de propostas de comunicação foi ampliado até ao final deste mês de Junho. Uma boa notícia para quem quer partilhar o seu trabalho com todos os interessados na salvaguarda do nosso maior carnívoro: o lobo ibérico.

Mas as acções de divulgação do Projecto não se esgotam em reuniões entre cientistas e peritos. De sessões de trabalho com o SEPNA da GNR a apresentações em escolas, o nosso trabalho nesta área tem conhecido muitas e diversas facetas.

Ainda há escassas semanas, promovemos, em parceria com o Centro de Interpretação Ambiental de Castelo Branco (CIA) e a respectiva Câmara Municipal, uma iniciativa que agregou alunos da Universidade Sénior Albicastrense (USALBI) e alunos do 4.º ano do Jardim-Escola João de Deus, da mesma cidade.

Tratou-se de um inusitado e interessante encontro de gerações, sob a sombra de um tema comum: a presença do lobo nas nossas terras. Os alunos da USALBI apresentaram aos mais jovens uma série de histórias reais sobre lobos, recuperadas das suas memórias de anos que já lá vão. Histórias que reflectiam tempos mais naturais na sua relação com a fauna; quando crianças eram mandadas com rebanhos para as serras, sem medo que fossem atacadas por lobos – como nenhuma foi, claro. E tempos em que se convivia com a Natureza sem inventarmos inimigos para explicar o comportamento dos animais; nada de fábulas sobre lobos “largados” nem “botados”. Bonitas mas sombrias lendas populares como as “fadas dos lobos” fazem parte da nossa memória colectiva, celebrando uma relação difícil com este predador astuto; relembrar tais tempos deveria fazer-nos pensar no quão pouco evoluímos em alguns aspectos...

Os miúdos apresentaram os resultados de uma sua pesquisa sobre o lobo, incluindo uma apresentação em Powerpoint com muita informação relevante. Provando que as lições sobre respeito pelo Ambiente e pelas suas criaturas ficam bem gravadas nas mentes dos mais jovens, dando-nos esperanças numa geração mais informada e mais capaz de encarar a coexistência com os animais como um dever do Homem, não como uma maldição.

Depois, três biólogas do Grupo Lobo expuseram alguns dados interessantes sobre este predador e sobre as medidas com que estamos neste momento a minimizar os danos que ele causa: oferecendo vedações e bons cães de gado, oriundos da Serra da Estrela.

Ainda houve tempo para ouvir uma música, com letra escrita pelas crianças presentes, sobre o lobo ibérico, e para distribuir pelos alunos da USALBI alguns marcadores de livros feitos pelas crianças, como lembranças deste dia tão cativante quanto revelador.

Que mil iniciativas assim possam surgir, graças a pessoas de boa vontade como todos os que ofereceram o seu tempo e energia neste dia memorável.

Saber mais para coexistir melhor

O Projecto LIFE Med-Wolf está neste momento a preparar a realização do IV Congresso Ibérico do Lobo, a ter lugar na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Castelo Branco, de 27 a 30 de Outubro deste ano.

Nada mais natural, para um Projecto que tem como objectivo principal a diminuição das tensões e conflitos entre o lobo e as pessoas que com ele partilham o habitat, do que conhecer mais e melhor o maior predador português.

Assim, este Congresso vai reunir especialistas, portugueses, espanhóis e não só, envolvidos no estudo e na gestão do lobo ibérico, de forma a dar a conhecer os avanços mais recentes no estudo deste animal fascinante, a sua situação no terreno, as estratégias de conservação mais eficazes e, muito importante, as melhores práticas em termos de atenuação de conflitos.

As áreas temáticas para as apresentações e conferências serão três: Dimensão Biológica, Gestão e Conservação e Dimensão Social. Ou seja, será partilhada informação sobre o lobo ibérico em si, sobre as formas de minimizar as ameaças a que está sujeito hoje em dia e, por fim, sobre a interacção das comunidade e grupos de interesse com o predador seu vizinho.

Onde vive hoje, na Península, o Lobo? Como o preservar? É possível termos a pecuária a partilhar território com o lobo, sem conflitos exacerbados?

Respostas a estas e outras questões serão debatidas no decurso dos trabalhos do Congresso, em quatro dias de programação intensa e variada. Estão a ser organizadas algumas iniciativas paralelas que por certo vão interessar a muitas pessoas que não têm o lobo como preocupação profissional nem científica. No site www.congressolobo.pt pode ir ficando a par das novidades e acompanhando os trabalhos.

Muito importante: até dia 15 de Junho, o Congresso está a receber propostas de comunicação, sob a forma de apresentações orais e posters. Estes complementarão as apresentações dos oradores convidados, que incluem vultos de importância mundial nesta área. Todos podem submeter um trabalho, em português, espanhol ou inglês, de forma a partilhar experiências e resultados de investigações sobre o lobo, nas mais diversas áreas temáticas. As regras de participação são simples e encontram-se ao seu dispor no site do Congresso.

A organização é da responsabilidade do Grupo Lobo e conta com importantes apoios nacionais: Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Castelo Branco; Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa; Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos. Sem esquecer os apoios oriundos de Espanha: Asociación Galega de Custodia do Territorio; A.RE.NA - Asesores en Recursos Naturales S.L; ASCEL - Asociación para la conservación y estudio del lobo ibérico e SECEM - Sociedad Española para la Conservación y Estudio de los Mamíferos.

Contamos, claro, com a participação de muitas outras entidades locais; desse empenho da sociedade civil na busca de melhores soluções para a coexistência com o lobo daremos em breve conta aqui.

Benvenuti!

O Projecto LIFE Med-Wolf está, desde Setembro de 2012 a trabalhar pela salvaguarda e pelo conhecimento do lobo ibérico – mas também, e sobretudo, pela minimização dos conflitos entre a presença daquele predador e as populações locais. As suas áreas de intervenção localizam-se nos distritos da Guarda e de Castelo Branco; na região italiana de Grosseto, onde é hoje vivida uma situação similar, o Projecto está igualmente em curso.

Um Projecto de tal envergadura decorre ao longo de anos e pretende deixar efeito duradouro. Assim, claro está que não se resume a um grupo de especialistas bem intencionados a trabalhar de acordo com um plano inicial, esperando que no fim tudo acabe bem. Uma iniciativa deste âmbito tem de ser periodicamente examinada, avaliada e revista. Sopesando o que foi feito, imaginando novas propostas, relembrando o que ainda falta fazer.

Por isso, está nesta semana na área do Projecto uma missão internacional que combina representantes de todos os nossos parceiros italianos – de entidades universitárias a importantes organizações de agricultores e criadores pecuários. Serão acompanhados nesta visita pelos monitores da Comissão Europeia, com a missão de verificar o estado e a conformidade das acções já levadas a cabo.

Entre estas, contam-se 27 cães de gado já entregues – sem custos e incluindo cuidados veterinários e alimentação durante os primeiros meses; 30 vedações fixas instaladas; aulas e apresentações envolvendo mais de 1.200 alunos; sessões de formação na detecção de venenos, com profissionais do SEPNA e do ICNF; as primeiras experiências-piloto de ecoturismo centrado no mundo da pecuária e do lobo; inúmeras reuniões com criadores de gado, autarcas, caçadores e outros grupos. Este é apenas o lado mais visível do Projecto; ele inclui também uma vertente científica que passa pela monitorização da população lupina, recorrendo a ferramentas inovadoras, como análises forenses e um cão que detecta dejectos de lobo.

O programa desta missão internacional é intenso: visitas a explorações, encontros com pessoas e entidades envolvidas... sem esquecer, claro está a partilha de experiências entre as duas regiões que beneficiam do Projecto Med-Wolf, o que só por si já seria uma mais-valia assinalável.

Aproveitando a ocasião, será apresentada a brochura “O Lobo-Ibérico em Portugal; situação no Leste da Beira Interior”, um resumo de todos os dados conhecidos sobre este predador e sobre a sua situação no País e na Região. Incluindo curiosidades, dados úteis e informações inéditas, numa importante ferramenta para desmitificar e esclarecer. Para finalizar, será inaugurada no Instituto Politécnico da Guarda a exposição “Conviver com os Grandes Carnívoros – O Desafio e a Oportunidade”, da Large Carnivore Initiative for Europe.

Uma semana bem preenchida, portanto...

Parabéns aos pais. E a todos nós!

Neste espaço, o nosso tema de eleição é o lobo ibérico. Mas um ecossistema é uma teia de interdependências: a presença de cada animal tem efeitos em todos os seres vivos que partilham o seu habitat. Por isso, nada mais natural do que aqui evocarmos também outras espécies, sobretudo grandes carnívoros que, como o lobo, enfrentam graves ameaças.

Já relembrámos um animal que ainda mantém uma imponente presença nas tradições e na história portuguesa: o urso. No entanto, o seu regresso ao nosso País é por enquanto apenas hipotético, nos passos de um ou outro animal que se desvie dos seus trilhos habituais, na vizinha Espanha.

Muitos outros carnívoros vivem nos nossos montes e vales: 11 espécies autóctones e três que foram introduzidas; do texugo à raposa, passando pelo arminho ou pela marta. Mas só um deu recentemente que falar, por bons motivos: o lince ibérico (Lynx pardinus). Nasceu a primeira ninhada destes animais, já em liberdade: a fêmea “Jacarandá”, nascida há 4 anos no Centro Nacional de Reprodução de Lince Ibérico, em Silves, e liberta no ano passado, foi agora fotografada com uma cria a seguir os seus passos. Um sucesso para o Programa LIFE+ Iberlince, contrariando, felizmente, as más notícias sobre mortes, por veneno ou atropelamento, de alguns destes felinos, os mais ameaçados de todo o mundo.

Este é um esforço conjunto entre os dois países da Península Ibérica, para salvar a espécie. No século xix, o lince ibérico vivia em quase toda a Península. Nos anos 80 do século seguinte, já quase se limitava às zonas central e sudoeste; depois, as populações livres do lince ibérico viram-se restringidas a Espanha, num total de 200 indivíduos. O decréscimo do coelho bravo, afectado por doenças infecciosas como a mixomatose, é a principal ameaça no nosso país. A perda, fragmentação e perturbação dos habitats e a mortalidade causada por atropelamentos e furtivismo são também graves problemas.

O lince ibérico só começou a ser consensualmente descrito como uma espécie distinta na segunda metade do século xx. E apresenta diferenças de monta para os seus parentes da restante Europa: pesando entre 9 e 14 kg, com 40 - 55 cm de altura ao garrote, é muito menor do que o lince euro-asiático – nesta espécie, o macho pode pesar até 25 kg e alcançar os 75 cm. Os “pincéis” das suas orelhas têm uma forma bastante característica.

São animais solitários. Os machos procuram as fêmeas apenas quando elas entram em cio; após o acasalamento, o macho volta ao seu território. Do sétimo mês ao segundo ano de vida, os jovens linces iniciam a dispersão, embora haja registos de linces ibéricos com comportamentos de coesão familiar. Trata-se de um animal especialista, alimentando-se quase só de coelho bravo.

Já sabe: prepare os seus “olhos de lince”, pois pode a qualquer momento deparar com um destes animais tão belos, agora por fim de regresso a Portugal.

Faro para combater o crime

Em Portugal, o uso do veneno parece mesmo fazer parte dos hábitos de muita (má) gente. Trata-se da forma mais cobarde de matar e também de um crime contra o Ambiente; mata-se o bicho desejado, mata-se outros animais que se alimentam da primeira carcaça, mata-se por vezes até gente – como em Belmonte, em 1976, quando um animal destinado aos lobos acabou por causar a morte de 21 pessoas.

A lista de supostos motivos não tem limites, como a mesquinhez humana: ou são as raposas que prejudicam a caça, ou o cão do vizinho de que não se gosta, ou os lobos que não deviam andar por ali. Hoje, as histórias e os casos continuam, como se nunca tivéssemos saído do século xix.

Para enfrentar este flagelo, o Projecto Med-Wolf traz de novo a Portugal o especialista espanhol Jesus Valladolid e os seus cães treinados na detecção de venenos. De 25 de Abril a 6 de Maio, são realizadas acções de fiscalização, com a colaboração de agentes do SEPNA-GNR e vigilantes do ICNF – nos concelhos de Figueira de Castelo Rodrigo, Almeida, Pinhel, Sabugal, Penamacor e Idanha-a-Nova.

Repetindo as iniciativas de 2015 e 2014; além da formação (com dezenas de participantes) e da partilha de técnicas, houve resultados palpáveis: nesses dois anos, foram percorridos mais de 210 km e encontrados 16 iscos e 11 carcaças envenenadas. Sem esquecer 4 laços, destinados a coelhos ou javalis mas arriscando resultados funestos para outras espécies: só nos últimos meses foram encontrados dois lobos mortos por este método cruel, em Paredes de Coura, perto de Viana do Castelo. No passado mês de Fevereiro, foi a tribunal um indivíduo que colocara 9 armadilhas na Zona de Caça Municipal de Santo Estevão, no Sabugal.

O biólogo espanhol que agora nos visita começou em 1990 a preparar cães para detectar substâncias ilícitas e explosivos. Depois, veio o treino em resgate canino em cenários de catástrofes; e em 2004 os venenos passaram a fazer parte das missões entregues aos seus Cães de Pastor Alemão e Labradores.

Uma nota quase cómica fica a sublinhar a sua primeira visita: passados largos meses da mesma, circulava na zona do Projecto uma história de mistério. Uma testemunha de confiança garantia ter visto uma pick-up com atrelado a “botar” lobos algures no meio de um campo. O relato era preciso, na quantidade enorme de feras libertadas, na atitude furtiva dos implicados e até, pasme-se, na cumplicidade da GNR, que escoltava os malfeitores com várias viaturas.

Tratava-se, claro, de uma das acções de fiscalização com GNR; e os tais “lobos” largados eram cães adestrados, em busca de venenos. Uma história que prova o velho ditado: “quem porcos busca, a cada moita lhe grunhem” – quem já acredita numa fantasia, adapta tudo o que vê até confirmar as suas crendices...

Até ao fim da segunda semana de Maio, teremos perto de nós esta forma de combate contra os venenos. Sendo que em breve a localização de laços também irá fazer parte das missões dos especialistas caninos do Projecto Med-Wolf.

E nunca esqueça: se der com um caso de envenenamento, contacte logo o SEPNA/GNR, pelo telefone 21 750 30 80, ou a Linha SOS Ambiente: 808 200 520. Não toque nos iscos ou nas carcaças; estes serão recolhidos pelas autoridades e um médico-veterinário procederá depois à obrigatória necrópsia.

Esteja do lado certo desta luta.

O maior carnívoro europeu: o urso

Já muito aqui falámos sobre a situação do lobo em Portugal e um pouco por todo o mundo. Mas existe outro animal que lança uma sombra não menos longa e mítica sobre a nossa cultura, mesmo se já se encontra extinto em Portugal há bastante tempo: o urso.  

Mas note-se: é comum escrever-se que este desaparecimento terá ocorrido no século XVII. Comum, mas talvez equivocado. Investigações recentes confirmaram que ainda foram vistos ursos nas serras que marcam fronteira com Espanha, no Norte do país, durante o século XIX e mesmo no século XX. Podem ter sido indivíduos oriundos de Espanha; mas existem indícios fortes de que então poderia resistir por cá uma população fixa. Em paragens nortenhas ainda se encontram os restos de muros apiários com dimensões (1 m de espessura e mais de 2 m de altura) que sugerem terem sido erigidos para proteger cortiços de ursos. Estas “silhas”, presentes também no Centro do País, foram cuidadas até ao século XVIII.

As pegadas do urso chegam à toponímia de paragens mais a sul: a Usseira, freguesia de Óbidos que ainda ostenta no seu brasão dois ursos a arrancar do solo uma árvore de fruto; o Lapadusso, em Peniche; a Serra d’Ossa, no Alentejo. E as tradições a ele ligadas ainda não morreram por inteiro: por exemplo, na freguesia da Vila de Pereira, concelho de Montemor-o-Velho, ainda se comemora a Festa do Urso, celebrando a sobrevivência de um fidalgo que pediu socorro a São Tiago, para se livrar de um urso especialmente façanhudo.

O urso pardo (Ursus arctos) é um animal verdadeiramente imponente. Em pé, mede cerca de metro e meio, e os machos podem atingir os 320 kg, não ultrapassando as fêmeas os 200 kg. No entanto, as crias, quando nascem, a meio do Inverno, pesam uns meros 0,5 kg, pouco mais do que um esquilo. Os ursos são verdadeiros omnívoros, quase tudo comendo: a sua alimentação inclui bagas, nozes, formigas e vegetais. Também se alimentam de carcaças e podem até matar ungulados selvagens, inclusive os gigantes alces, bem como animais domésticos.

Estes hábitos alimentares causam uma ampla diversidade de conflitos com as actividades humanas: eles podem atacar animais menos protegidos como ovinos, bovinos e renas e ainda destroem colmeias e pomares. Por vezes alimentam-se em caixotes do lixo, restos de matadouros e até em viveiros de peixes. Foi já documentado o caso de um urso que se habituou a consumir óleo de motosserra! Ademais, os ursos são tão pesados que podem causar graves colisões com automóveis.

Na Península Ibérica, o urso sofreu uma acentuada redução da sua área de distribuição devido à

acção do Homem, encontrando-se hoje circunscrito às montanhas do Norte de Espanha, com populações reduzidas a menos de 100 indivíduos na cordilheira cantábrica e cerca de uma dezena nos Pirenéus.

No entanto, em 2005 foi avistado um urso adulto muito perto de Portugal, nas margens do rio Sil, afluente do Minho. Pegadas de outros exemplares foram encontradas em Peña Trevinca, a poucos quilómetros de Portugal.

Note-se que um hipotético regresso da espécie não deve ser encarado com alarme. Em toda a Europa, são hoje estudadas e aplicadas medidas para minimizar os atritos na convivência: do estudo dos raros casos de ataques a pessoas à concepção de caixotes de lixo à prova de ursos. Passando pelo uso de vedações electrificadas, cães de gado ou até sistemas de prevenção de acidentes rodoviários. Da Grécia à Suíça, inúmeros especialistas e gestores dedicam-se a atenuar conflitos e evitar prejuízos. O mais recente número da revista “Carnivore Damage Prevention News”, produzida no âmbito do projecto MedWolf, apresenta um panorama actualizado deste esforço europeu. Está disponível, de forma gratuita, no site www.medwolf.eu.

A figura majestosa do urso povoa nomes de freguesias, de ruas, de mil e um lugares; projecta-se em mitos, constelações, brinquedos de peluche e histórias infantis. Pode também vir a fazer parte do nosso futuro. Sem dramas nem guerras.

Caça na Malcata?

Ainda há poucos meses, um secretário de Estado declarou que talvez seja boa ideia remeter o lobo ibérico ao estatuto de espécie cinegética. Para lá de uma anuência às propostas do lóbi dos criadores de gado, confrontados com o que se lhes afigura serem prejuízos excessivos, pouco alcance e pouca reflexão se entrevia nesta ideia. Sobretudo porque não apresentava qualquer sustentação científica e ignorava pesquisas recentes que nos dizem que desmantelar a estrutura das alcateias pode apenas redundar na sua pulverização em mais pares caçadores, que depois multiplicarão os danos causados às explorações pecuárias vizinhas. Assim, esta solução radical, além de ir contra a Lei, teria duvidosa eficácia a médio prazo.

Já nessa altura se notava a preponderância, nos círculos do poder, de uma ideia muito controversa: que a caça pode representar uma panaceia para a conservação de espécies ameaçadas de extinção. Hoje continuamos a ler declarações, oriundas de vários quadrantes e nem sempre muito bem explicadas, propalando esses benefícios. Note-se que são poucas, as parcelas hoje isentas de caça em Portugal: uns magros 20% do território nacional.

Mas os grupos de pressão não descansam: ainda no ano passado, o responsável pela Associação de Caçadores da Serra d'Arga declarou publicamente “certezas” indiciadoras de desconhecimento: que os lobos não comem nem javalis nem corços (ignorando todos os estudos científicos sobre o assunto) e que nunca os cães atacariam o gado. Escassos dias depois, uma montaria ao javali, organizada pela sua associação, atacou e matou uma série de ovelhas, na freguesia de Riba de Âncora.

Em paragens mais avançadas desta nossa Europa, a Plataforma sobre a Coexistência entre o Homem e os Grandes Carnívoros atraiu associações de caçadores, proprietários rurais e agricultores, gente com visão que sabe que se não cuidamos do nosso Ambiente, em breve nada haverá para caçar. E que urge ponderar bem tais assuntos, não liberalizar às cegas.

Mas isso é lá fora; em Portugal, temos agora um governo ainda a tactear o seu habitat mas que já se acha suficientemente informado para reverter políticas de conservação natural com mais de vinte anos. Agora surpreendeu-nos autorizando o regresso da caça à zona sul da Reserva Natural da Serra da Malcata. Isto invocando a litania das “reconhecidas vantagens do ordenamento cinegético e da gestão e exploração cinegéticas sustentáveis para a conservação dos recursos naturais” – o que pode verificar-se, mas apenas se a exploração dos recursos cinegéticos for levada a cabo de forma sustentável, sem que a obsessão do lucro rápido atropele o cuidado com as espécies ameaçadas. Custa a crer que uma tal decisão possa ter sido tomada sem qualquer análise ponderada sobre o seu impacto. Que quando se tenta reconstruir a vida em Portugal do felino mais ameaçado do mundo, o lince ibérico, possamos ter esta zona emblemática perturbada sem necessidade. Que o interesse nacional possa ser posto em causa por interesses particulares sem uma ampla discussão sobre este tema.

Não esqueçamos que o último Censo Nacional da população lupina, realizado entre 2002 e 2003, registou a presença de lobo, embora de uma forma muito irregular e instável, na região fronteiriça com Espanha, entre o Douro e a Serra da Malcata. Estudos actuais indicam-nos que existem ali áreas onde o habitat, incluindo a abundância de presas silvestres, é indicado para o lobo, como a Serra da Malcata. Um local que pode bem vir a ter potencial para acolher a expansão natural do lobo.

Ali, irá ainda ser prejudicada a recuperação de várias espécies de animais que servem de alimento aos grandes predadores – como o veado, o coelho ou o corço –, aumentando assim os riscos corridos pela pecuária. Áreas de nidificação de espécies ameaçadas, como o abutre-preto, poderão ser postas em causa.

Nada nos move contra a caça, desde seja praticada com conta, peso e medida. E desde que perfeitamente delimitada, regulamentada e distante das áreas ambientalmente mais sensíveis de Portugal. Porque não é apenas pelo abate de exemplares que uma espécie sensível pode ser perturbada de forma dramática: o ruído dos disparos, o trânsito de veículos e pessoas... tudo complica panoramas já de si bastante negros. Isto sem mencionar os danos que o chumbo causa ao Ambiente. É revelador que na vizinha Espanha a poluição por chumbo esteja na ordem do dia, enquanto que por cá nada se discute. 

A propósito da Páscoa

Chegados à Páscoa, os cristãos celebram aquele que é o ponto central da sua fé: a morte e ressurreição de Jesus Cristo. Em todo o nosso País, sucedem-se as manifestações de religiosidade popular, por vezes de grande impacto cénico e pirotécnico, como a famosa “queima do Judas”, em que bonecos de palha e jornais, a  representar o apóstolo traidor, são maltratados, às vezes enforcados e por fim destruídos com explosões espectaculares.

Esta tradição do Sábado de Aleluia é um eco de celebrações muito antigas, dedicadas a marcar a passagem das dificuldades do Inverno para as promessas da Primavera. Nessa data, era tradição dos países católicos que se apagassem todas as velas das igrejas; depois um novo fogo iria acender a vela pascal, que comunicaria a sua chama a todas as velas apagadas, voltando a dar luz aos espaços sagrados.

De forma reveladora, outras nações queimam efigies da “Bruxa” ou do “Velho”. Em países do Leste europeu, da Polónia à Rússia, a deusa Marzanna (ou Morena, entre outros nomes) é atirada à água ou também queimada, sempre para assinalar o fim das provações da estação mais cruel. Mas a vítima preferida, do Brasil à Alemanha, parece ser mesmo Judas Iscariote.

Pelo menos, estes costumes não apresentam como “maus da fita” os animais predadores, mormente o lobo. Sendo certo que meses de frio intenso, como Janeiro ou Fevereiro, foram dedicados ao lobo. Por exemplo, tribos índias chamavam “Lua do Lobo” às luas cheias de Janeiro; os saxões baptizaram esse mês como “Wulfmonath”, o mês do lobo; a mesma designação é ainda hoje dada pelos bascos a Fevereiro – “Otsaila”. A explicação é natural: aguilhoados pela fome invernal, os predadores tornavam-se mais atrevidos e causavam mais danos ao gado.

Voltando à nossa Páscoa cristã, temos que o lobo não goza de uma reputação propriamente agradável, na Bíblia. Na dúzia de ocasiões em que ele ali é mencionado, surge sempre como sinónimo de crueldade, de ameaça, de enviado do mal; o que também não é de estranhar se tivermos em conta a sua abundância no antigo Médio Oriente e o seu carácter noctívago e astucioso. Cristo usa mesmo o predador como símbolo das dificuldades e provações que os crentes sofrerão: “Eis que Eu vos envio como cordeiros para o meio dos lobos.” Já o profeta Isaías evoca este animal mítico para evocar o reino de harmonia e paz que o Messias deveria trazer ao mundo: “O lobo e o cordeiro juntos se apascentarão (...) Não farão mal nem dano algum em todo o meu santo monte”.

Mas nem em todas as latitudes o lobo é malquerido pelas religiões. Como já vimos, os romanos atribuíam a uma loba a salvação dos dois fundadores da sua capital. Vilnius, na Lituânia, foi iniciada após um nobre ter sonhado com um lobo. Na Mongólia e em algumas regiões da China, o lobo é reverenciado, até mesmo como antepassado de toda a Humanidade. Aqui e no Japão, a sua efigie é considerada um talismã. As tribos indígenas do continente americano, pelo menos as que não se dedicavam à pecuária, também viam este predador com bons olhos.

Mas Anubis terá sido, sabe-se agora, a divindade lupina mais importante. O guia dos defuntos rumo ao Além, na mitologia do Egipto antigo, foi durante muito tempo descrito como tendo as feições de um chacal dourado. Mas investigações genéticas recentes determinaram que aquele animal é, na realidade, um tipo de lobo: o lobo dourado, ou africano (Canis anthus).

Assim demos a volta ao mundo, regressando ao local de partida: a crença na vida para lá da morte. E à sua celebração maior, a Páscoa. Que a vossa seja vivida em paz e tolerância; mesmo para com os lobos...

S. Valentim, lobisomens e outros carnavais

Celebrámos há dias mais um Dia dos Namorados. Isto, como mandam os hábitos do calendário, pouco depois do Carnaval, ocasião festiva em que é da praxe muitos fazerem-se passar por aquilo que não são: homens vestem-se de mulheres, crianças disfarçam-se de monstros, os caretos invadem muitas aldeias portuguesas.

Há laços entre estas duas festas. Ambas nasceram na Roma antiga: a Lupercalia como rito propiciatório da fertilidade, que ocorria de 13 a 15 de Fevereiro e a Saturnalia, que originalmente tinha lugar em Dezembro e envolvia a inversão dos papéis sociais, com os senhores a servir os escravos, e desfiles de mascarados.

Ora a Lupercalia tinha muito a ver com lobos: na sua origem estava o tradicional festival grego do lobo e de Lupercus, o deus romano da agricultura e dos pastores, a quem eram sacrificados animais na caverna onde Rómulo e Remo teriam sido criados por uma loba. Os rituais eram dirigidos pelos “irmãos do lobo” e os rapazes corriam quase nus pelas ruas, fustigando as raparigas com peles de cabra. Hoje em dia, reconhecemos muitas destas festividades num dia atribuído a um santo que provavelmente nunca viveu: o celebrado Valentim.

De regresso ao Carnaval, temos que um disfarce comum é sempre o de animal. E o lobisomem é inspiração tradicional em muitas paragens, da Europa ao Canadá, onde é conhecido como “Loup Garou”. Na origem de tão singular criatura, terá estado o mítico rei Lycaon que foi, de acordo com o poeta Ovídio, castigado por Zeus após ter servido carne humana aos seus convidados; como punição, passou a assumir ciclicamente a forma de um lobo. Estando associado a um predador de tal forma significativo para as comunidades que com ele partilham territórios, nada de mais natural do que o fortalecimento do mito, de fábulas e histórias de assustar até Hollywood.

E se há muita variedade nas histórias de lobisomens em Portugal! Até temos, em Cambra, perto do rio Couto, uma “Cova do Lobisomem”, caverna funda onde os monstros se acoitariam após noites de terríveis caçadas. Embora possa parecer estranho, em dias de TV e internet, os lobisomens lá vão sobrevivendo em crendices espalhadas pelo País, mesmo em paragens onde nem lobos se vêem há décadas; sempre com pormenores distintos e feitiços específicos. Em Bragança, um lobisomem será o infame resultado de relação pecaminosa entre padrinho e afilhada; na Beira Baixa, um padre se atrapalhe com as fórmulas sagradas na cerimónia do baptismo pode condenar a criança ao negro fado da licantropia. Em aldeias como Pitões das Júnias, na Parada, em Riba de Mouro ou em Peirezes, o sétimo filho homem de um casamento poderá bem vir a assustar vales e serras com os seus uivos – só existe uma cura certa: a criança tem de ser baptizada pelo seu irmão mais velho.

Os lobisomens apresentam-se, como seria de esperar de entes amaldiçoados, como criaturas descoloridas e sorumbáticas; sempre condenadas a metamorfoses inesperadas, ao mínimo raio da lua cheia ou à simples chegada à meia-noite de terça ou quinta-feira, dependendo das tradições locais. Por vezes, nem sequer se parecem com lobos: em encruzilhadas, espojam-se nus pelo chão, imitando depois a forma do último animal que por ali tenha passado: cavalo, bode, galinha, burro, etc.

Mas, ao contrário dos congéneres europeus, os nossos licantropos têm brandos costumes; a maioria das lendas não lhes atribui massacres nem outras malfeitorias; a Inquisição lusa apenas guardou deles dois processos. E podiam até ser curados: por exemplo, picando-os com uma vara até sangrarem bastante, desde que o sangue não salpique testemunhas do esconjuro – estas passariam também a lobisomens. Nas serras do Alvão, pisar a sombra ao bicho já basta para apagar a maldição. Nos arredores do Porto, cortar-lhes a cauda, uma orelha ou uma pata é a “terapia” indicada. Perto de Bucelas, é mais seguro virar do avesso a roupa do lobisomem, que se calhar desfalecerá de vergonha ao dar por si em tais preparos na via pública.

Mas a sobrevivência desta criatura fabulosa e com tantas facetas diversas anda difícil. Como competir por território nas nossas imaginações com super-heróis e hobbits? Como fugir à extinção, quando já nem nos recordamos de obras antes famosas como a peça teatral “O Lobisomem”, de Camilo Castelo Branco, em que o protagonista se faz passar por fantasma e por lobisomem para se aproximar da amada? Que seja então o Carnaval a salvar da extinção estes monstros assustadores mas no fundo tristes e inofensivos.

Ao encontro de (quase) todos

Até Março de 2017, o Projecto Med-Wolf vai continuar a trabalhar por uma maior coexistência entre o nosso maior predador, hoje ameaçado de extinção, e as actividades humanas que, como a pecuária, fazem parte das nossas vidas, da nossa cultura e da nossa economia. Parte deste ambicioso objectivo passa pela divulgação de dados fidedignos sobre a espécie em Portugal e sobre as suas perspectivas de futuro. Isto é levado a cabo através de vários tipos de suportes e iniciativas: de folhetos a plataformas online, conteúdos didácticos e reuniões com as populações envolvidas.

Iniciando mais um ano de acção nos distritos da Guarda e de Castelo Branco, o Projecto tem vindo a apresentar os seus primeiros resultados a quem lida com o lobo na sua actividade profissional. Estes dados preliminares são assim apresentados em primeira mão a associações de criadores e instituições oficiais.

Neste âmbito, tem estado a decorrer desde o dia 20 de Janeiro uma ronda de sessões com associações de criadores pecuários (Acriguarda, Acrisabugal e Acrialmeida), autarquias e entidades estatais como o Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente da GNR e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. Outra reunião foi levada a cabo com a Associação de Caça e Pesca de Vilar Formoso.

Em cada uma destas sessões de trabalho é abordado um vasto conjunto de temas, das características físicas ao comportamento e à distribuição actual e histórica do lobo, passando pela dieta e por aspectos específicos de ameaças a que está sujeito, como o veneno e o furtivismo. É igualmente divulgada a informação mais recente sobre a situação do lobo nas áreas beirãs mais a leste. Isto inclui contributos de técnicos de vários domínios, nomeadamente de especialistas espanhóis que deram a conhecer a situação da população lupina em diferentes regiões de Espanha, nomeadamente a raia espanhola.

Com dados concretos, adaptados a cada grupo de interlocutores, foram cobertas áreas da maior importância, como as opiniões e atitudes do público face ao lobo, os métodos de prevenção, a dinâmica populacional da espécie, etc. Sempre finalizando com um período de interacção com os participantes, que podem fazer sugestões e ver esclarecidas algumas dúvidas. Pelo lado do Projecto, estiveram presentes alguns dos técnicos que hoje mais aprofundadamente estudam o lobo ibérico, mesmo fora da zona de acção do Projecto e até em Espanha.

Em simultâneo, como já tínhamos aqui noticiado há quinze dias, está prestes a ser distribuída a brochura “O Lobo Ibérico em Portugal”. Um completo manual para quem quer conhecer a espécie, a sua biologia e ecologia, e esclarecer muitas questões sobre métodos de prevenção, mitos, apoios financeiros a medidas de prevenção e muito mais. Quase uma pequena “enciclopédia” com dados históricos, modelos actuais de habitats na nossa área, respostas a perguntas frequentes e muito mais.

Como sempre nas iniciativas do Projecto, o objectivo é a conservação do lobo de forma sustentada, sem comprometer as actividades humanas e desenvolvendo esforços para que estas possam coexistir com o predador. Assumindo que a sua conservação apenas será possível com uma abordagem que a todos inclua, a todos ouça e a todos dê voz.

Tudo sobre o lobo

Nenhum outro animal arrasta a carga histórica e mítica do lobo. Admirado por uns, temido e odiado por outros, este predador vive mesmo no centro de um mundo de fantasias e medos irracionais que só pioram a sua imagem. Os mitos antigos, fundados no receio de um animal noctívago, silencioso e esquivo, já não assustam ninguém com relatos de lobisomens ou de gente devorada em ermos. Mas, nos dias de hoje, as fantasias continuam a andar por aí à solta, como os boatos de que “alguém” anda a libertar lobos nas serras. Há décadas que este mito viaja de aldeia em aldeia, sempre com pormenores diferentes e estranhos (que por vezes até incluem bichos a vir do céu em pára-quedas!), sempre sob a forma de relatos de anónimos, testemunhos de um primo de um amigo de um conhecido. Isto tudo sem que alguma vez na Europa tenha sido levado a cabo qualquer programa de reintrodução de lobos.

Assim vai sofrendo pela nossa ignorância o lobo ibérico, o nosso maior predador e um dos animais mais perseguidos e incompreendidos de Portugal.

O Projecto Med-Wolf também pretende ser uma fonte de informação correcta e actualizada, destinada a quem quer ou precisa de saber um pouco mais sobre o lobo em Portugal, sobretudo nos distritos da Guarda e de Castelo Branco. É sabido que mais informação acaba sempre por trazer mais tolerância, nem que seja por desmascarar mitos e crendices.

Por isso, estamos a ultimar um documento que será uma referência para todos os interessados sobreesta espécie única: das suas características físicas ao seu comportamento e à distribuição actual e histórica, passando pela dieta e pelas medidas de compensação dos seus ataques, entre outros temas. Tudo explicado de forma resumida mas rigorosa.

“O lobo-ibérico em Portugal – Situação no Leste da Beira Interior”; vai ser este o título da pequena brochura que resume e colige informação recolhida por vários grupos que desenvolveram estudos sobre o lobo em Portugal. Em particular, o trabalho de pesquisa desenvolvido pelo Grupo Lobo para o Projecto LIFE Med-Wolf.

Isto inclui informação sobre a população lupina nos distritos da Guarda e de Castelo Branco. Nesta área foram detectados vestígios da presença de 2 alcateias (na região da Guarda e do Sabugal) no censo nacional de 2002/2003, seguindo-se um período em que apenas foi possível registar a presença regular do lobo, sem evidências de alcateias. Dados recentes têm mostrado um aumento no número de observações de lobos e de prejuízos causado ao gado na zona. Esta tendência acompanha o que se passa nas áreas contíguas de Espanha, em que a presença do predador se tem intensificado. Em 2013 e 2014, os dados recolhidos permitiram confirmar a presença de apenas uma alcateia nos 7 concelhos abarcados pelo Projecto, mas com uma localização diferente das identificadas no referido censo.

Em 2014, com excepção da região Sul do município de Figueira de Castelo Rodrigo, do concelho de Almeida e o Sul da zona de Vilar Formoso, a presença de lobo é, em geral, pouco estável. Paragens existem, como o concelho da Guarda, em que os ataques decresceram de forma assinalável, o que talvez signifique que a alcateia aí existente possa ter desaparecido. Da mesma forma, os estudos recentes do Projecto não confirmaram a existência de uma alcateia na região do Sabugal, como o censo indicava. Há ainda áreas onde o habitat, incluindo a abundância de presas silvestres, é indicado para o lobo, como a Serra das Mesas, no Sabugal, e a vizinha Serra da Malcata. Estes locais deverão merecer maior atenção no futuro próximo por serem áreas potenciais de expansão natural do lobo.

Este é apenas uma das muitas vertentes do estudo do lobo ibérico que irá em breve encontrar neste trabalho. Ele será primeiro distribuído por associações de criadores, pelo SEPNA da GNR, jornalistas e autarcas da nossa zona. Mas poderá dentro de pouco tempo consultá-lo nas páginas online do Projecto: www.medwolf.eu.

Desejos para um ano mais tolerante

Eis-nos chegados a 2016. Mais um ano em que o Projecto Med-Wolf vai estar no terreno, dividindo os seus esforços entre a Guarda e Castelo Branco, nas zonas afectadas pelo ressurgimento recente da presença do lobo. Isto, claro sem esquecer a componente italiana do Projecto, activa na área rural de Grosseto.

Como pequena recapitulação do nosso trabalho, poderemos mencionar os 25 cães de gado já oferecidos e integrados, com o respectivo apoio veterinário e alimentar. Ou as mais de 3 dezenas de vedações fixas instaladas com o apoio do Projecto. Isto em termos de benefícios físicos e palpáveis; noutros campos, temos tentado semear ideias e atitudes que poderão frutificar a médio ou mesmo a curto prazo. Com iniciativas orientadas para os mais jovens, incluindo palestras e pacotes pedagógicos apresentados nas escolas; com a promoção de encontros com criadores de gado para que todos possamos procurar, em conjunto, melhores soluções para amenizar os conflitos entre a pecuária e o lobo ibérico; com o lançamento de iniciativas-piloto de ecoturismo, que já trouxeram até às nossas terras algumas dezenas de visitantes em busca de sinais de convivência com o predador mais mítico do nosso País – descobrindo de caminho algumas maravilhas naturais e muito da vida de quem trabalha esta terra.

Como desejos de Ano Novo, claro que ambicionamos continuar e expandir este trabalho. Até agora, temos contado com a colaboração e boa vontade de muitas pessoas e instituições. Mas o espírito de tolerância nunca é demais; que ele possa crescer um pouco por estas paragens seria claramente o nosso primeiro desejo.

Em primeiro lugar, tal passará pela aceitação de que um predador como o lobo tem um importante papel na Natureza que nos rodeia: ao consumir javalis e veados, reduz os prejuízos que estes causam nas pastagens e pomares e evita que transmitam ao gado doenças como a tuberculose ou a brucelose. Sendo que em algumas regiões do País, o javali representa mais de 40% da alimentação dos lobos. Além disso, estes diminuem os números de outros carnívoros, como a raposa, a geneta, o texugo ou a fuinha, reduzindo o seu impacto nos animais domésticos e na caça. Em todos os locais onde as alcateias têm desaparecido, há uma explosão demográfica de várias espécies de predadores médios e também dos cães vadios, tendendo estes a ocupar o lugar do lobo e causando prejuízos muito avultados no gado, que não são pagos pelo Estado. Ao fim e ao cabo, proteger o lobo é cuidar de um património natural que devemos salvaguardar para as gerações futuras.

Que mais poderíamos desejar para 2016? Talvez um pouco de objectividade na forma como se encara o “regresso” do lobo. Começando por aceitar que este sempre fez parte do dia-a-dia dos nossos antepassados – reflexos disto são ainda hoje legíveis nos nomes de povoações como Mata de Lobos, em Figueira de Castelo Rodrigo, Pena de Lobo, no Sabugal, ou Pailobo, na antiga freguesia de Parada, em Almeida; esta até tinha um lobo no seu brasão.

Depois, esquecer fantasias como o mito das “largadas” de lobos. Repetimos: nunca, em toda a Europa, foi alguma vez levado a cabo qualquer programa de reintrodução de lobos. Em Portugal, isso seria completamente ilegal. Os lobos são os de sempre – embora tenham sido extintos em muitas paragens de Portugal, nunca deixaram de estar presentes, mesmo nas Beiras. Com o abandono de grandes áreas de terra e a redução da presença humana, todos os animais silvestres ganharam espaço e condições para aumentar os seus números. A pastorícia, ao integrar menos cabeças de gado, adopta circuitos mais próximos das povoações, o que aproxima inevitavelmente os predadores do Homem.

Fiquemos com estas ideias. Durante todo o ano, estaremos cá para ajudar a que venham a dar frutos.

História antiga

O Lobo já tinha mais anos do que se lembrava; mas, mesmo assim, a longa jornada ainda não o cansara. Haviam passado por desertos, saciado a sede em oásis, acampado nas tendas erguidas pelos criados do mestre em redor de fogueiras que esconjuravam os medos e o frio da noite arábica.

Sim, o Lobo tinha um mestre. Não um “dono” entenda-se; por muitos anos e aventuras que passassem juntos, aquele homem e aquele lobo nunca seriam dono e coisa possuída – o lobo mantinha muita da sua natureza original e o homem era sábio de mais para tal contrariar. Teria o predador sido recolhido ainda lobacho e adestrado até largar as ânsias selvagens e crescer como guarda fiel? Ou começara a acompanhar o velho numa das suas viagens, aceitando de quando em vez um pouco de comida, depois uma festa... e acabando por seguir a caravana? Os servos contavam entre si estas e outras histórias. Mas nunca perdiam nem o espanto nem o medo por viajarem em semelhante companhia.

A presente demanda era apenas mais uma, note-se. O mestre emergira da torre onde gastava horas sem fim a estudar astros e mapas, declarando que deviam fazer-se ao caminho, pois ele tinha obrigações inadiáveis, bem longe dali.

Mas naqueles tempos qualquer viagem era empresa arriscada. E esta não foi excepção: quando os homens desenrolavam os panos das tendas, uma horda de salteadores desceu sobre eles. Os guardas do mestre eram tão ferozes quanto os bandidos e contavam com a ajuda do Lobo. Mas, face a tantos facínoras, acabaram por retirar, abandonando parte das bagagens e levando consigo o mestre.

O Lobo ficou para trás, protegendo a fuga. Na confusão escura da refrega, ia distribuindo dentadas, aqui num braço, ali numa nádega. Aterrorizados por um inimigo que não viam, os assaltantes acabaram também por partir, numa inútil perseguição a pé ao que restava da caravana.  

O Lobo, bom observador, reparou logo numa desgraça: de um dos camelos caíra na areia um saco de couro que pertencia ao mestre. Pior: ele dissera ao Lobo que ali seguia um objecto importante, sem o qual toda a viagem perderia o sentido. Nada havia a pensar, apenas a fazer: o forte animal abocanhou as alças do saco e começou a arrastar o pesado tesouro.

Não cabe aqui o relato de todas as peripécias que o assolaram durante a jornada em busca do mestre (este já dava o seu companheiro por morto, tamanha a demora do reencontro): sempre guiado pela bússola do instinto, galgou dunas e penedos, evitando as cidades, bebendo e comendo onde podia, sem nunca largar de vista o saco.

Ele sabia que iria ver o mestre de novo. E assim foi; ao chegar a um monte, ouviu uma língua e vozes familiares, vindas do outro lado: estava ali a comitiva de que se separara. Quase em trote feliz, o Lobo aprestou-se para cumprir os últimos metros antes da alegria. Era de noite, mas abundava uma claridade forte e quente. E foi assim que ele viu o cão, ainda bem longe. Sem medo, aproximou-se.

– Amigo cão, não receies, que venho em paz. – Já estávamos longe dos dias das fábulas, quando as pessoas dialogavam com os animais. Mas estes ainda se entendiam uns aos outros; sobretudo entre parentes chegados, como era o caso.

– Ná. Eu conheço bem as manhas dos lobos. Há anos que guardo o rebanho do meu dono e já tive de expulsar muitos de vós. – Então, o lobo reparou na grossa coleira de ferro, com bicos, que o mastim trazia ao pescoço. – Mas tu estás bem alimentado, com pêlo bonito; não te pareces lá muito com os lobos escanzelados daqui...

– Repara – retorquiu o Lobo –, esta noite tem algo de especial: tanta luz, mesmo sem Lua. Não quero lutar numa noite assim. Escolta-me então até ao meu mestre, por um caminho que passe longe das tuas ovelhas.

O cão pensou naquele estranho lobo, vindo de tão longe, não para roubar borregos, mas para oferecer um qualquer tesouro num saco. Acabou por aceder. E lá seguiram eles, orelhas ainda baixas, meio desconfiadas, rumo à luz e aos homens.

Foi assim que o ouro chegou a tempo de ser oferecido ao Menino que acabara de nascer.

Notícias de lobos, de Portugal à China

Neste final de 2015, se formos fazer fé apenas nas notícias lidas na nossa Imprensa, os conflitos entre a pecuária e os lobos, pelo menos na zona de Castelo Branco e da Guarda, parecem estar a abrandar.

Quem anda no terreno sabe de que os ataques não acabaram, claro, mas a grande notícia nacional sobre este tema tem sido o “animal misterioso” que terá morto uma centena de ovelhas na zona de Tomar há quinze dias. Um lince, como garantem alguns populares? Cães assilvestrados, como sugerem técnicos do ICNF? A esta hora, o mistério ainda não foi resolvido. Note-se que nas Ardenas francesas andava há poucas semanas gente alarmada com as tropelias de supostos lobos, que afinal eram exemplares de Cão Lobo Checoslovaco, não muito bem vigiados pelo seu dono...

Outra a notícia bastante badalada diz respeito á atribuição, na Noruega, de licenças para caçar 16 lobos, às quais se candidataram mais de 11.500 caçadores – mais de 700 por animal a abater, num país que pouco mais de 30 lobos deve ter.

Na nossa vizinha Salamanca, os ânimos andam exaltados, com algumas queixas de ataques a vitelas, ovelhas e porcos. Cerca de 200 lobos ibéricos podem ser caçados anualmente em Espanha, no que parece ser uma cedência sem fundamento científico aos interesses dos grandes criadores – ninguém ali sabe ao certo qual a população lupina total, nem sequer o número de animais efectivamente caçados. Ainda por cima, existem estudos a indicar que a perturbação das alcateias causa aumentos no número de ataques ao gado, não os diminui.

Já mais a norte, na serra da Culebra, a reputação dos lobos está em alta, com o projecto «Territorio de Lobos» a ajudar os donos de hotéis e restaurantes a facturar milhões de euros anuais à conta do ecoturismo centrado no lobo. E as boas notícias chegam de outros locais: na Polónia, o regresso consistente de lobos ao parque nacional de Kampinos, a apenas 30 km da capital Varsóvia, tem sido recebido com alegria. E nos EUA constata-se que os lobos deixaram de estar em perigo de desaparecer dos estados de Michigan, Minnesota e Wisconsin.

É natural: quando a presença humana no campo começa a ser menos intensa, os animais silvestres, incluindo os predadores, tendem a reforçar a sua presença. Sem precisarem de ajudas humanas nem de supostas reintroduções, que até seriam totalmente ilegais face à lei portuguesa.

Passando ao Cinema, o recente filme “A Hora do Lobo”, de Jean-Jacques Annaud, conta-nos uma história verídica de convivência entre homens e lobos na Mongólia Interior. Nos anos 50 o governo de Mao Tsé-Tung lançou a sua “Campanha das 4 Pragas” sendo todos os chineses instados a exterminar ratos, moscas, mosquitos e pardais. Ora os últimos faziam bastante falta, pois alimentavam-se de insectos daninhos para as culturas – estas vieram a ser afectadas com o desequilibro ecológico causado, contribuindo para a morte de mais de 20 milhões de chineses na “Grande Fome”.

Pouco se aprendeu com esta experiência terrível. Em 1967, Chen Zen, um jovem estudante de Pequim e protagonista do filme, chega à Mongólia com a missão de educar uma população isolada nas estepes ainda selvagens. Na bagagem, a “civilização” leva de novo a guerra à Natureza, desta feita contra os lobos. O estudante recusa-se a participar na matança e adopta uma cria de lobo, o que irá desencadear peripécias que não vamos aqui desvendar, para não lhe estragar a descoberta desta bela obra.

Hoje, o lobo já retomou parte do seu lugar na China, sendo o seu regresso agora fomentado pelas autoridades, como parte de um plano contra a desertificação: controlando o número de herbívoros de grande porte, as alcateias já facilitaram a rearborização de algumas áreas, o que pode servir para atenuar as grandes tempestades de areia que assolam aquele país. Moral da história: é sempre melhor trabalhar com a Natureza do que contra ela.

Um manual para a coexistência

Em Fevereiro, tínhamos aqui deixado notícia da elaboração de um “Manual” destinado ao produtor pecuário, com conselhos, indicações práticas e soluções actuais para uma protecção mais eficaz e racional do gado. Incluindo descrições detalhadas dos métodos mais conhecidos, dados interessantes, resultados de anos de pesquisa em várias paragens onde o lobo faz parte da vida dos homens.

O seu objectivo não  ser exasutivo mas simeculiaridades dos diversos animais domaneie os proventos que amanhs.é ser exaustivo, mas sim um recurso prático e fácil de usar para melhor proteger pequenos e grandes ruminantes, nos diversos sistemas de maneio. Atendendo às condições geográficas nas diferentes regiões do País e às diferentes peculiaridades dos diversos animais domésticos.

Aborda medidas conhecidas há séculos, como os cães de gado, mas também propostas novas, como as bandeiras ou os alarmes luminosos e acústicos. Passando por orientações quanto às características ideais dos efectivos, em termos de número mas também de características que os animais devem possuir. E temas como os cães “de virar” ou a legislação aplicável, sem esquecer os contactos telefónicos a usar para reportar um ataque nem os cuidados a ter com os vestígios do mesmo. Apresentam-se algumas medidas pouco conhecidas por cá, mas que podem ser usadas, em situações específicas, como coleiras de protecção e electrónicas para o gado. Finalizando com as oportunidades de apoio ao abrigo do Programa de Desenvolvimento Rural – PDR 2020.

O objectivo é sempre ajudar a diminuir os prejuízos económicos causados pelos predadores, mantendo a rentabilidade da actividade pecuária. Só assim poderemos evoluir para uma produção pecuária sustentável, que tenha em consideração a presença de todos os elementos que sempre fizeram parte da nossa Natureza, incluindo o lobo.

Sem nunca esquecer que, antes do mais, se na sua exploração têm ocorrido ataques de predadores, deve começar por avaliar o problema, identificar as causas e procurar soluções, contabilizando o montante dos prejuízos, percebendo quais os animais mais afectados, a época do ano mais problemática, as pastagens com maior risco, e escolhendo as ferramentas, os métodos e as estratégias mais adequados para proteger o gado. Depois, este manual pode ser um contributo interessante para o ajudar a minorar o número de ataques e as consequências dos mesmos. A eficiência das medidas irá depender de cada situação específica, mas se forem bem aplicadas serão rentáveis a curto/médio prazo.

Pastoreio de percurso, livre ou de cercado? Grandes ou pequenos ruminantes? Com ou sem pastor? Como escolher e manter bons cães de gado? Vedações eléctricas ou convencionais? Nas páginas deste Manual, encontrará um guia rápido que o ajudará a responder a muitas questões práticas e escolher as medidas mais adequadas a cada exploração, consoante o tipo de gado e sistema de maneio.

E terá também ao seu dispor informação precisa, com indicação de medidas e diagramas detalhados; sobre a edificação de vedações, eléctricas ou não, com as soluções mais indicadas para uma segurança máxima. O mesmo quanto aos cães de gado, com um guia alargado sobre a sua selecção, as raças nacionais, o seu comportamento, a sua reprodução, etc.

Em breve poderá dispor deste manual; os técnicos do Projecto Med-Wolf (e não só) que participaram na sua elaboração esperam que o ache útil; é fruto do trabalho conjunto de vários investigadores, gestores e criadores de gado, com diversas experiências e visões.

Se quer pedir desde já o seu exemplar, faça-nos chegar esse pedido pelo e-mail do Projecto: lifemedwolf@.fc.ul.pt. Mas trata-se de uma obra que irá sempre sendo aperfeiçoada, ampliada e actualizada. Se acha que pode contribuir com alguma informação relevante, não hesite em usar o mesmo endereço.

Esta obra é para todos os que têm de coexistir com o lobo, foi em grande parte feita por eles e fará por certo ainda mais sentido com os seus contributos.

30 anos pelo lobo e pelas pessoas

Há 30 anos, a situação do lobo ibérico em Portugal parecia desesperada: vivendo numa parcela cada vez mais pequena do território, sujeito a perseguição impiedosa, vítima da incompreensão e de mitos generalizados, este animal parecia fadado a seguir o caminho de tantos outros, como o urso, e desaparecer do nosso País. O Grupo Lobo foi fundado nesse já distante 1985, para enfrentar tais ameaças e impedir que a Natureza que nos rodeia e enriquece ficasse ainda mais pobre.

Como entidade independente sem fins lucrativos (e desfrutando hoje de estatuto de utilidade pública), o Grupo Lobo lançou, dois anos após o seu início, o Projecto Signatus. Este integra uma vertente de Investigação Aplicada, promovendo e realizando estudos técnico-científicos que ampliam o nosso conhecimento sobre o lobo no âmbito da biologia e da antropologia, para um melhor conhecimento do lobo e das suas interacções com o Homem. Outro campo fundamental da sua acção é a Educação Ambiental, que distribui informação correcta e imparcial sobre o lobo ibérico às populações rurais, às crianças e até aos meios de informação. No lado mais prático, o Grupo Lobo promove medidas efectivas de conservação, não só deste canídeo mas também de todo o património natural português. Assim, colaborou na elaboração da Lei de Protecção ao Lobo Ibérico, Lei n.º 90/88 de 13 de Agosto, que lhe confere o estatuto de espécie estritamente protegida em Portugal, estando a colaborar na revisão do Decreto-lei n.º 139/90, de 27 de Abril, que regulamenta a sua aplicação. Tem ainda feito parte da elaboração e revisão dos Livros Vermelhos dos Vertebrados de Portugal.

Em 1996, foi lançado uma das iniciativas com impacto mais positivo na coexistência com o lobo: o Programa Cão de Gado. Sobre este já por aqui conversámos bastante, realçando o fornecimento gratuito de um excelente método de protecção do gado: cães de boas raças nacionais, seleccionados, alimentados e monitorizados pelos técnicos do Grupo. Foram já entregues perto de 500 cães a inúmeras explorações pecuárias, em todas as paragens onde a presença do lobo se faz sentir.

O Centro de Recuperação do Lobo Ibérico (CRLI), a 30 km de Lisboa, é outra das suas obras fulcrais. Foi criado em 1987 com o objectivo de acolher lobos que não podem viver em liberdade: animais vítimas de armadilhas, de maus tratos, de cativeiros ilegais e ainda outros que já ali nasceram, preservando a diversidade genética do lobo ibérico. Mas estes lobos são responsabilidade do ICNF; não podem ser sequer transportados sem autorização oficial... nunca libertados – nenhum o foi, nenhum o será, pois tal seria um acto ilegal.

São 17 hectares que recriam o habitat natural do lobo ibérico – de que restam apenas cerca de 300 exemplares em Portugal. Mais de 100.000 visitantes descobriram assim este predador quase mítico, a sua biologia e ecologia; assim como as ameaças que sobre ele pendem.

Nestes 30 anos, muito mais se tem feito, como a liderança de Projectos da UE que trazem para Portugal conhecimentos e importantes investimentos europeus, iniciativas de Ecoturismo, que visam transformar a presença do lobo num recurso turístico e muito, muito mais. A testemunhar a qualidade do trabalho de três décadas, ficam prémios nacionais e internacionais, como os “The Rolex Awards for Enterprise”, “Ford Motor Company Award”, “Prémio de Biodiversidade BES”, “Terre de Femmes” da Fundação Yves Rocher... e o mais recente, o 1.º lugar na categoria Ecologia e Biodiversidade do Festival Art & Tur, um dos mais prestigiados certames a nível mundial no circuito do cinema turístico.

Justifica-se portanto um sentido “Parabéns a Você”; ao Grupo Lobo e a todos, animais e humanos, que beneficiaram destes 30 anos de esforço, dedicação e sacrifício.

Cães de gado trazem cientistas a Castelo Branco

Na semana passada, alguns dos maiores especialistas mundiais em cães de gado estiveram em Castelo Branco, num encontro científico intitulado “Cães de Gado – da Tradição à Modernidade: como avaliar, melhorar e inovar”.

É sabido que em Portugal a intensificação da presença do lobo não tem trazido apenas conflitos entre o nosso maior predador e a indústria pecuária; tem também dado força ao ressurgimento da antiga tradição do uso de cães de gado. Na verdade, as excelentes raças de que dispomos nunca desapareceram por inteiro, em parte graças a um programa com 20 anos do Grupo Lobo, já responsável pela oferta de perto de 500 cães a criadores de gado em zonas de lobo. Já é uma tradição consabida: onde há ataques, começam a surgir os cães seleccionados, oferecidos e depois monitorizados por esta Organização Não-Governamental de Ambiente – sempre sem custos para o pastor e incluindo alimentação e acompanhamento veterinário nos primeiros meses de “trabalho” do cão. Usando no programa as raças portuguesas mais adaptadas a cada tipo de terreno, estas acabam por ter um forte motivo para se verem preservadas e acarinhadas.

Assim também se salva um saber milenar: o uso de cães para impedir ou dificultar os ataques de lobos a rebanhos e manadas. Como escolher as melhores linhas, como e quando “apresentar” os cachorros aos animais domésticos, como inculcar nestes guardas caninos a ideia de que os animais que protege são a sua verdadeira “família”.

Para lá de uma acrescida protecção ao gado, o programa tem vindo a dar frutos, mesmo internacionalmente. Hoje em dia, é famosa e reconhecida por todo o mundo a qualidade das práticas portuguesas, na selecção, adaptação e disseminação dos cães de gado. Por isso, nada mais natural do que ter sido Portugal a acolher um encontro científico destinado a aperfeiçoar métodos que nos foram legados pela tradição. Durante 4 dias, 18 especialistas de três continentes visitaram explorações pecuárias na zona de intervenção do Projecto LIFE Med-Wolf (Guarda e de Castelo Branco) e mais além, tendo, por exemplo conhecido realidades distintas em locais como Cinfães, contactando com os criadores locais e vendo os seus cães em acção. Além de tomarem conhecimento das práticas portuguesas, discutiram entre si as várias vertentes e possíveis melhoramentos no uso de cães na protecção de rebanhos e manadas; apresentando os resultados do seu trabalho e ideias várias para aperfeiçoar todo o sistema, adequando-o aos tempos modernos.

Note-se que o lobo não é o único predador cuja presença suscita o emprego de cães de gado: por exemplo, na Noruega eles oferecem defesa contra os ataques de ursos, glutões, linces e até de águias. Na Austrália, os dingos (que descenderão de cães regressados ao estado selvagem) são a maior ameaça. Nos EUA, há neste momento Cães de Gado Transmontanos a participar num projecto-piloto destinado a evitar prejuízos causados por lobos e ursos. Julie Young, presente neste encontro, gere um programa de teste dos Wildlife Services a várias raças europeias, tentando escolher os melhores protectores. Um dos seus favoritos é Sonny, um Cão de Gado Transmontano enviado expressamente via avião para este efeito. A hipótese em estudo é a de cães mais corpulentos mostrarem mais resistência quando confrontados com ataques de animais mais volumosos até do que os lobos ibéricos. “Quando estes cães são atacados, eles mesmo assim continuam a guardar o gado”, diz a cientista americana, entusiasmada com o desempenho destes portugueses de garra.

Foi a primeira vez em que especialistas de 11 países se reuniram para ajudar a trazer métodos aperfeiçoados desde tempos imemoriais para o século XXI – um trajecto da Tradição à Modernidade, como o denota o nome do encontro. Uma iniciativa levada a cabo no contexto do no Projecto LIFE Med-Wolf – Boas Práticas para a Conservação do Lobo em Regiões Mediterrânicas.

O lobo será atracção turística?

É cantochão ouvido vezes sem fim em cada reunião popular, de criadores ou de agricultores em que se menciona o lobo ibérico: “mas para que serve esse bicho?”, a que se seguem os responsos “não tem préstimo nenhum!” e “só dá é prejuízo”...

De pouco adianta falar do lugar do lobo nos nossos ecossistemas: do seu papel a diminuir os efectivos de javalis, de raposas, até de cães assilvestrados. Aparece sempre alguém que garante que os javalis é que comem lobos ou que os cães são incapazes de atacar o gado. Nem vale a pena tentar descrever o que aconteceu no parque americano de Yellowstone quando desapareceram as alcateias: em poucos anos, os herbívoros multiplicaram-se à vontade, desbastando a vegetação e convertendo secções inteiras do parque em verdadeiros desertos...

De entendimento mais fácil deveriam ser os benefícios económicos oriundos do turismo. Com ou sem razão, é sabido que o lobo é animal de estimação para muitos citadinos; predador lendário que enche mitos, filmes, reminiscências de tempos idos. E há muito boa gente que é capaz de se meter à estrada para contactar com realidades campestres que ainda mantêm espaço para criaturas selvagens, indomáveis.

Aqui mesmo ao lado, na reserva espanhola da Serra da Culebra, sabem tirar bom proveito da presença do lobo. Estima-se que em 2012, só de receitas directas em dormidas e refeições, o comércio local lucrou mais de 600.000 euros com o turismo centrado no lobo. Já antes um trabalho de doutoramento avaliara em mais de 6 milhões de euros os rendimentos globais para aquela região, provenientes do fluxo de turistas atraídos pela presença do lobo. O seu autor concluiu: “a ideia de um turismo sustentável de qualidade, baseado neste mamífero, é não só viável mas também rentável”.

Do lado de cá da fronteira, é certo que os efectivos do predador são mais modestos, dificultando, e muito, a sua observação. Mas há poucos meses o Projecto Med-Wolf levou a cabo, na zona de Almeida, um passeio intitulado “O Lobo em Terras do Côa”, organizado pela empresa Montes de Encanto. Um percurso por um dos trechos mais bonitos do Côa, junto ao Sabugal, incluindo visitas ao Curral de Lobos e a três explorações pecuárias. Esta iniciativa teve um sucesso encorajador, atraindo visitantes de Lisboa e de outra paragens... todos desejosos de descobrir uma forma de viver a realidade campestre que sabe coexistir com o nosso maior predador.

Agora, chegou o momento de repetir a experiência. No fim-de-semana de 31 de Outubro e 1 de Novembro, vai ser proposto aos amantes do mundo rural uma nova iniciativa: o “Dia com o Pastor”. Desafiando o turista, e a sua família, a sair dos roteiros habituais e encontrar as gentes locais, com a sua forma de viver a terra, num programa que encantará até as crianças: um dia passado na quinta de um pastor, acompanhando o seu rebanho de cabras, observando os cabritos acabados de nascer, provando o queijo, apanhando castanhas, sentindo a hospitalidade, as tradições e a gastronomia beirãs, sempre em contacto directo com os animais e a vida do campo. Segue-se um jantar num bom restaurante da zona e uma manhã passada em visitas a explorações pecuárias que já usufruem do apoio Med-Wolf, com bons cães de gado ou vedações para proteger o gado.

É bom de ver que desta forma não só se atraem visitantes às nossas terras, como se beneficia a hotelaria e o comércio em geral. E ainda se acalenta o interesse pelo que de mais genuíno se vai mantendo nas vivências dos nossos homens e mulheres. Não os encarando como bichos em vias de extinção mas sim como fonte de sabedoria, repositório de saberes que vão hoje fazendo muita falta a um mundo em risco de sucumbir ante a desumanização e o progresso desenfreado.

Se ao menos o lobo contribuir para isto, que mais destas ideias frutifiquem e se multipliquem. Conhece quem possa estar interessado neste passeio diferente? Passe-lhes o contacto para reservas: o telefone 933237709.

Ainda tem medo do Lobo Mau?

Todos conhecemos o Lobo Mau que povoa os contos de fadas e as fábulas com que milhões de crianças em todo o mundo se divertem e são educadas. Este vilão típico das ficções infantis está sempre esfomeado, surpreende as crianças mal elas se aventuram fora dos caminhos recomendados, ataca sem piedade os distraídos, os volúveis, os mentirosos – como o pastor que lança tantos alertas falsos que depois é deixado à sua sorte quando a alcateia ataca mesmo o seu rebanho – e os imprevidentes da estirpe dos famosos porquinhos que não acautelaram a solidez das suas casas.

Esta personagem feroz e sem piedade trabalha, afinal, como um auxiliar educativo: personaliza todos os fenómenos com que a implacável Natureza castiga os que a desafiam por orgulho ou imprevidência. O Lobo Mau é um potente símbolo dos mil perigos que aguardam os petizes que ousam desobedecer às ordens dos mais velhos, que julgam poder decidir os seus destinos sem atender ao ditames dos adultos, às normas da comunidade e a toda a educação que lhes é inculcada para favorecer a sua integração numa sociedade coesa e compacta. A educação fabrica assim um mito à medida dos seus objectivos: assustar para induzir o conformismo e a segurança.

Trata-se de um arquétipo útil, mas desenvolvido em tempos que já lá vão; quando as parábolas e as hipérboles eram o único método de propagar lições importantes para a sobrevivência, não os factos e os dados científicos que hoje ajudam a formar mentes mais ágeis e alertas. O lobo estava mesmo talhado para desempenhar tal papel: um predador astucioso que prefere mover-se na escuridão, que imita os seres humanos na formação de grupos que atacam em conjunto, que por vezes retira ao Homem os animais de que ele depende para o seu sustento. Noutros locais, noutros contextos, diferentes animais são escolhidos para encarnar a figura do papão que castiga quem desobedece: nestes castings, a sorte pode calhar a qualquer um, dos tigres às cobras, passando até pelos inofensivos morcegos.

Por cá, nos elencos dos nossos sustos nocturnos, também é cabeça de cartaz esse primo do lobo, ainda mais assustador: o lobisomem. Já que os adultos dificilmente admitirão sentir medo de um simples animal, este sofre um upgrade ao tornar-se recipiente de virtudes e poderes demoníacos, ao mesmo tempo exemplo de castigo e de besta punitiva dos mais afoitos e desobedientes.

Mas concentremo-nos agora nas crianças, já que estas representam um futuro ainda por moldar, sementes de um mundo mais tolerante e esclarecido. Agora que rumam de novo às escolas, com as mochilas carregadas de livros mas também de sonhos e de brincadeiras, o Projecto Med-Wolf estará presente em algumas aulas das nossas escolas, com material didáctico e palestras que visam explicar melhor os vários aspectos da biologia e do comportamento do lobo, assim como os conflitos entre esta espécie ameaçada e a pecuária. Não endeusando o animal mas fazendo por lhe retirar a carga mítica que ainda hoje leva muitos adultos a acreditar em fábulas como ataques a pessoas e "largadas" de lobos – em reintroduções que nunca existiram, em parte alguma da Europa.

No ano passado a eficácia destas ferramentas pedagógicas foi avaliada, através de inquéritos a centenas de alunos de escolas do Sabugal e de Figueira de Castelo Rodrigo. Antes do mais, foi verificado que as crianças (sobretudo as do Sabugal, onde o lobo está hoje presente) sabem mais sobre o lobo ibérico do que os adultos, apresentando ainda maior rejeição de métodos de perseguição da espécie como o veneno e os laços. Depois, foi confirmado o que muitos estudos no estrangeiro já afirmavam: saber mais sobre uma espécie leva sempre a melhores atitudes e opiniões sobre a mesma.

Aqui está uma boa lição que poderemos todos aprender com os nossos filhos: o conhecimento é o melhor caminho para uma convivência pacífica; seja entre nós ou com outras espécies.

Fogo!

Todos esperamos que o pior na época dos incêndios em Portugal já tenha passado. Mas isto dá que pensar; mesmo a já simples expressão, a “época dos incêndios” é emblema de um certo fatalismo também muito nosso; aperta o calor, esperamos logo que comecem a irromper os dramas na televisão ou na mata mais próxima. Mas mesmo o mais poderoso país do mundo, os EUA, têm estados, como a Califórnia, que são regularmente massacrados por incêndios gigantescos, que nem meios de combate a condizer conseguem impedir de consumir casas e vidas humanas – no total, já perto de 60 bombeiros americanos perderam a vida neste ano. O aquecimento global só irá contribuir para piorar este cenário, também em Portugal; toda a prevenção será cada vez mais indispensável.

Mas nem tudo são más notícias nestas florestas mártires. Na mesma Califórnia, foi fotografada, pela primeira vez em quase um século, uma alcateia de lobos cinzentos. Ela apareceu nos montes Shasta, a escassas centenas de quilómetros da Floresta Nacional Shasta-Trinity, que já foi palco de mais de meia-dúzia de fogos só neste ano. Uma boa notícia que é fraca compensação para a enorme área ardida.

É interessante relembrar que, nas lendas de várias tribos índias, foi um lobo quem enganou os guardiães do fogo e o trouxe até aos homens, mudando-nos para sempre, para o bem e para o mal. Os bosquímanos têm um mito fundador igualmente interessante: enquanto dava os últimos retoques na Criação, o deus Kaang manteve animais e homens num subterrâneo. Só após estar contente com a sua obra é que plantou uma enorme árvore cujas raízes alcançavam a caverna habitada; depois, abriu um buraco junto à base da árvore e chamou a primeira mulher para sair e contemplar o seu mundo. Bem depressa estavam todos os homens e animais à superfície, maravilhados pelo novo mundo. Kaang ofereceu-lhes tudo o que a vista alcançava, mas com um aviso solene: nunca deveriam usar o fogo. Claro está que os homens, mal o Sol se pôs, começaram a tiritar de frio, desprovidos que eram das quentes peles dos bichos. Daí à desobediência foi um passo: trataram de acender uma fogueira para se aquecer. Resultado: não só atraíram a ira divina como assustaram os animais, que fugiram de perto dos homens e nunca mais neles confiaram, quebrando assim um vínculo primordial.

Por vezes, o efeito daquela quebra da palavra dada ainda é reversível. Quem não se lembra de imagens recentes passadas nas televisões portuguesas, com os bombeiros de Gouveia a alimentar uma raposa no meio de um rescaldo na Serra da Estrela? O animal parecia ter esquecido por momentos a sua natureza arisca e selvagem, acercando-se dos bombeiros e até aceitando comida das suas mãos.

Mas este não é um desfecho comum. Por norma, quando as florestas ardem, muitas vezes ateadas pela incúria ou por mão criminosa, toda a vida selvagem sofre. Para um predador de topo como o lobo, o desaparecimento de presas só lhe pode dificultar a vida nas áreas queimadas. Mas logo surge o tempo da renovação: mal surjam os primeiros rebentos, algumas espécies de herbívoros regressam e o lobo pode instalar-se de novo em zonas ardidas. Estudos recentes até indicam que animais como o caribu acabam por ter mais encontros fatais com lobos quando o seu habitat preferencial é parcialmente destruído.

Enfim; melhor será não esquecer as lições da nossa História que demonstram como o fogo pode escapar do nosso controlo e transformar-se num cataclismo: no século XV, os colonos da Madeira resolveram que a forma mais fácil de desbastar as florestas que lhes limitavam os movimentos era o fogo. Dias depois desta ideia brilhante, tiveram de mergulhar no mar para fugir às chamas que engoliram a ilha – segundo a tradição, o incêndio resultante terá durado nada menos que sete anos! Razão tinha o deus Kaang quando decidiu que não era mesmo boa ideia deixar-nos brincar com o fogo...

Uma Aldeia no centro de tudo

Um Projecto de âmbito transnacional como o Med-Wolf, em curso em regiões tão distantes entre si – Grosseto, em Itália, e a Guarda e Castelo Branco –, pode à primeira vista parecer coisa mais ligada aos meandros das burocracias europeias do que às reais necessidades das pessoas que têm de coexistir com o lobo.

A parceria com entidades académicas como a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa ou a Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Castelo Branco dá ao Projecto um indispensável lastro científico e de ligação às práticas agro-pecuárias. Só por meros exemplos, quer se trate de aplicar as técnicas mais actuais para recensear os lobos nas terras de intervenção do Projecto ou definir, juntamente com as explorações beneficiadas, os parâmetros técnicos de uma vedação, aquelas instituições têm tido papéis decisivos. Sobretudo com a permanente ligação à experiência no terreno dos biólogos do Grupo Lobo, e em contínuo diálogo com os homens e mulheres que, como sói dizer-se, vivem “na boca do lobo”.

Mas este Projecto conta ainda com um outro parceiro, que há dias cumpriu a dúzia de anos de trabalho em prol da preservação das tradições que ainda resistem nos meios rurais e do desenvolvimento sustentável destas áreas. A ALDEIA, acrónimo de “Acção, Liberdade, Desenvolvimento, Educação, Investigação, Ambiente”, foi fundada em Julho de 2003, no Planalto Mirandês e mantém a sua sede em Vimioso, no Nordeste Transmontano. Nestes anos, a ALDEIA tem vindo a lançar ideias e colaborações com várias entidades que comungam da sua visão de um Portugal onde “progresso” não tem de ser sinónimo de esvaziamento do interior e de perda de autenticidade.

Mais do que preservar recursos naturais ou etnográficos de forma estéril, alheada das gentes, esta associação busca “uma ruralidade moderna e dinâmica, mas também saudável e sustentável.” Preparando pessoas, modos de vida e tradições para a convivência com um mundo onde a tecnologia e novas ameaças moldam o futuro de todos. Baseada no voluntariado e no associativismo, tem vindo a desenvolver um sem-fim de acções de permanente valorização da cultura rural, como o CERVAS – Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens – que ainda há dias libertou algumas aves encontradas, em situações difíceis, por populares. A ALDEIA integra ainda o Programa Antídoto – Portugal, uma plataforma de luta contra o uso ilegal de venenos constituída por várias entidades nacionais. Nunca é demais salientar os danos causados pelo uso de venenos; motivado por desejos de vingança contra animais ou até vizinhos, esta é uma praga que todos os anos chacina incontáveis animais, por vezes de espécies ameaçadas de extinção. O trabalho da ALDEIA tem sido fundamental, na recolha de dados relativos ao furtivismo e ao emprego de veneno na área do Med-Wolf, no apoio ao SEPNA-GNR, na entrega de material essencial para a recolha de iscos ou de carcaças envenenadas e no registo de provas em casos suspeitos, assim como na realização de análises toxicológicas para confirmação do uso de veneno, sem esquecer o trabalho de sensibilização com as autoridades locais e o público em geral.

Lembre-se que um só caso de uso criminoso de veneno, na altura com a desculpa de controlar uma matilha de cães assilvestrados, causou a morte a 33 grifos, três abutres pretos e três milhafres reais, em Idanha-a-Nova, em 2003. Antes, em 1976, 21 pessoas já haviam morrido no concelho de Belmonte, após consumirem partes de uma rês envenenada.

Lembre-se: a qualquer caso de envenenamento que conheça, além de contactar as autoridades, deixe aqui a informação relevante: http://www.antidoto-portugal.org. Vale sempre a pena lutar pelo que é nosso!

O saber não tira férias

Com a modorra do calor, parece que os conflitos entre lobos e homens (ou vice-versa) tendem a acalmar. Talvez andem as gentes mais distraídas com praias, festas e férias – ou preocupadas com incêndios –, facto é que poucos ou nenhuns incidentes têm chegado às parangonas dos jornais.
Mas nem por isso a equipa do Projecto Med-Wolf interrompe o seu trabalho: cães continuam a ser entregues, formas de diminuir tensões entre a pecuária e a presença do lobo continuam a ser discutidas e aprimoradas. Mais: aproveitando as férias de muitos, o Grupo Lobo, em colaboração com a Large Carnivore Initiative for Europe, está neste momento a levar até perto das praias algarvias alguma informação sobre os maiores predadores europeus: o lobo, o lince, o urso e o glutão.
A exposição “Coexistir com os Grandes Carnívoros – O Desafio e a Oportunidade”, que já esteve patente no Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa, chega assim ao Centro Ciência Viva de Lagos, acompanhada de abundante informação em Inglês, para que o turista também seja incluído neste esforço de divulgação das verdadeiras histórias, aventuras e oportunidades destes animais fascinantes na Europa de hoje. E até 30 de Setembro ainda poderá visitar a mesma exposição no Centro Ciência Viva da Floresta, em Proença-a-Nova, aqui perto de nós.
Em Lisboa, a mostra “Génesis,” integrando algumas das obras mais recentes do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, apresentou aos seus mais de 67.000 visitantes informação sobre o tema da conservação do lobo em Portugal – sem esquecer que parte da receita de bilheteira da mesma reverteu para o Centro de Recuperação do Lobo Ibérico.
Em Julho, o premiado eco-festival Salva a Terra, em Salvaterra do Extremo, acolheu também uma exposição resumida sobre estes temas da convivência com as espécies selvagens mais emblemáticas da Europa: os seus grandes carnívoros.
Mas o Verão não é só trabalho em exposições, palestras e ciência. Os técnicos do Projecto Med-Wolf têm também dado todo o apoio a iniciativas mais festivas mas que não deixam de celebrar a possibilidade da coexistência com o lobo, em zonas onde os conflitos se têm agudizado nos últimos tempos. No dia 8 deste mês foi levada a cabo a primeira Recriação dos Percursos Antigos dos Rebanhos no Monte Baldio de Meridãos, na serra de Montemuro – terra de rebanhos, lobos e cães de gado. Foi uma jornada de quase meio dia, com uma bela caminhada a acompanhar um rebanho, “mastigo” de bolos de farinha de milho tradicionais na sertã, um grande grelhado misto com carnes de vitela arouquesa e de porco regional e, acima de tudo, muito convívio e camaradagem entre gentes ligadas, nem que apenas pela proximidade ou por laços familiares, à pecuária. Uma acção que veio valorizar as tradições associadas à pastorícia, contribuindo para valorizar o papel dos rebanhos no ecossistema serrano e a profissão do pastor. Tudo isto com a colaboração da Associação de Conservação do Habitat do Lobo Ibérico e do Grupo Lobo.
Tendo em vista que os prticipantes foram quase 200, imagina-se que esta ideia não fique por aqui; quem sabe se não está a começar assim uma nova tradição serrana... nascida à sombra da vontade de melhor coexistir com o lobo.

Lobos romanos

Há pouco, mencionámos aqui a situação italiana, mormente a fértil Toscânia, onde a intensificação da presença do lobo tem recordado aos criadores de gado a importância de ter bons cães a guardar os seus rebanhos. De forma curiosa, apenas cães brancos, sobretudo da raça Maremmano Abruzzese, são escolhidos para tal missão; crê-se ali que essa cor “engana” os lobos, que não conseguiriam distinguir as ovelhas dos guardas. A tradição, mesmo contra os hábitos de tantos outros países, tem muita força.

Esta relativa impreparação para lidar com as ameaças colocadas pelas alcateias não deixa de ser bizarra, num país que tem na sua origem um mito relacionado com... lobos. Relembremos que Rómulo e Remo, filhos de Rhea Silvia e do deus Marte, foram condenados à morte pelo usurpador Amulius, seu tio-avô. Mas o servo encarregue de os matar acabou por os deixar num cesto, entregue aos caprichos do rio Tibre – a semelhança com as narrativas de Moisés e de Perseu é interessante. Depois, uma loba tratou de amamentar os dois gémeos, até que o pastor Faustulus os descobriu e acolheu. Roma acabaria por ser fundada por Rómulo, vencedor de uma luta fratricida. Muito depois, o primeiro asteróide conhecido a ter dois satélites foi baptizado como “87 Sylvia”, tendo as suas duas luas recebido, claro está, os nomes de Rómulo e Remo.

Ainda hoje, o lobo é o animal nacional italiano, e a Loba do Capitólio, a conhecida estátua que representa os irmãos a mamar das tetas de Luperca, é uma das imagens emblemáticas da cultura romana (durante muito tempo, deram-na como etrusca, mas estudos recentes colocam a sua origem na Idade Média, tendo sido as crianças acrescentadas depois, talvez pelo escultor Pollaiuolo).

A ambivalência que a cultura europeia demonstra face ao lobo acaba por ilustrar a importância deste predador na nossa História; afinal, se muito engenho humano foi aplicado para combater o animal feroz, também soubemos esforçar-nos para o domesticar, conquistando neste processo o melhor dos nossos amigos: o cão. E, só por exemplo, quantas porções deste nosso Portugal ainda conservam a marca do lobo, cravada na toponímica de tantos locais, nos brasões de tantas famílias?

Nada mais natural para os antigos do que recear a criatura nocturna e inteligente que lhes atacava os animais e cujo uivo lhes eriçava os pêlos à noite. Até Jesus Cristo afirmou que enviava os seus seguidores como “cordeiros entre os lobos” – só depois de a paz reinar neste mundo é que “o lobo e o cordeiro juntos se apascentarão”, como nos garantiu o profeta Isaías.

Mesmo fora das narrativas europeias o lobo sempre teve este lugar cimeiro na imaginação humana; na distante Mongólia um herói mitológico, Jangar, teve a sorte de ser amamentado por uma loba. E personagens de ficção, como o Mowgli do conhecido “Livro da Selva”, de Rudyard Kipling, convivem com relatos supostamente verídicos como o de Amala e Kamala, duas crianças que teriam sido criadas por lobos na Índia do início do século XX.

De regresso a Itália, para cumprir o círculo costumeiro nestas coisas míticas, recordemos uma mensagem de coexistência e tolerância ainda hoje tão actual, o relato do lobo de Gúbio, que deixou de aterrorizar montes e vales depois de confrontado com a sabedoria e a caridade de S. Francisco. Palavras do milagreiro: “eu quero, irmão lobo, fazer a paz entre ti e eles, de modo que tu não mais os ofenderás e eles te perdoarão todas as ofensas, e nem homens nem cães te perseguirão mais”. Um objectivo louvável; mas que, hoje em dia, só com muito trabalho e empenho será alcançado.

Os nossos melhores amigos? Nem sempre

Sabemos que todos os cães descendem do lobo; do mínimo Chihuahua ao gigante Dogue Alemão. Também já por aqui passámos em revista as tropas caninas que hoje montam guarda aos rebanhos mais protegidos: as excelentes raças de cães de gado portuguesas. Por alguma razão a sabedoria popular atribui aos nossos companheiros de quatro patas o lugar estimável de nossos melhores amigos.

Mas o Homem nem sempre sabe retribuir tanta dedicação e amizade. Quando chega o Verão, regressa o flagelo dos cães abandonados. O animal que não tem espaço na viagem de férias, o canil que é caro, o amigo canino que afinal não se pode sustentar, etc. As (más) desculpas abundam. Depois, surgirá mais uma revoada de cães de caça deixados à sua sorte por “donos” que deles já não precisam ou que não ficaram contentes com o seu desempenho.

Cabe então a entidades públicas gastar parte dos nossos impostos a recolher, manter e encontrar destino para estes pobres animais, que culpa nenhuma têm. É um problema complexo: por um lado, os cães assilvestrados, regressados ao estado selvagem, sem necessidade de comida fornecida por humanos. Por outro, os cães vadios, que até podem ter (ou ter tido) dono mas que desfrutam da liberdade suficiente para cometerem as suas tropelias sem restrições. Ninguém se responsabiliza por eles, ninguém pagará prejuízos ou ferimentos que provoquem a pessoas ou gado.

As matilhas que estes animais formam são também um problema para o lobo. Competem com ele por espaço, defendendo territórios próprios, por alimento e até por parceiros de reprodução – criando o risco do aparecimento de mais híbridos, descaracterizando o património genético do lobo ibérico.

Além disso, os ataques de cães ao gado são muitas vezes atribuídos a lobos, aumentando os conflitos, pois há muita dificuldade em acreditar que cães possam atacar o gado. Mas repare-se que ainda há poucos meses uma montaria ao javali na Serra d'Arga redundou na morte de uma série de ovelhas, na freguesia de Riba de Âncora. E não foi uma alcateia a responsável pela malfeitoria, mas sim a matilha dos caçadores. Noutros casos, quando faltam as testemunhas, por vezes é difícil destrinçar ataques de lobos e de cães, pelo menos sem recorrer à genética. Em 2014, no âmbito do Projecto Med-Wolf, análises à saliva recolhida nas feridas de morte de animais atacados revelaram apenas a presença de cães em 11% dos prejuízos examinados.

Certo e sabido é que em paragens onde não é visto um só lobo há dezenas de anos os ataques não cessam completamente. Os poucos estudos feitos sobre esta questão já contam com alguns anos. Mas falam-nos de um problema que se estende a quase todo o país e que não tem recebido a atenção devida por quem de direito.

Solução? Talvez não criar mais leis, mas tão somente aplicar com mais denodo a legislação já existente; investigar situações claras de abandono, esterilizar os cães vadios, clarificar os aspectos legais relacionados com a propriedade dos cães e identificar as responsabilidades dos donos.

Informar e sensibilizar é outra prioridade. O abandono deve ser prevenido, com campanhas apontadas ao público em geral e especialmente aos caçadores; explicando os riscos e consequências do abandono dos cães, como a transmissão de doenças, ataques a pessoas, prejuízos na caça e no gado, o impacto sobre espécies ameaçadas.

Sabe-se, por estudos feitos sobre dejectos, que o lobo se alimenta regularmente de cães, chegando estes, em certas zonas da Península Ibérica, a representar 20% da sua dieta. Mas tal controlo não basta para anular os perigos colocados por matilhas sem rei nem roque.

Uma volta a Itália

Já aqui foi salientada várias vezes a natureza internacional do Projecto Med-Wolf, desde o seu início a decorrer em simultâneo nos distritos da Guarda e de Castelo Branco e na província de Grosseto, em Itália, por entre as férteis encostas da Toscânia.

Uma recente viagem de trabalho permitiu-nos encontrar bastantes pontos de contacto entre estas duas realidade. E, claro está, algumas diferenças importantes. Logo à chegada, o viajante depara com um jornal que grita na sua primeira página: “Disparem sobre o lobo!”, em referência aos apelos feitos por uma associação de criadores pecuários toscanos, face ao recrudescimento dos ataques sobre os muitos rebanhos de ovelhas da zona, notória pela boa qualidade do seu queijo. Ou seja, também por Itália os ânimos andam exaltados e os mais impacientes recebem todas as atenções dos media...

Umas quantas visitas a criadores locais deram-nos vislumbres de mais algumas semelhanças com o caso português: também em Itália se fala muito das “bizarrias” que estes lobos “de agora” parecem ostentar. Que serão menos receosos da presença humana; que têm um aspecto diferente, podendo até muitos ser híbridos; que talvez ande pelos montes gente mal intencionada e de propósitos incompreensíveis a “largar lobos”.

Ora eis um ponto importante: desde tempos imemoriais, o Homem quis personalizar fenómenos da Natureza – criando deuses responsáveis por tudo, da fecundidade aos relâmpagos. E só à superfície evoluímos muito; ainda hoje desejamos à viva força descortinar culpas em eventos facilmente explicáveis, como o ressurgimento da actividade de animais que deparam com uma presença humana cada vez menos intensa em muitos locais. E é mais fácil suscitar a ira contra desconhecidos capazes de espalhar lobos pelos nossos montes (mas com que objectivo?) do que contra fenómenos naturais, sejam eles raios ou predadores.

É interessante relembrar que os criadores franceses culpam “alguém” em Itália pelos lobos que recomeçaram a ser vistos em muitas paragens da França rural. Mesmo quando já há mais de 10 anos se conhecem casos como o de  “Ligabue”, um lobo que foi atropelado perto de Parma e, depois de tratado, seguido por GPS – em dez meses, caminhou pelos Apeninos, atravessou estradas e aldeias, percorrendo mais de mil quilómetros até chegar ao parque natural francês de Mercantour. Tudo isto sem ajudas humanas. Mas adiante; a natureza do bicho-homem é mesmo assim: inventar inimigos, dar a palavra e ouvidos aos que mais gritam – também em Itália alguns criadores mais interessados em subsídios do que na qualidade dos seus animais são dos que mais protestam contra o lobo, talvez por julgarem que será mais cómodo liquidar toda uma espécie do que fazer pela segurança dos seus rebanhos.

Na Toscânia, o uso de cães de gado não está tão espalhado e aperfeiçoado como por cá. Assim, uma especialista portuguesa foi bem-vinda, distribuindo alguma formação e conselhos para uma mais eficaz selecção dos cães a usar e explicando as melhores formas de avaliar o seu desempenho junto ao gado.

Além de estar a colocar alguns cães de raça Maremmano-Abrucense, o Projecto tem facilitado a instalação de bastantes vedações, convencionais e eléctricas, com resultados francamente positivos.

Desta forma, duas regiões que nem são vizinhas mas que têm muito em comum irão por certo dar bom uso a este intercâmbio de experiências e saberes locais.

Lobos & Turismo

Ainda há poucas semanas anunciámos aqui a primeira edição do passeio “O Lobo em Terras do Côa”, organizado pelo Projecto Med-Wolf e pela empresa Montes de Encanto. Um percurso por um dos trechos mais bonitos do Côa, junto ao Sabugal; passando pelo conhecido Curral de Lobos, três explorações pecuárias e algumas ocasiões para descobrir a gastronomia e a hospitalidade desta nossa terra.

Lançámos a ideia apesar da sondagem que realizámos na área do Projecto, ainda em 2013: era então notório que poucos por aqui acreditavam na hipótese de ganhar dinheiro através do turismo centrado na presença do lobo ibérico. Isto ignorando exemplos bem próximos: segundo o jornal espanhol “La Vanguardia”, em 2012 o turismo lupino valeu mais de 600.000 euros, só em dormidas e refeições de visitantes trazidos pelo ecoturismo relacionado com o lobo. Pena seria que também não aproveitássemos.

Resultado? Foram ultrapassadas todas as expectativas: quando a lotação desta aventura apontava para os 8 visitantes, houve tanto interesse que acabámos por receber mais de uma dúzia de participantes. Entre gente da terra desejosa de redescobrir as suas raízes a visitantes de Lisboa. O tempo ajudou e aconteceu um fim-de-semana magnífico, entre caminhadas, convívio e descoberta desta região.

O contacto com criadores de gado foi sem dúvida o ponto alto, pelo menos em termos humanos e de conhecimento da realidade que se vive nas explorações pecuárias próximas da presença do lobo. A integração de um pequeno cão Serra da Estrela num rebanho de ovelhas no Sabugal, já protegido por uma vedação fornecida pelo Projecto, foi motivo de emoção e alegria, com todos a quererem uma fotografia com o simpático cachorro que, mesmo algo assarapantado pela sua primeira viagem de carro, não se fez rogado às solicitações de festas de tanta visita.

Numa outra exploração, esta de cabras, foi altura de todos se sentarem em torno de uma farta mesa, com os queijos da região em lugar de honra, bem acompanhados por um excelente chá de poejo e pelo bom tinto de Pinhel.

Aqui, o proprietário da exploração partilhou com os presentes algumas das suas ideias, assertivas mas ainda pouco partilhadas pelos seus vizinhos: sobre a importância da presença do lobo – predador capaz de eliminar javalis e corços doentes antes que contaminem o gado, inimigo jurado das raposas, sempre de olho nos galinheiros, e dos cães vadios que por vezes atacam animais domésticos mais vulneráveis. Falou-se também dos malefícios de atitudes descuidadas face ao Ambiente, de caçadores que descuram as suas obrigações, de “criadores” que se limitam a deixar o gado vaguear no monte enquanto se dedicam a outros assuntos, sem esquecer a praga da caça furtiva, que este criador descobre na sua propriedade, encontrando inúmeros laços, preparados para javalis e também para os corços, mas que já lhe apanharam umas quantas cabras e cães.

Para finalizar o dia com nota mais ligeira e despreocupada, um jantar num dos bons restaurantes que aqui temos. Enchidos, boa carne e gostoso bacalhau, tudo bem regado e acompanhado por muita conversa e muitas perguntas aos biólogos presentes. Depois, todos recolheram a unidades hoteleiras vizinhas.

Já no Domingo, os mais resistentes à caminhada da véspera ainda arranjaram forças para visitar o Curral de Lobos, o fojo de cabrita que é o único ainda em condições originais em toda a região Centro; aqui, a nota dominante foi o espanto por este verdadeiro monumento à memória do nosso convívio com o lobo não estar em melhores condições, servindo como verdadeira atracção turística.

Em resumo, uma experiência coroada de sucesso e uma “rota” que por certo se irá repetir.

Uma Europa ainda selvagem que urge proteger

Poucas espécies suscitam emoções tão fortes como os lobos e os ursos. Para alguns eles são símbolos do Belo e da Natureza. Para outros, evocam medos e símbolos de um passado sombrio. Ao longo dos séculos, foram perseguidos pelo Homem; mas nos últimos 30 anos a sociedade europeia tem procurado conservá-los.

Ainda existem preconceitos contra os grandes carnívoros; uns baseados em conflitos e experiências reais, outros oriundos da mitologia, do desconhecimento, ou apenas do medo. Eles são hoje emblemas de conflitos mais amplos, entre o rural e o urbano, entre a tradição e a mudança. Também há quem os retrate como criaturas bondosas, gentis e inofensivas que nunca prejudicariam o ser humano – outro erro. A verdade é que são apenas carnívoros, vivendo de acordo com a sua natureza, moldados pela evolução. Hoje, longe já dos dias de superstição e obscurantismo, temos obrigação de fazer deles símbolos de uma nova relação entre o Homem e a Natureza, baseada no respeito e na convivência.

O Projecto Med-Wolf tem por objectivo melhorar a co-habitação entre homens e lobose integra-se numa estratégia mais vasta, a nível europeu. Neste plano, colabora com o grupo de especialistas  – oriundos de universidades, ONGs de Ambiente, organismos oficiais, centros de pesquisa e muitas outras instituições – da Large Carnivore Initiative for Europe. Trata-se de um organismo europeu que tem por missão declarada “Manter e restaurar, em convivência com as pessoas, populações viáveis de grandes carnívoros, como parte integrante dos ecossistemas e paisagens de toda a Europa” (http://www.lcie.org).

Como fruto deste trabalho, Lisboa viu esta semana estrear a primeira de duas exposições dedicadas aos derradeiros grandes carnívoros do nosso continente. Os milhares de visitantes do Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa (MUHNAC) vão conhecer melhor alguns dos animais mais emblemáticos e ameaçados da Europa. A Exposição “Coexistir com os Grandes Carnívoros – O Desafio e a Oportunidade” é a primeira iniciativa do género a divulgar em Portugal as problemáticas da convivência com os grandes carnívoros europeus: três deles de todos mais ou menos conhecidos – o lobo, o urso e o lince – o outro um perfeito desconhecido para a maioria dos portugueses: o glutão.

O visitante ficará a conhecer melhor estas espécies e ainda aspetos fulcrais para a sua conservação; da vertente cultural ao ecoturismo, passando pela caça e pelos habitats daquelas espécies ameaçadas. O objectivo da exposição é promover o interesse do público sobre este tema e suscitar uma reflexão, fundamentada na extensa informação ali apresentada, sobre o caminho a seguir numa Europa cada vez mais humanizada, mas que terá de (re)aprender a conviver com estas espécies carismáticas.

Embora de origem multinacional, a exposição recebeu conteúdos que descrevem a realidade portuguesa, incidindo sobre o lobo e o lince ibéricos e ainda sobre o contributo de raças caninas nacionais para a busca de um novo modo de coexistência entre a pecuária e os predadores.

Em breve, ela vai surgir em mais locais, divulgando face a um público mais amplo os vários prismas pelos quais hoje analisamos a nossa relação com estes animais ameaçados de extinção. Constitui também uma antevisão da grande mostra “Europa Selvagem”, que ainda em 2015 surgirá no MUHNAC com peças nunca antes exibidas, num dispositivo cénico e museológico inédito que por certo irá dar que falar. 

Dar a conhecer esta terra de lobos

O lobo, como já aqui afirmámos umas quantas vezes, é um animal que suscita paixões contraditórias: quem vê o seu gado exposto aos ataques do predador não lhe acha graça alguma, o que é compreensível. Mas muitas pessoas, dentro e fora do nosso país, vêem neste predador um símbolo de tudo quanto é autêntico na Natureza e na história do ser humano. Assim sendo, o lobo constitui em várias paragens um verdadeiro chamariz de turistas que, mesmo sabendo que dificilmente verão um exemplar, são atraídos pela aura mítica de um animal nocturno, esquivo e tão incompreendido.

E porque não aproveitar esta atracção, notória sobretudo em países como os EUA e os estados da Europa do norte, para dinamizar o turismo de zonas onde hoje em dia a presença do lobo ibérico é mais notória? Chamando turistas com forte capacidade económica, toda a região fica a ganhar; não apenas a hotelaria mas vários sectores que podem, com acções bem pensadas, ajudar a receber esses visitantes de forma única e inesquecível.

Aqui, o Projecto Med-Wolf também pode ter um papel a desempenhar, incentivando e colaborando com programas turísticos que tirem partido da presença do lobo nestas terras. Esta é, afinal, mais uma forma de minorar os conflitos e reduzir a animosidade contra o nosso maior predador.

Já em Junho, terá lugar a primeira destas iniciativas. Dias 5, 6 e 7, de sexta a domingo, inauguraremos a rota denominada “O Lobo em Terras do Côa”. Aproveitando a nova “Grande Rota do Vale do Côa” como guia desta viagem, propomos a descoberta do que de melhor aqui existe, longe dos caminhos mais trilhados pelos turistas e procurando dar a conhecer de perto as gentes locais e a sua forma de sentir a terra.

A “Grande Rota” é um trilho de 200 km que acompanha o percurso do rio Côa, desde a nascente (em Fóios, Sabugal) à foz (em Vila Nova de Foz Côa). Iremos percorrer a pé um dos troços mais espectaculares deste rio, junto ao Sabugal; visitando o Curral de Lobos, uma antiga armadilha em pedra para capturar lobos. Depois de recuperar as forças com iguarias locais num piquenique ao ar livre, visitaremos pastores e criadores de gado que nos falarão sobre a presença do lobo neste território, sobre a pastorícia e a sua visão do mundo rural. Numa autêntica partilha de histórias e experiências com quem hoje vive “na boca do lobo”, propomos ao visitante a descoberta de uma história milenar de conflitos, mitos e coragem – e, claro, a aquisição de produtos autênticos desta terra, dos queijos aos excelentes enchidos.

Programa resumido: Dia 5 Junho – encontro no Sabugal, sexta-feira, às 21h30 horas. Apresentação sobre o lobo ibérico na região da Beira Interior.

Dia 6 Junho, sábado – passeio pedestre de 8 km pelo rio Côa, junto ao Sabugal; almoço-piquenique junto a uma praia fluvial; visita a criadores de gado, pastores e produtores de queijo em pleno território de lobo – inclui prova de queijos; jantar.

Dia 7 Junho, domingo – visita ao Fojo do Lobo; caminho até ao Curral de Lobos, o único fojo do lobo original em toda a região Centro de Portugal; fim do programa. Almoço livre.

Sugestão de visita à tarde: Reserva da Faia Brava (Associação Transumância e Natureza).

Este programa é organizado pela Montes de Encanto, empresa especializada em ecoturismo, em colaboração com o Projecto Med-Wolf. Todos os interessados podem já fazer reservas pelos telefones 217500073 ou 933237709.

Serão 3 dias únicos, a aproveitar mesmo por quem julga já tudo saber sobre estas paragens. Porque conhecer melhor também pode ser ajudar a preservar.

Um plano que faz falta

Quando se multiplicam as notícias, os rumores, as histórias mais ou menos infundadas sobre o lobo, os danos que causa, as medidas que podem ou não vir a ser tomadas, nada parece claro. Sobretudo parece faltar um rumo claro que coordene os diferentes actores que trabalham para salvar o nosso carnívoro mais ameaçado; e as diferentes entidades que representam quem com ele partilha o território.

Por isso, é uma boa notícia que o Plano de Acção para a Conservação do Lobo Ibérico tenha por fim dado os primeiros passos no passado dia 7 de Abril, numa reunião em Vila Real. Isto aconteceu numa reunião que contou com a presença de 33 entidades, incluindo órgãos da administração central e regional, universidades, investigadores, associações de agricultores e criadores de gado, proprietários rurais e caçadores, entre outras organizações relevantes para a convivência com o lobo ibérico. Da Confederação dos Agricultores de Portugal à Federação Portuguesa de Caça, passando pelo Grupo Lobo, empresas de ecoturismo e várias ONGs de Ambiente, os presentes representaram quase todos os interesses e pontos de vista sobre a conservação do lobo em Portugal: da pecuária à investigação, da caça ao turismo.

Este Plano de Acção vai ser uma ferramenta crucial para uma eficaz conservação deste predador ameaçado de extinção, integrando e articulando os esforços de todos os envolvidos nessa tarefa. Dando também voz a quem está na primeira linha de proximidade com o lobo.

O lobo ibérico é o único animal com legislação nacional especificamente elaborada para a sua defesa. Mesmo assim, a avaliação do estado de conservação do lobo, para o período 2007-2012, continua a ser “desfavorável”. As recentes tensões entre o ressurgir da actividade do predador e as comunidades que dependem da pecuária vieram dar mais premência à criação de um documento estratégico que integre todos os esforços e medidas tomadas para a defesa do lobo e para minimizar esses conflitos.

O ICNF tomou, como lhe compete, a iniciativa de elaborar um documento que sirva de guia para todas essas intervenções: o muito aguardado Plano de Acção para a Conservação do Lobo Ibérico. Todas as entidades presentes em Portugal que possam ter influência directa na conservação do Canis lupus signatus foram convidadas a participar e a contribuir para o arranque dos trabalhos que em breve darão origem a esse Plano, para orquestrar e sistematizar todas as medidas que venham a ser tomadas, dotando-as assim de mais coerência e eficácia.

A agenda incluiu a apresentação de uma súmula do estado presente do lobo ibérico em Portugal e a definição dos objectivos, eixos temáticos e metodologia do Plano de Acção. Houve ainda lugar para reuniões paralelas entre os representantes dos diversos grupos de interesses, dos criadores de gado aos gestores cinegéticos e florestais, passando pelos concessionários de auto-estradas e outras infra-estruturas com impacto no habitat do lobo ibérico. Daqui resultou a escolha de representantes sectoriais para acompanhar os próximos passos da elaboração do Plano.

É assim, sentados em redor de uma mesa e de um propósito comum, que nos poderemos entender quanto à coabitação com o lobo ibérico. Preconizando medidas adequadas, ouvindo as populações estudando a fundo a realidade, sugerindo soluções e afastando alarmismos escusados. Bem podem os mais exaltados incentivar o medo e acicatar os mal informados; quem realmente representa os interessados e conhece a situação do lobo já procura caminhos de paz e coexistência; salvaguardando as pessoas sem empobrecer o nosso ambiente.

Guerra e Paz

É uma triste e envergonhada verdade, que é murmurada pelas esquinas e só de quando em vez assoma à janela das notícias: matam-se lobos em Portugal. Motivações, são as do costume: quem vê o seu ganha-pão ameaçado e não encontra nas autoridades resposta rápida, decide fazer aquilo que lhe parece ser justiça pelas próprias mãos. Depois, é a cobardia do veneno e dos laços, a brutalidade dos tiros.

Mais triste ainda é que nada disto acabará com os prejuízos; as alcateias desagregam-se e novos pares reprodutores começam a caçar por sua conta, tendendo até a aumentar os ataques. E os cães assilvestrados, que então passam a ser menos apoquentados pelos lobos, desatam a fazer das suas; é ver que em locais sem um só lobo, como o Alentejo, há na mesma ataques ao gado... Isto sem mencionar o javali, que fica sem um poderoso inimigo e começa a ganhar à-vontade para se aproximar das culturas e dos porcos domésticos.

Esta “retaliação” não é exclusiva das gentes portuguesas. Em 2014, agricultores da Tanzânia criaram um corredor de fogo para assustar uma manada de elefantes e encaminhá-la para um precipício; seis deles morreram ali. Os autores de um estudo publicado na revista científica “Land Use Policy” entrevistaram muitos dos envolvidos nesse massacre e chegaram a uma conclusão surpreendente: tais ataques são, também, uma reacção aos prejuízos causados pelos animais. Mas surgem antes de tudo como uma revolta contra as autoridades, que pela sua inacção são vistas como dando mais valor à vida animal do que aos problemas humanos. Um estudo paralelo obteve resultados similares, quanto a um recente surto de caça aos tigres no Bangladesh.

Em Portugal, as coisas não têm de ser assim. Exercer vinganças inúteis sobre animais não faz sentido num país onde ainda existe diálogo e gente empenhada em dar voz às comunidades rurais. Desde o início, colaborar com os interessados, dando-lhes voto sobre uma parte mais significativa dos processos de conservação, tem sido um dos objectivos do Projecto LIFE Med-Wolf. Auscultar as necessidades e as opiniões dos envolvidos, dar seguimento às suas queixas, respondendo-lhes com actos concretos sempre que possível.  Por vezes, não é fácil. Mas vale a pena.

A provar este optimismo, estão histórias como as que o jornalista Ricardo J. Rodrigues relata no seu livro “Malditos”, há pouco lançado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Exemplo: quando perto da aldeia de Meixedo, no distrito de Viana do Castelo, foi encontrado um lobo preso a um laço, com a pata em muito mau estado e já visivelmente esfomeado, poucos lhe dariam qualquer hipótese de sobrevivência. Quando os mais exaltados já rodeavam o bicho acossado, matutando como lhe dar fim célere, as três crianças da terra, entre os 15 e os 10 anos de idade, interpuseram-se e defenderam o animal: que ninguém lhe iria fazer mal, pois isso era um crime, afiançaram os miúdos. Tanta força colocaram na protecção do maltratado lobo, que alguém acabou por chamar a GNR.

Depois de muito esforço para o evitar, a pata ferida do Trevo (assim se ficou a chamar) foi amputada. Mas voltou a poder andar, ainda que com dificuldade. Logo foi libertado, com uma coleira GPS que permitiu seguir as suas aventuras. E foram muitas: depois de rejeitado por uma alcateia, o Trevo arriscou os arredores de Chaves, passou estradas e riachos, até dar consigo na Galiza, terra de muitas alcateias.

Uma história que talvez prove que um futuro mais tolerante e aberto à convivência está a nascer com os nossos filhos. Haja esperança.

Subsídios para cães

Por fim, a Portaria n.º 50/2015 veio concretizar uma importante medida de apoio aos produtores pecuários mais expostos aos ataques dos lobos. Esta legislação regula a distribuição dos fundos europeus estruturais e de investimento, mormente o Fundo Europeu Agrícola e de Desenvolvimento, dando azo ao programa de desenvolvimento rural para o continente, o PDR 2020.

Entre bastantes elementos que devem merecer atenção, há um que diz directamente respeito ao âmbito do Projecto Med-Wolf, dada a sua relevância para a redução dos conflitos entre o Homem e o lobo: a Secção III do Capítulo V, intitulada precisamente “Proteção do lobo-ibérico”.

Em resumo, quem candidate uma superfície de pelo menos 2,5 hectares em zonas de lobo, e possua 5 Cabeças Normais (CN) de bovinos, ovinos ou caprinos, pode candidatar-se a um subsídio de 350 € por ano, para a manutenção de cães de gado que protejam o seu rebanho ou manada. Com maiores efectivos, a verba poderá chegar aos 700 €.

Recordemos a tabela da equivalência em CN, que a maior parte dos nossos leitores recordará:

Bovinos com mais de 2 anos             1,0 CN

Bovinos de 6 meses a 2 anos             0,6 CN

Bovinos com menos de 6 meses         0,2 CN

Ovinos e Caprinos com mais de 1 ano           0,15 CN

Assim sendo, as 5 CN dar-lhe-ão direito a 350 €. Depois, para cada CN a mais, são mais 70 €, sujeitos à presença efectiva de um segundo cão de gado, até ao limite máximo de 700 € por beneficiário e por ano.

Para tal, terá de apresentar uma “declaração emitida por um médico veterinário, com indicação do número do chip do cão e sua identificação como ‘cão de guarda de rebanho’ ou declaração, emitida por entidade responsável de livro genealógico ou registo fundador indicando a raça do cão e que reúne os requisitos estabelecidos para ‘cão de guarda de rebanho’.”

Mas há que estar atento, já que é importante ter cães adequados à função de protecção dos animais domésticos, como sejam as raças portuguesas (o Cão Serra da Estrela, o Cão de Castro Laboreiro, o Rafeiro Alentejano ou o Cão de Gado Transmontano). Só neste caso será garantido o pagamento das compensações devidas pelo ICNF, em caso de ataque por lobos.

Mais: com o actual “apertar” da verificação das condições impostas por lei, é importante relembrar o que diz o Decreto-Lei n.º 139/90: “Só há lugar a pagamento de indemnizações quando os animais estiverem guardados por pastores e com um cão por 50 cabeças de gado ou quando mantidos em lugares que os confinem.” Sendo que o limite máximo exigível de cães de gado é de 5 por rebanho/manada.

De qualquer forma, estes 350 € são, há que reconhecê-lo, mais do que suficientes para manter um cão de gado de bom porte, saudável e robusto. Isto tendo em conta as vacinas, os cuidados veterinários de rotina, a alimentação e mesmo despesas como um seguro de responsabilidade civil – que pelo menos 3 seguradoras nacionais fazem, a preços bem razoáveis.

Esta é mesmo uma excelente oportunidade para cuidar da defesa dos seus animais, escolhendo bons cães, de preferência de raças portuguesas e registados no LOP (Livro de Origens Português). Dessa forma, começa a ciar um património para o futuro, que até lhe pode vir a dar um bom rendimento. 

Abriu a caça ao bom senso?

Os ânimos andam mesmo exaltados no que toca à presença e à conservação do lobo; e não apenas na zona de acção do Projecto Med-Wolf. Ainda há dias foi levada a cabo, na sede da junta de freguesia de Arga de Baixo, uma participada reunião com a população sobre esse tema.

Verificou-se a troca de pontos de vista costumeira, entre quem se queixa dos ataques e da morosidade no pagamento das devidas compensações e quem tenta pedir alguma compreensão para a importância da presença do lobo no controlo de pragas como os javalis e de várias doenças que podem afectar o gado. Reaparecendo os mitos que, por mais que sejam desmentidos, teimam em sobreviver, mesmo que com algumas variantes curiosas; por exemplo, nesta reunião houve quem atribuísse uma imaginária “largada” de lobos naquelas paragens ao “fascismo”, nos anos 40. Ora é certo que nem então nem hoje, aqui ou em parte alguma da Europa, houve reintroduções de lobo. Mas a fantasia parece mais forte do que os factos.

E seria apenas uma questão de bom senso apurar a verdade. Pois se o Estado quer minimizar as suas despesas, mesmo com as compensações, ia agora lembrar-se de soltar lobos para aumentar os ataques e os prejuízos? Mas a quem interessaria tal ideia peregrina?

A verdade surge como coisa de pouca monta para uns quantos, isso é certo. Veja-se: enquanto decorria a reunião, a Associação de Caçadores da Serra d'Arga, que nela não compareceu, realizava uma montaria ao javali. Enfim, prioridades. O pior é que os cães envolvidos na montaria trataram logo de fazer das suas, atacando e matando uma série de ovelhas, na freguesia de Riba de Âncora.

E como reagiu o responsável da tal associação? Com mais fantasias: afirmando que “sabe” perfeitamente onde soltam os lobos e apresentando como “prova” o facto de haver “câmaras de filmar na serra com o número de telemóvel deles” – sem explicar qual seria a relação entre armadilhas fotográficas, método comum de monitorizar as populações de animais selvagens, e os tais lobos “largados”, obra do fascismo ou, segundo este “dirigente”, de “pessoas das universidades de Aveiro e Porto”.

O disparate campeia. Pior ainda: talvez pensando que o facto de andar de espingarda às costas lhe dá alguma espécie de conhecimento do ecossistema local, o Sr. Desidério Afonso emitiu uma série de dislates, infelizmente divulgados pela imprensa: que os lobos não comem nem javalis nem corços (desmentindo inúmeros estudos que analisaram a dieta do lobo ibérico, em Portugal e em Espanha) que andam por aí lobos “de cativeiro”, já que aparentemente não fogem das pessoas, etc.

Prova da distância entre estas declarações e a verdade é o facto de o “dirigente” negar que cães assilvestrados também matem gado. Garantiu ele que tais cães procuram “o dono e a casa dele e não atacam”. Como se demonstrou, engano total. Enquanto ele dizia isto, mais de 20 cães da sua montaria mataram, mesmo perto dos seus donos, 5 ovelhas e feriram outras 3. Isto é a verdade, como veio documentada no “Jornal de Notícias” de dia 5. Sem boatos nem cortinas de fumo.

A realidade já anda difícil. Não é preciso piorar tudo com invenções absurdas.

A palavra a um dos fundadores da ANCRA

Tem-se ouvido muito alarido em torno do lobo. São os ataques, os pagamentos tardios e curtos, a exaltação de uns quantos que preferem as palavras aos actos na efectiva protecção do seu gado.

E não é fenómeno exclusivo da área do Projecto MedWolf. Ainda há dias surgiram notícias de Cinfães, distrito de Viseu, com comunicados irresponsáveis e alarmistas a referir inexistentes exigências do ICNF, a propagar o mito das “largadas” de lobos e insinuando que este predador é uma ameaça à segurança das pessoas.

Tristemente, ali até existem associações que intimidam os criadores que usam medidas de protecção eficazes, recomendando-lhes que “não façam ondas”. Acicatar as populações já esteve quase a ter resultados funestos – o que pode bem vir a acontecer nos próximos dias.

Urge recuperar a calma e recordar a lei: é legítimo exigir pagamentos de compensações atempados e justos – é ilegal incitar à violência ou ao abate de animais protegidos por lei.

É por isso uma boa ideia dar a palavra ao Sr. Mário Luís, criador e co-fundador da Associação Nacional dos Criadores da Raça Arouquesa, no epicentro destes episódios. Começando pelo regresso à verdade:  “A vacada de mais de cem vacas, referida na comunicação social e na Assembleia da República, não é de Cinfães e terá ido para o Alentejo por…transumância”.

Prossigamos: “A serra de Montemuro foi durante séculos utilizada para o pastoreio de rebanhos oriundos dos concelhos próximos da serra da Estrela. O que se verificou, com o abandono da transumância, foi a utilização, por uma parte do povo, dos terrenos baldios, sem qualquer melhoramento que servisse o interesse colectivo.

Aquelas áreas de baldio foram ocupadas não para um pastoreio normal em determinadas épocas do ano, como antes, mas sim por uma questão aritmética de encabeçamento animal, em função das áreas exigidas pelas candidaturas aos fundos comunitários (tantas vacas para tantos hectares; tantos hectares, tanto de subsídio…). Como a pecuária sem terra dá mais trabalho e não dará subsídios, há que usar os baldios! É um raciocínio deveras fácil para uns tantos pecuaristas que nunca se interrogaram sobre a real sustentabilidade dos seus gados naqueles baldios, quase todos acima dos 700-800 metros de altitude.

Àquela altitude, quem é que está a invadir o território de quem?

Ora imaginemos:

– Uma vaca arouquesa em “pasto” naquelas serranias e que vê chegar uma parição do fruto de um salto não visto nem anotado, logo, uma prenhez não controlada;

– O parto ocorreu em situações atmosféricas adversas: muito nevoeiro, muita chuva e muito frio;

– A cria nasce e não há ninguém que a vigie e a cuide;

– Aquela cria não reage, bem como a sua mãe por tão exausta e debilitada se encontrar e sem o conforto de um bom sítio;

– Espera-se o pior… e então o lobo aparece!

O lobo mata, mas também se aproveita das circunstâncias vulneráveis e das enfermidades das suas presas. As vacas e as crias foram-lhes oferecidas… foram colocadas à sua mercê!

Quantas vacas morreram naturalmente naquelas serranias? Quantas se traumatizaram naqueles barrancos? Quantas vacas estão cobertas e quando? Quantas crias nasceram? Os seus donos saberão? E os serviços oficiais? Os  donos conhecerão os seus animais? Pelo nome? Pela pelagem? Pela cornamenta? Pelo brinco auricular? Pelo bolbo ou “chip”?

Para finalizar:

Acredito que os lobos se reproduzem e criam com mais facilidade por via da fartura de alimentação que lhes é disponibilizada. E que os danos provocados pelos lobos deverão ser justa e oportunamente  reparados.

Mas, senhores criadores e detentores de bovinos da raça arouquesa: os nossos bovinos merecem o nosso respeito e todo o nosso cuidado para que se atinja aquilo porque se tem lutado tanto e que é, como todos devemos saber, o BEM-ESTAR ANIMAL. Essa meta só se conseguirá quando se abandonarem certas práticas e certas “paixões”  que nada têm a ver com a criação de animais domesticados.

Quer os lobos, quer os bovinos em apreço, são fruto da Natureza que admiramos e contemplamos. Exige-se respeito, compreensão e harmonia.”

Outros métodos de protecção

Nestes dias, temos ouvido vozes exaltadas a pedir que o lobo seja eliminado em Portugal, anulando décadas de progresso, de civilização, de convivência com a Natureza.

De pouco adianta repisar os temas de sempre: o lobo, embora possa não parecer, faz falta para diminuir o número de animais perniciosos como os cães vadios ou os javalis. Ainda há dias, a notícia mais vista e partilhada no site de um jornal de Arouca dizia respeito a uma fotografia de "um lobo ibérico"... que na realidade não passa de um cão Husky; aliás, têm sido visto naquela zona exemplares parecidos, abandonados. Mais uma prova de quanto nos deixámos separar da sabedoria dos nossos antepassados, que conheciam e distinguiam os animais como ninguém.

Teria sido fácil comparar a tal fotografia com imagens de lobos ibéricos e ver que nada têm em comum: nem a cor da pelagem, nem a “máscara” do focinho, etc. Mesmo assim, logo surgiram comentários a garantir que "este é um lobo dos criados em cativeiro e distribuídos pela serra". Isto sem que alguma vez na Europa tenha sido levado a cabo qualquer programa de reintrodução de lobos. E sendo ilegal em Portugal até o transporte destes predadores.

É difícil combater o preconceito e a precipitação, sobretudo quando até vemos um secretário de Estado, em Almeida, a abrir a porta, mesmo que de forma hipotética e longínqua, a uma inútil e contraproducente remissão do lobo ao estatuto de espécie cinegética. Recordemos, ainda por cima, que os dados científicos mais recentes indicam que a diminuição dos efectivos das alcateias leva, por norma, a um aumento dos prejuízos no gado, nos meses seguintes.

Nunca é demais afirmar que a protecção do gado é possível e rentável.  E pode ir para lá dos métodos testados e comprovados por séculos de uso, como os cães de gado e as vedações, ou “malhaços”.

Por exemplo, pode parecer estranho, mas é verdade: não se sabe ainda bem porquê, mas simples fitas suspensas, em banal e barato plástico colorido, servem para afastar lobos, pelo menos durante algum tempo. Muito empregue em certas zonas dos Estados Unidos da América, esta técnica de proteção do gado tem sido vista em algumas regiões de Espanha, mas ainda não é comum em Portugal – havendo, no entanto testemunhos antigos do seu uso nas regiões de Portalegre e Castelo Branco. As fitas (ou fladry) são eficazes na proteção do gado em pastagens vedadas, se forem bem montadas e mantidas em bom estado, embora tenham efeito apenas temporário (cerca de 2 meses), não podendo ser usadas a longo prazo.

Mesmo assim, podem ser uma boa opção para proteger o gado quando está mais vulnerável: em pastagens onde haja mais ataques ou durante a época de parição. Em situações de emergência, servirão de proteção do gado enquanto outras medidas são tomadas. Poderiam ainda ser usadas para proteger as carcaças logo depois de um ataque, pelo menos durante um ou dois dias, evitando que os vestígios (necessários para as vistorias) sejam consumidos antes que as autoridades cheguem.

Como são? Simples fitas de material resistente (em plástico ou nylon), de cor vermelha e cerca de 50 x 10 cm, penduradas num fio, a intervalos de 50 cm, a cerca de 50 cm de distância do solo. Os postes devem ser colocados a intervalos máximos de 30 m, tendo cuidado para que as fitas não rocem o solo. Existe também uma versão electrificada, a turbofladry.

Surpreendente? É apenas uma amostra de algumas novidades que o Projecto Med-Wolf está a compilar, juntamente com descrições detalhadas dos métodos mais conhecidos, para a edição de um “Manual” destinado ao produtor pecuário que quer mesmo proteger os seus efectivos. Em breve terá mais notícias desta iniciativa.

O lobo faz falta?

Em todas as conversas com habitantes das zonas cuja pecuária tem sofrido ataques de lobos, surge uma pergunta inevitável: mas afinal para que serve o lobo?

Já aqui falámos do ecossistema e da sua parecença com um relógio complexo e bem afinado. Quem mexe até na mais pequena engrenagem arrisca sempre estragar toda a maquinaria, deixando-a inútil; no caso da Natureza, com consequências por vezes dramáticas.

Se isto lhe parece demasiado teórico, considere o papel que o lobo desempenha como predador de topo. Ele é um animal que diminui de forma natural a ocorrência de doenças nas espécies de que se alimenta; pois é-lhe mais fácil caçar os exemplares débeis ou doentes.

O lobo, ao consumir javalis e veados, ainda reduz os prejuízos que estes causam nas pastagens e pomares; e evita que eles transmitam ao gado doenças como a tuberculose e a brucelose. Se pensa que o nosso maior predador não ataca javalis, desengane-se: em algumas regiões do país, este suíno selvagem representa mais de 40% da alimentação dos lobos.

Outro ponto muito importante: o lobo reduz, e muito, os números de outros carnívoros, incluindo os cães vadios – ou assilvestrados. Sabe-se, por estudos feitos sobre a sua alimentação, que o lobo na Península Ibérica come cães regularmente, chegando estes a representar 20% da sua dieta. Mais: durante todo o ano, o lobo alimenta-se de outros carnívoros, como a raposa, a geneta, o texugo ou a fuinha.

Em todos os locais onde as alcateias estáveis têm desaparecido, ocorre uma explosão demográfica de várias espécies de predadores médios. Isto será preocupante nas populações de cães vadios, uma vez que conduz ao crescimento sem travões do seu número, tendendo eles a ocupar o lugar do lobo. Em zonas onde ocorreu a extinção recente do lobo, os ataques sobre o gado continuaram a ocorrer, mas agora são da autoria de cães.

Por fim, existem hoje estudos que sustentam a hipótese, aparentemente estranha, de o abate de lobos levar a mais ataques ao gado, uma vez que as alcateias se dividem e a sua organização social é desmembrada. Como se um exército disciplinado se transformasse num bando de saqueadores, prontos a espalhar mais caos em seu redor.

Ainda no ano passado surgiu um estudo, da autoria de cientistas da universidade de Washington, que analisou as variações de ataques de lobos nos estados do Montana e do Wyoming entre 1987 e 2012. Como esperado, verificou-se que o número de cabeças de gado atacadas era proporcional ao número de pares de lobos reprodutores.

Mas, surpreendentemente, o número de ataques sobe sempre quando aumenta o número de lobos abatidos no ano anterior!

Nos anos em que foi levado a cabo o abate legal de lobos naqueles estados, as probabilidades de ataques subiram: mais 4% para ovelhas e 5—6% para vacas. A razão não é ainda totalmente clara, mas foi sugerido, como explicação possível, o aumento do número de pares reprodutores, consequência da destruição da estrutura das alcateias. E há dados igualmente curiosos recolhidos em países europeus, como a Espanha e a Eslovénia.

Tudo isto nos recomenda cautela e muita atenção sempre que pensamos em soluções drásticas. Num sistema tão complexo como o nosso meio ambiente, qualquer acção pode redundar em efeitos contrários aos desejados.

O Ano da Cabra?

Em breve, terá início o Ano Chinês da Cabra (também atribuído à Ovelha ou ao Bode). Segundo a tradição astrológica oriental, será um ano votado à paz e à sã convivência, mesmo entre opostos. Se a isto adicionarmos o elemento deste ano, a madeira, teremos um forte incentivo à resistência e ao trabalho em equipa.

Para quem acredite em tais coisas, trata-se de excelentes augúrios para um projecto como o Med-Wolf, dedicado ao fomento da coexistência entre lobos e todos aqueles que dependem da pecuária, sobretudo fazendo por proteger melhor as cabras, ovelhas, vacas e não só.

2014 representou um bom arranque numa série de iniciativas deste Projecto, em Itália e também na zona de actuação portuguesa, nos distritos de Castelo Branco e da Guarda. Em termos muito concretos, foram entregues 9 vedações e 12 cães de gado Serra da Estrela, devidamente seleccionados e integrados – note-se que as vedações foram erigidas com a colaboração dos beneficiados. Várias acções de sensibilização foram dirigidas às escolas, focando o perigo dos venenos e introduzindo conteúdos pedagógicos sobre o lobo e o seu ecossistema.

Em termos técnicos e científicos, o recenseamento da população lupina nestas terras avançou, recorrendo pela primeira vez aos serviços de um cão capaz de detectar indícios da presença de lobos. Outros cães, vindos de Espanha, vieram demonstrar as suas capacidades na detecção de venenos, em colaboração com o SEPNA, da GNR. O primeiro encontro do novo Grupo de Trabalho do Lobo Ibérico teve lugar em Castelo Branco, agrupando 18 dos mais destacados investigadores e gestores de populações animais de Portugal e Espanha. Foi criado o Grupo de Trabalho sobre Medidas de Prevenção, com 38 membros de 12 países europeus e dos EUA. A revista técnica Carnivore Damage Prevention reapareceu, agora dirigida por uma investigadora portuguesa.

Mas claro que nem só de Ciência se faz o avanço de um Projecto que quer, acima de tudo, servir as populações que já estão a sentir-se afectadas por conflitos com o lobo. Em Outubro, quatro associações de criadores de gado reuniram-se com elementos do Projecto, responsáveis do ICNF e gestores da região espanhola de Castilla La Mancha. Ao longo de horas de discussão frutuosa, novas metas e outros tipos de intervenção do Projecto Med-Wolf foram sugeridos e analisados, resultando em conclusões promissoras.

Com o contínuo agudizar de conflitos em Almeida, resultante do aumento do número de ataques e dos prejuízos atribuídos ao lobo, o Projecto intensificou a sua presença junto aos criadores de gado desta região. Não só insistindo nas visitas individuais a explorações, inquirindo da necessidade e da vontade de receber meios de protecção mais eficazes, mas também em reuniões abertas a toda a população. As duas que até agora foram levadas a cabo confirmaram que os ânimos podem andar exaltados mas há sempre quem não perca de vista o bom senso e adira às recomendações dos nossos técnicos, solicitando a entrega de vedações e de cães de gado.

De forma muito resumida, assim foi o nosso ano de 2014. Foi um ano difícil, como aliás fora previsto, mas em que lançámos as bases para um empenhamento mais profundo e benéfico com os actores locais envolvidos neste tema, dos criadores às autarquias.

Em 2015, antevêem-se mudanças significativas, quiçá a nível legal. Mas o compromisso do Projecto Med-Wolf continuará a ser o de apoiar quem quer realmente coexistir com o lobo de forma sustentável, minimizando os prejuízos sem incorrer em despesas incomportáveis. Vamos continuar a acolher pedidos de colaboração e a seleccionar as situações mais urgentes, para instalar mais vedações e integrar mais cães de gado. Vamos tentar aprofundar a disseminação de conhecimentos sobre técnicas de maneio alternativas, apontando bons exemplos oriundos de outras zonas de Portugal e também de Espanha. Sempre ouvindo atentamente as preocupações dos interessados e nunca trabalhando contra ninguém.

Só assim poderemos almejar o tal Ano da Cabra, virado para a entreajuda e para a pacificação dos conflitos. Com muito trabalho de equipa e vontade de melhorar a cada dia.

Fábulas com lobos

O Natal, além de ser aquela altura do ano em que mesmo a criatura mais retorcida pára e pondera se não haverá forma de tratar melhor o seu semelhante, também é quadra dedicada ao repouso. Ninguém leva a mal se abrandarmos um pouco as tarefas diárias, gastando alguns minutos a conversar, a trocar cumprimentos, ou apenas a absorver o espírito benfazejo e renovador que associamos ao nascimento de Cristo.

Por isso, nada melhor para encerrar este ano de crónicas do Projecto Med-Wolf do que esquecer por uma vez as agruras e os conflitos que têm manchado a relação entre homens e lobos por estas paragens – e descontrair com um pouco de fantasia.

Os índios Menominee, que ainda hoje resistem no estado americano do Wisconsin, mantêm viva uma história, passada de pais para filhos, de avôs para netos, desde bem antes de Colombo os ter visitado. A história da domesticação do cão – que desde sempre teve grande importância na vida de todas as tribos.

Ora em tempos idos, o cão não vivia com os homens, mas acompanhava os lobos. Mais: servia de criado, encarregando-se de todas as tarefas que os nobres lobos consideravam menores. Num dia de frio cortante, os lobos ordenaram a um dos seus cães que fosse ao acampamento índio mais próximo roubar fogo. Claro que os lobos sabiam que era perigoso passar perto dos guerreiros; quanto mais roubá-los. Ainda por cima, os lobos já tinham tentado a proeza e sempre haviam deixado cair as brasas ou os paus em chamas, depois de neles queimarem o pêlo.

O cão sabia bem que se tratava de uma missão quase impossível. Assim, decidiu no seu íntimo que apenas fingiria obedecer à ordem; faltava apenas descobrir como fugiria depois ao implacável castigo que os seus mestres lobos por certo lhe aplicariam. A ideia salvadora surgiu-lhe bem depressa: ficaria na aldeia humana e faria por ser adoptado, passando a servir os humanos.

Dito e feito: uma vez chegado perto dos tipis, entrou num, depois de ver que apenas lá estavam mulheres e crianças: os caçadores tinham saído. Para mostrar que não albergava más intenções, baixou a cabeça e arregalou muito os olhos, exibindo um medo exagerado. Depois, aproximou-se da lareira quentinha e deitou-se.

Para sua felicidade, o dono da tenda sonhara em várias noites que recebia um presente dos lobos. Ao caçar, rezara ao grande espírito do lobo a pedir ajuda e esta fora-lhe concedida: levar para casa abundante comida para os seus. Mal viu o cão, inofensivo e adormecido junto ao fogo, decidiu, recordando os seus sonhos, que o acolheria e que seriam irmãos para sempre. Desde então, não mais saiu para caçar sem levar o seu novo amigo. Assim se teria forjado o laço entre homens e cães.

Naturalmente, trata-se apenas de um mito encantador: o cão descende do lobo, talvez de exemplares adoptados como guardas.

Como se vê, as fábulas e fantasias em torno dos lobos animam noites à fogueira um pouco por todo o mundo. Pena é que nem todas sejam inofensivas: quando se multiplicam relatos de lobos “largados” não se sabe bem por quem, de ataques irreais em que apenas os pés das vítimas sobram, de javalis que comem lobos e de lobisomens com maus fígados... a superstição substitui a vontade de conhecer. E os preconceitos tomam o lugar da sabedoria antiga.

Que 2015 seja um ano mais esclarecido e com um pouco mais de paz, mesmo entre homens e lobos; estes são os nossos votos. 

Afinal, o que é ser "criador" ?

Em termos gerais, a criação é a causa fundadora de todo o universo, a primeira acção até da Bíblia, como nos lembra a oração inicial do Génesis: “No princípio Deus criou os céus e a terra.” Ora se a Deus bastou o Verbo para fazer surgir a Luz, os continentes, os mares e todos os animais que por aí libertou, a nós, meros humanos, a criação dá trabalho, causa dores de cabeça e requer muita resistência. Sobretudo quando se trata de criar gado. Sobretudo hoje, em zonas de lobo.

O pior é que há, como em todas os misteres, muita gente que não tem da actividade essa noção trabalhosa e complexa, o “produzir, erguer” que o Latim creare já transmitia. Quando ouvimos bastantes criadores das nossas terras a comentar o facto de se verem, de forma inesperada, confrontados com as “malfeitorias” do lobo, há algumas constantes em que é difícil não reparar.

Quase universais são lamentos como “mas agora tenho de ser guarda-nocturno para cuidar dos meus animais?” Ora esta atitude, aplicada a outras actividades, levaria a que ninguém instalasse portas resistentes ou alarmes nas suas empresas ou casas; se o perigo ronda, há um mínimo que todos temos de fazer para cuidar do que é nosso, sem exigir ao pai-Estado que o faça por nós. E “erguer”, criar a partir de quase nada animais saudáveis, tem de envolver alguma medida de empenho na sua protecção. Se surge uma maleita contagiosa, não devem ser tomadas, de imediato, as acções necessárias, mesmo que impliquem despesa? E a vacinação; não é um passo incontornável para prevenir males maiores?

Então, porque vemos tanta resistência ao uso de cães de gado, de vedações, do confinamento nocturno, ou até mesmo ao simples reforço dos cuidados em torno dos animais mais vulneráveis, como as crias? As trancas devem pôr-se à porta antes de chegar o ladrão, não quando a desgraça já atacou. De pouco adianta exigir alterações radicais à lei, ameaçar com atitudes nada ponderadas, quando os primeiros passos têm de ser dados pelos próprios criadores, na salvaguarda dos seus efectivos.

Isto para falar de verdadeiros praticantes da Pecuária, que sentem apreço pelos animais e desgosto autêntico quando os vêem cair “na boca do lobo”, não mera apreensão ao pensar na míngua dos subsídios. Aqui, e noutras paragens, sempre houve quem trabalhe dia a dia para fazer melhor, para produzir mais, combinando bem-estar animal e proveitos, dispensando lamúrias e ameaças.  

Por outro lado, quem se limita a ter vacas entregues a si mesmas, vê-as apenas como números e pouco tem a ver com a nobreza dos autênticos criadores de gado. Muitas vezes são esses os mais exaltados a pedir o extermínio de todos os lobos, pois qualquer incómodo a cuidar do seu gado parece-lhes excessivo e demasiado trabalhoso.
Se depois queremos exigir do Estado compensações justas e atempadas pelos danos causados pelos lobos – cuja protecção legal tem inteira legitimidade democrática, tendo sido determinada pelas autoridades eleitas por todos nós – temos de dar pelo menos os primeiros passos que nos competem: criar um mínimo de segurança em torno dos animais. Isto, aliás, é exigido pela própria legislação, para que haja lugar a compensações.

Como noutras partes de Portugal, hoje o lobo deve ser considerado parte da equação quando se calcula a rendibilidade de uma exploração. Importa criar condições para minimizar o seu impacto; dificultando a vida ao predador e mantendo os prejuízos no nível mais baixo possível. Uma vez isto feito, haverá mais moral para exigir ao Estado e aos seus agentes outra atitude na hora de avaliar os danos, de atribuir culpas e de pagar o que é de lei.

É que todas as moedas têm dois lados: quem paga impostos – mesmo nas cidades, longe de lobos e longe destas aflições – também gostará de saber que o dinheiro do Orçamento é empregue a pagar justas compensações a quem fez o que podia para manter os seus animais protegidos.







Quando o “serviço público” desinforma

Como sabemos, os ataques a explorações pecuárias atribuídos a lobos têm andado na ordem do dia. Zonas há, bem perto de nós, como no concelho de Almeida, onde aqueles têm efectivamente vindo a aumentar, embora ainda não seja claro se em função de mudanças recentes no maneio do gado e/ou do crescimento das populações lupinas.

Naturalmente, as pessoas sentem-se preocupadas e procuram amplificar o seu descontentamento, através da comunicação social. Até aqui, tudo bem; entram depois em cena jornalistas profissionais, que sabem relatar cada caso de forma fundamentada e imparcial. O pior é quando tal não acontece.

Ainda no passado dia 5 de Novembro, os noticiários da RTP1 passaram uma reportagem sobre supostos ataques de lobos a animais domésticos em Arouca. Esta peça acabou por ser um péssimo serviço às populações, à verdade e à pacificação dos conflitos entre o Homem e o lobo.

Começando pela total falta de rigor dos dados ali divulgados: antes de mais, os ataques não eram atribuíveis sem margem de dúvida a lobos; apenas as análises genéticas aos despojos poderão dar-nos essa garantia – ou, no mínimo, a opinião dos técnicos que terão ocorrido ao local; mas ninguém cuidou de os ouvir. Falou-se de 60 lobos que terão efectuado os ataques ao gado, efectivo que nunca foi recenseado naquela zona, representando um exagero tremendo.

Depois, a tónica no alarme popular apenas serve, pelo seu histerismo e desproporção, para espalhar um pânico injustificado. O clima de terror descrito na peça – incluindo elementos absurdos, como a ameaça às vidas dos habitantes da aldeia, sugerindo ataques a seres humanos de que não há registo em Portugal –, uma inventada inactividade dos serviços estatais, ignorando que o ICNF procede à análise de todos os ataques atribuíveis a lobos e paga compensações em caso de confirmação, e até pormenores pícaros, como a protecção que os criadores têm agora de dar às suas “varas”... tudo ali contribuiu para um claro desrespeito do dever de informar com rigor e isenção.

Se adicionarmos a propagação de boatos e fantasias através de noticiários televisivos aos ataques verídicos e à compreensível inquietação popular, temos a receita certa para o surgimento de um clima de pânico injustificado e mesmo de atitudes mais drásticas face ao lobo.

É notório, por exemplo, que continua a medrar um pouco por todo o lado o mito das “largadas” de lobo. Cada carrinha fechada, cada cão mais corpulento que se vê ao longe, tudo passa logo a novo episódio desta ficção, que agora até envolve, em muitos “testemunhos”, a colaboração secreta da GNR. E circulam fábulas terríveis, como a de uma senhora que teria sido de tal forma devorada pelos lobos que só sobrou um pé, ainda dentro do respectivo sapato.

Ora se a empresa pública que tem como objectivo prestar um serviço público de informação aos cidadãos trata de espalhar fantasias, exageros e ameaças irreais à seguranças das pessoas... começa a ser muito difícil repor o bom senso e a verdade.

Nestes casos, para a Imprensa ou para o comum cidadão, continua a ser melhor perguntar a quem sabe, antes de espalhar mais medo e alarme social.

Trabalho em equipa, pelo bem de todos

No passado dia 28, ocorreu em Castelo Branco, na Escola Superior Agrária, uma reunião de trabalho com características inéditas. O seu objectivo foi congregar os interessados na actual problemática do lobo, em torno de uma discussão aberta e sincera; trocando pontos de vista sobre as possibilidades de convivência com este animal na Península Ibérica.

Como se sabe, a  a presença mais frequente do nosso maior predador em algumas zonas da Guarda e de Castelo Branco tem vindo a reacender conflitos com os principais afectados: os criadores de gado. Assim, torna-se urgente delinear estratégias e lançar pontes para encontrar formas de diminuir esses conflitos, em busca de uma convivência que já se verifica noutras zonas do pais, onde tradições antigas de protecção do gado não chegaram a ser abandonadas. E levar mais longe ainda essa partilha de conhecimentos e soluções, abarcando também o nosso vizinho: a Espanha. A partilha de conhecimentos e experiências entre os diferentes actores envolvidos, a nível ibérico, vem proporcionar um importante intercâmbio que facilitará a busca de novas soluções para reduzir prejuízos e melhorar o maneio do gado. Diminuindo o antagonismo face ao lobo, o que poderá vir a resultar numa coexistência menos conflituosa. 

Para responder a esse imperativo, a primeira Reunião de Trabalho Ibérica sobre Mitigação de Conflitos com o Lobo juntou investigadores, associações de criadores e gestores relacionados com a agricultura e a pecuária, portugueses e espanhóis.

A identificação dos problemas relacionados com a presença do lobo e das principais preocupações dos sectores agrícola e pecuário são fundamentais para inventariar soluções concretas que minimizem os prejuízos económicos causados pelo lobo. Nada mais natural, portanto, do que ouvir as propostas das associações profissionais do sector, que contam entre os seus membros a maioria dos que têm sofrido prejuízos causados pelo lobo. Só sobre uma base de diálogo e respeito mútuo, é que soluções práticas e realizáveis poderão enfim ser encontradas.

Sem nunca esquecer que o Projecto MedWolf não pode de forma alguma tomar o lugar do Estado no acompanhamento desta actividade económica. E que, em última análise, caberá sempre aos maiores interessados, os criadores pecuários, ir adaptando os seus procedimentos para fazer face às actuais circunstâncias .  Mas há respostas; e sem o radicalismo de querer infringir ou “dar a volta” à lei. Assim haja vontade e capacidade para acolher a mudança.

Esta Reunião teve a colaboração da Acção-Piloto “A criação de gado bovino em regime extensivo na Península Ibérica: métodos de protecção contra ataques de lobo”, desenvolvida pelo CIBIO (Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto) e pelo ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas). 

Acudir a todos?

Há quinze dias, ficou aqui um breve registo do desenrolar das primeiras medidas práticas do Projecto Med-Wolf. Hoje, podemos anunciar que está a ser entregue uma nova ninhada de cachorros Serra da Estrela escolhida pelo Programa Cão de Gado, do Grupo Lobo.

Em conjunto com a construção de mais vedações, é um passo em frente decisivo para aumentar a segurança do gado e minorar os conflitos entre criadores pecuários e o lobo. Mas, como seria inevitável, surgem questões a acompanhar a implementação destas medidas tão necessárias: “mas então deram uma vedação ao meu vizinho e a mim não?”, “Eu ainda não sofri prejuízos mas o lobo anda a rondar; não me entregam um cão?”

Impõe-se aqui repetir um ponto importante: este Projecto, financiado pela Comissão Europeia, tem como objectivo “minimizar os conflitos entre o lobo e as populações locais, em regiões onde os hábitos culturais de coexistência se têm vindo a perder”. Devemos salientar que “minimizar” não significa “eliminar” – é impossível para uma mera iniciativa não-governamental, com meios obrigatoriamente reduzidos, acudir a todas as situações complicadas e resolver todas as aflições. O nosso objectivo tem de ser dar primeiro resposta aos casos prioritários: quem tem sofrido mais ataques, quem ainda está desprovido de protecção, quem mostra vontade de fazer um esforço no sentido de tornar o maneio do seu gado mais seguro.

Ainda no ano passado, como aqui também relatámos, foi erigida a primeira vedação, em redor de uma exploração de avestruzes, perto de Almeida; esta situação, dadas as características das aves, era quase desesperada e impôs uma acção de emergência. Agora, com mais calma, os casos mais urgentes estão a ser resolvidos primeiro, de acordo com uma lista de prioridades que nada tem de arbitrária. O Grupo Lobo, orienta a entrega de cães, e a Escola Superior Agrária de Castelo Branco lidera o processo das vedações – sendo que as equipas destas duas entidades estão sempre ao dispor dos interessados para explicar os seus processos de selecção.

Note-se que o facto de se dinamizar em larga escala o uso de cães de gado na zona do Projecto vai ter efeitos que ultrapassam em muito as explorações agora contempladas: o cruzamento de bons cães vai ser uma realidade, alargando as ninhadas futuras o âmbito de acção destes animais (e dos que serão em breve integrados) a muitas outras explorações. Mas a liderança do Projecto compreende que se gere alguma insatisfação em quem ainda não viu os seus meios de defesa reforçados; sobretudo no caso das vedações, em que a oferta do material representa uma poupança significativa para os beneficiados.

Mais uma vez, seria perfeito poder chegar a todos os casos em que ajuda é pedida. Só que o Projecto Med-Wolf não visa substituir-se ao Estado nem a organizações de criadores que também podem ter um papel decisivo nesta mudança de mentalidades e de formas de trabalhar. O nosso papel é de dar início a essa mudança, catalisando-a através de informação, conselhos e algumas intervenções concretas, que mostram que a coexistência com o lobo é mesmo possível. E isto, se o conseguirmos, já não será pouco.

Da teoria à prática

Concretamente, o que significa o objectivo número 1 do Projecto Med-Wolf, "minimizar os conflitos entre o lobo e as populações locais, em regiões onde os hábitos culturais de coexistência se têm vindo a perder"?

Como já aqui afirmámos algumas vezes, não significa defender a sobrevivência de um animal contra os interesses das populações locais. Nem significa apenas estudar, pensar na questão, propor soluções a médio prazo. O Projecto é mais ambicioso: quer sim compreender melhor a problemática do lobo na Ibéria de hoje, mas está também a tomar passos práticos para defender os criadores de gado, melhorando as suas defesas contra o predador.

Ora vamos por partes: já no próximo sábado, vai ter lugar a 1.ª Reunião do Grupo de Trabalho do Lobo Ibérico, reunindo os mais reputados especialistas portugueses e espanhóis na Escola Superior Agrária de Castelo Branco. Esta é uma reunião de trabalho inserida no Projecto Med-Wolf, e o seu alvo principal é desenhar as estratégias que vão, nos próximos anos, tentar salvar esta espécie ameaçada de extinção. Sendo que os panoramas são bastante diferentes entre Portugal e Espanha, este intercâmbio torna-se crucial na definição de políticas transnacionais que reconheçam que os animais não se regem por fronteiras; a cooperação é imprescindível.

Do lado das coisas mais práticas e com impacto directo na vida de quem hoje se queixa de viver "na boca do lobo", sujeito a um recrudescimento dos ataques de lobos, há muitas e boas novidades.

Na zona de Almeida, avança a construção de vedações para proteger rebanhos; algumas explorações de vacas, ovelhas ou cabras, vão em breve dispor de mais segurança, reduzindo em muito os prejuízos. O material já chegou e a construção, sob liderança da Escola Superior Agrária de Castelo Branco, está em curso.

Mais: aumenta o número de criadores que adere ao Programa Cão de Gado, do Grupo Lobo – uma das principais ferramentas do Projecto Med-Wolf. Já há ninhadas escolhidas, das melhores "famílias" caninas da Serra da Estrela, para fornecer os cães que vão guardar mais alguns rebanhos por estas bandas, apoiando os pastores e dissuadindo os lobos. Cães que são entregues sem custos, já com vacinas, microchip e registo, sendo ainda depois acompanhados pelo Projecto.

Claro que há ainda vozes que, esquecidas dos bons hábitos de eras que já lá vão, teimam em propalar que os "cães não funcionam", etc. Mas certo é que os muitos que já se aproximaram do Projecto Med-Wolf para solicitar o seu cão de gado estão agora mais perto de darem protecção mais eficaz aos seus animais. E essa nunca é demais.

Muito ainda continua por fazer, no esclarecimento cabal destas e de outras questões. Se ainda hoje criadores há que ignoram a existência de compensações para os seus prejuízos e os passos que devem tomar para as pedir... fica tudo dito. Mas este Projecto é uma maratona de 5 anos, não um fogacho sem continuidade. Continuaremos a apoiar quem merece com medidas práticas e, do lado da teoria, a fortalecer o nosso conhecimento sobre a situação do lobo, em busca das melhores soluções para o preservar sem que as pessoas fiquem a perder.

Bichos sem fronteiras

Muito já aqui falamos da redução da presença humana no nosso campo, que tem criado condições para muitos animais, incluindo o lobo, tornarem as suas actividades mais notadas. Mas este “regresso” não tem apenas essa causa, nem ocorre apenas em Portugal.

Por toda a Europa, a mortandade animal que marcou quase todo o século XX tem vindo a ser invertida. Esforços para preservar as espécies mais ameaçadas e uma mudança de atitude face ao legado ambiental que vamos deixar aos nossos filhos... muitos factores têm contribuído para que o nosso continente tenha conseguido sair da beira do precipício, em termos de extinções.

A revista New Scientist salientava há dias que a Europa, o mais humanizado e industrial dos continentes, alberga hoje cerca de 12.000 lobos, 17.000 ursos e 9.000 linces eurasiáticos (a espécie ibérica, mais pequena, é um outro caso, bem mais preocupante). Ficamos com uma perspectiva correcta destes números ao pensarmos que só há 32.000 leões em África e 2.000 tigres na Índia. Trata-se de uma recuperação que nos deve dar orgulho; que em alguma coisa a Europa funcione bem...

Aliás, ainda há três meses a Comissão Europeia criou uma nova “arma” para esta luta: a Plataforma sobre a Coexistência entre o Homem e os Grandes Carnívoros. Sob o seu impulso, todos os envolvidos e interessados vão trocar ideias e partilhar práticas que facilitem a coexistência com os maiores predadores europeus. As oito associações que assinaram o acordo incluem grémios de caçadores, proprietários rurais e agricultores (sem esquecer o representante dos pastores de renas finlandeses e suecos), além de associações conservacionistas.

Esta colaboração é crucial: os carnívoros utilizam áreas com muitos milhares de quilómetros quadrados, ignorando, claro está, fronteiras, passaportes e outras invenções humanas. Das 33 grandes populações de carnívoros identificadas na Europa, 29 alargam-se por mais de um país.

A necessidade imperiosa de coordenar a nível europeu a salvaguarda de animais como o lobo, o urso, o lince e o glutão fica bem patente na já famosa epopeia do lobo Slavc. No Inverno de 2011, este jovem decidiu dispersar, saindo das florestas da Eslovénia em busca de novos territórios, como muitos fazem; mas levava consigo uma coleira GPS, que foi transmitindo a sua posição ao longo de meses. E que viagem foi!

Numa semana, chegou à Áustria, tendo atravessado, na noite de Ano Novo, o rio Drava. Antes, até se atrevera a visitar o centro de uma cidade eslovena. Depois, deambulou pelos Alpes, passando pela estância de esqui de Toblach, já em plena Itália. Até chegar aos arredores de Verona, percorreu zonas densamente povoadas, bem perto de caçadores, criadores de gado com sede de vingança e outros perigos.

Em Abril, a aventura teve um final feliz, no parque natural de Lessinia, onde pouco antes tinha sido avistada uma loba – o primeiro exemplar da espécie que ali dava um ar de sua graça em mais de 100 anos. Ao que tudo indica, Slavc encontrou-a, pois já por lá foram vistos sinais de uma ninhada de lobachos; uma nova alcateia.

Mais de 1.000 km em busca de parceira; não admira que a loba tenha sido baptizada “Julieta”. Afinal, o drama de Shakespeare teve lugar precisamente em Verona...

Um conto de Verão

Ele aprendeu a gostar dos longos dias de Verão, das longas caminhadas entre as urzes e as pedras que ele já sabe de cor. Ou talvez nem tenha precisado de aprender; tudo no seu sangue leva àqueles caminhos pelos montes, como se gerações na sua linhagem tivessem conspirado para lhe dar, aqui e agora, esta calma consonância com as fragas, as árvores, as mudanças de humor dos ventos, as direcções a seguir, os obstáculos a evitar. A brisa traz-lhe um panorama de odores que pinta na sua mente o preciso mapa das redondezas, um mapa vivo, desenhado por coisas que crescem e mudam, pelos restos da noite anterior, mas também pelos baluartes rochosos da paisagem que ali estarão para sempre. Uma giesta atrasada que teima em florir o seu perfume ácido; a água fresca que ainda corre por perto; o pontilhado acre dos restos que a manada vai deixando... tudo ele vê antes de ver com os olhos. Até coisas mais sombrias, coisas que andam por ali à noite, coisas que lhe eriçam os instintos com uma nota de medo.

Mas a curiosidade não lhe guia os passos. E o receio não os tolhe. Ele limita-se a ficar ali, vigilante mesmo que deitado, mirando a dúzia de vacas que subiu o monte com ele e que mais logo o descerá: a sua família. Pelo menos a única que o Mondego conheceu; da sua verdadeira origem, dos seus irmãos de ninhada, já memória alguma sobra. Ele encontrou ali, na vastidão em que a manada vagueia e pasta, o seu lar, a sua liberdade e também a sua missão.

Duas das vacas pariram há pouco. Os vitelos não as largam, em busca de protecção e leite. O Mondego sabe bem que não se deve aproximar, que os cornos daquelas mães desconfiadas não são para brincadeiras.

De repente, chega o nevoeiro. Ainda agora começou o entardecer, mas é como se uma noite de Dezembro ali caísse, perdida e fria, com nuvens que escorrem pelo cabeço abaixo como leite frio. As vacas murmuram entre si, talvez a combinar um regresso a casa antecipado, aguilhoadas pelo medo e pelo instinto. Ele nunca viu uma névoa assim, tão opaca e pesada que até os cheiros afoga e embaraça. As silhuetas massivas daqueles continentes de carne começam a descer o monte.

O Mondego levanta-se para as acompanhar. Mas antes vislumbra nas ondas de neblina um vulto menor, que hesita e treme, paralisado pela súbita solidão. Um dos vitelos ficou para trás. Lá ao longe, o mugido aflito da mãe, incapaz de o encontrar. Há um instinto velho de milénios que acorda.

 

Dias, anos depois, o dono do Mondego não se cansa da história daquela noite, contada já com laivos de fantasia, mas fiel ao cerne do sucedido: “quando as vacas voltaram, vi que faltava um vitelo. E o Mondego também tinha ficado lá no cabeço. Mas estava nevoeiro cerrado e tive de esperar pela manhã para sair à procura deles. Quando dei com o vitelo, estava deitado junto a umas pedras, para se abrigar... com o cão encostado a ele, como se fossem dois cachorros. Aqui o Mondego não quis deixar o pequeno sozinho e passou a noite toda a guardá-lo. E nem sei se teve ou não de o defender de algum lobo...”

Certo, certo, é que esta história aconteceu mesmo, algures nos nossos campos. E se foi um Castro Laboreiro, um Serra da Estrela ou outro o herói, isso pouco interessa. Pois esta é a vida dos muitos cães de gado que todos os dias saem com as “suas” vacas, cabras ou ovelhas, arriscando a vida face ao lobo – mas também ao bicho homem, sempre mal agradecido, com as suas armadilhas, os seus carros e os seus venenos.

Falando, a gente entende-se

Nunca é de mais repetir: o Projecto Med-Wolf está na Guarda e em Castelo Branco não para defender o lobo contra o Homem, mas sim para tentar, na medida do possível, diminuir os conflitos entre ambos. Fornecer ferramentas mais eficazes de protecção a quem se queixa de estar “na boca do lobo” é fundamental, como é a adequada compreensão das diferentes alternativas e de experiências de outros locais.

Ora a primeira e maior diferença entre bichos e gentes é que os primeiros não sabem entender-se pela partilha de ideias, nem aprendem a mudar o seu ponto de vista quando descobrem outras experiências, outros saberes. Essa inteligência é mesmo exclusivo do bicho Homem; e é graças a ela que este Projecto pode vir a ter sucesso. Por isso, a convocação de reuniões com os principais afectados pela presença do lobo (os criadores de gado) será, em breve, o nosso próximo grande passo.

Não para termos biólogos e outros investigadores a “explicar” como se faz, nem para dar voz a ânimos exaltados. Sim para levar a cabo sessões de trabalho em que os criadores de gado são os principais intervenientes e em que o único objectivo é a busca de soluções, de melhores métodos de maneio e de ideias práticas que funcionem mesmo.

Como primeira etapa na concepção dessas reuniões, no passado dia 16 de Julho, técnicos do Projecto Med-Wolf enquadraram um encontro de criadores em Lamas de Mouro, no distrito de Viana do Castelo – parte da acção-piloto “A criação de gado bovino em regime extensivo no Noroeste: métodos de proteção contra ataques de lobo”, financiada pela Comissão Europeia, através da “Large Carnivore Initiative for Europe”.

Aqui, mais de uma dezena de profissionais reuniu-se num encontro que resultou em propostas concretas para uma melhor gestão dos conflitos entre as explorações pecuárias – sobretudo de bovinos em regime extensivo – e a presença do lobo.

Num ambiente participativo e descontraído, em que todos puderam expor os seus pontos de vista, os convidados discutiram problemas relacionados com a prevenção de prejuízos, o maneio do gado e o actual mecanismo de compensações, em busca de respostas capazes de atenuar os seus problemas. Outras entidades estiveram também representadas nos trabalhos; associações de criadores, autarquias, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, uma associação de baldios, ONGs ligadas à conservação do lobo.

Na parte da manhã, cada criador de gado tomou a palavra e disse de sua justiça, expondo inquietações, queixas e também propostas. Depois, a tarde ficou por conta de uma longa sessão de discussão estruturada, resultando num conjunto de propostas realistas que agora irão dar origem a directrizes para a minimização de conflitos no Alto Minho.

A coexistência entre o Homem e o lobo pode e deve ser mais harmoniosa e proveitosa; para isso, os interessados locais têm de se assumir como raiz da resolução dos conflitos com um predador que tem um importante lugar na nossa História, na nossa Cultura e também na preservação do equilíbrio ecológico, fundamental para muitas actividades económicas.

É um dos objectivos mais importantes do Projecto Med-Wolf dar ferramentas às pessoas para que elas possam, por si mesmas, desempenhar este papel fundamental. Assim sendo, pode contar com iniciativas de diálogo e partilha de ideias em breve, bem perto de si.

O homem que "Comprou um Zoo" visitou a Guarda

O que terão estrelas de Hollywood como Matt Damon e Scarlett Johansson a ver com a Guarda, mais precisamente a zona de Almeida? Simples: o filme que juntou aqueles dois actores em 2011, “Comprámos um Zoo”, é inspirado por uma história verídica, que tem uma família inglesa por protagonista real; e esta família, Benjamin Mee e os seus dois filhos, Milo e Ella, esteve a descobrir a zona de acção do Projecto MedWolf durante a terceira semana de Julho.

A razão da visita foi a filmagem de um documentário para a BBC sobre a vida dos Mee entre os animais. Como ainda há pouco receberam como “pensionistas” três lobos ibéricos, nada mais natural do que viajarem até Portugal para observar a região onde este predador vive, rodeado por mil ameaças.

Para melhor conhecer a situação, a equipa de filmagens entrevistou biólogos do Projecto, encarregues de diferentes aspectos do mesmo, e ainda levou a família Mee a conhecer uma exploração pecuária, em Malhada Sorda, no concelho de Almeida. Aqui, as crianças conheceram a mais jovem guardiã da Quinta da Lapa, a Estrela (como o nome indica, uma Serra da Estrela), uma cadelita de seis meses que encantou os visitantes ingleses. De tal forma que Benjamin Mee logo se ofereceu para receber no seu Zoo um casal reprodutor desta raça, para colaborar na aplicação nesta área do Programa Cão de Gado, que entrega guardas caninos às explorações mais expostas ao lobo, contribuindo para reduzir significativamente os seus prejuízos.

Antes, já a família Mee tinha visitado o Centro de Recuperação do Lobo Ibérico, perto de Lisboa e actualmente em campanha para adquirir os seus terrenos, temática que Benjamin conhece bastante bem, pela sua experiência pessoal. O Zoo de Dartmoor, em Inglaterra, é o Zoológico real que Mee resolveu comprar em 2005, pouco antes de ter enviuvado. Como o filme retrata, embora de forma romanceada, manter dezenas de animais e modernizar instalações em ruína foi uma verdadeira epopeia, que incluiu a luta contra uma infestação de ratazanas e a fuga de um perigoso jaguar, entre mil outras peripécias. Hoje, mesmo após a celebridade, e enquanto planeia uma sequela para o filme que o celebrizou, Mee dedica todo o seu tempo a cuidar do seu Zoo e a divulgar as suas actividades de conservação e pesquisa.

Depois de conhecer em profundidade o Projecto MedWolf, ele não poupou elogios: “é uma acção louvável a vários níveis, pois protege os criadores de gado, protege o lobo e ainda promove o Cão da Serra da Estrela”. “Enquanto outras medidas não têm lugar, como a reintrodução massiva de presas naturais, é fundamental apaziguar os conflitos, dando ferramentas aos criadores para protegerem os seus investimentos e a sua forma de vida.”

Na despedida, ficou a promessa de fortalecer laços com Portugal e com a preservação de duas das suas espécies mais emblemáticas e ameaçadas: o lobo e o lince ibéricos. Mee planeia “trazer mais estudantes a esta zona, em colaboração com a Universidade de Plymouth e o Projecto MedWolf”, no que pode bem ser “o mais excitante projecto do Zoo de Dartmoor em termos de pesquisa externa".

Quanto à vinda à Guarda de Scarlett Johansson, nada ainda está certo...

Ensinar a tolerância

Já nestas páginas falámos do "Wolf Kit"; um pacote pedagógico destinado aos mais jovens, contendo informação detalhada sobre o lobo e os seus hábitos, além de testemunhos de pastores sobre conturbada coexistência que mantêm com o maior predador de Portugal. Este auxiliar didáctico, destinado a ser empregue por professores, combina jogos, vídeos e muitos dados factuais, para que os alunos saibam depois destrinçar factos de mitos, avaliando a real dimensão do conflito entre lobos e homens.

Mas há outras formas de chegar às crianças: por exemplo, levando-lhes testemunhos e conhecimentos de quem anda no terreno a estudar a presença do lobo no nosso território. Assim no dia 9 de Junho, dois biólogos do Projecto Med-Wolf estiveram no Vale Natural Ecológico D' Aivão, em Freineda, no concelho de Almeida. Ao longo de 4 animadas horas, cerca de 60 jovens, divididos em 4 grupos, receberam explicações detalhadas sobre a situação do lobo nesta região, a sua dieta, os seus hábitos e, muito importante, as medidas que facilitam a coexistência com o gado doméstico, minimizando as consequências dos ataques das alcateias: vigilância de pastores, presença de cães de gado eficazes e sistemas de maneio de gado preparados para a presença do lobo.

Inevitavelmente, a grande curiosidade dos alunos presentes teve a ver com as técnicas de campo para o estudo do lobo: armadilhagem fotográfica, procura de indícios, equipa de detecção canina. Estes métodos foram então demonstrados ao vivo, com a instalação de uma câmara fotográfica destinada a capturar imagens de animais silvestres. Foram também exibidas fotografias de animais da fauna selvagem da região – algumas causaram surpresa na audiência, que não sabia que tinha bem perto de si alguns daqueles "vizinhos".

Mas o ponto alto deste encontro foi sem dúvida a presença (com demonstrações) do cão Zeus. Este "operacional" do Grupo Lobo foi treinado, por um especialista norte-americano, para detectar dejectos de lobo, distinguindo-os pelo faro dos de outros animais presentes na zona, incluindo cães. O Zeus trabalha numa área superior a 6.000 quilómetros quadrados, sempre na companhia de um biólogo, e não precisa de pergaminhos de raça para ser um campeão no seu trabalho: trata-se de um simpático rafeiro, adoptado com a ajuda da associação “Focinhos & Bigodes”. É a primeira vez que um cão adoptado desempenha uma tarefa ligada à conservação animal, desempenhando um importante papel neste Projecto que une organismos e entidades de ensino e investigação de Portugal e Itália.

As perguntas depois colocadas pelos jovens revelaram um interesse especial (e natural) pelo trabalho desta equipa de detecção canina; é com dificuldade que se acredita nas capacidades espantosas do faro deste cão, capaz de encontrar o seu "alvo" à distância, isolando o seu odor do de milhentos outros objectos nas redondezas.

As ideias feitas e os receios escusados tiveram também lugar cativo nas sessões de perguntas e respostas: questões como "os lobos atacam pessoas?" tiveram respostas rigorosas e bem explicadas, assegurando àquela audiência que os lobos têm muito mais receio de nós do que nós devemos ter deles.

Com a multiplicação de iniciativas deste jaez, esperamos que os jovens de hoje venham a ser os adultos informados e tolerantes do futuro...

Mais uma morte, mais um apelo

O nome Aron Ralston talvez lhe diga pouco. Mas se lhe falarmos no filme “127 Horas”, provavelmente recordará a odisseia do montanhista americano que se viu preso por uma rocha, forçado a cortar o próprio braço para fugir e sobreviver. Uma história arrepiante mas verdadeira.

E que temos nós a ver com isto?, perguntará. Avancemos então 11 anos, até ao início deste mês de Junho. Em Portugal. Uma loba adulta, baptizada “Pedrada” pelos investigadores que lhe tinham colocado uma coleira GPS e a seguiam havia quatro meses, viu-se presa num laço de metal, destinado provavelmente a apanhar javalis; um método de “caça” completamente ilegal, diga-se.

A loba acabou por sofrer uma morte atroz: tentou libertar-se mordendo, rasgando a própria pata... mas n entre os 15 lobos seguidos stinselar o seu triste fado – vS e a seguiam havia uns meses, viu-se presa num laço de metal, destinão conseguiu. A sede acabou por selar o seu triste fado – vítima da estupidez humana. Só entre os 15 lobos seguidos por GPS em dias recentes, já é o sexto animal morto de forma ilegal e cruel. Mesmo com a Lei do Lobo a protegê-lo desde 1988 – e a compensar criadores de gado prejudicados pelo predador –, a matança não pára. O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas apurou que 70% das 80 mortes de lobos registadas entre 1999 e 2011 foram causadas por ataques a tiro, com laços ou com veneno. A triste realidade é que apelos, consciencialização e esclarecimento parecem não bastar para dar fim a este fenómeno, resultado de séculos de crendices. E o furtivismo continua a campear, ameaçando animais silvestres e domésticos.

Mas se tivesse sido uma criança a ficar presa? A cobardia dos autores das armadilhas manter-se-ia, por certo: nenhum assumiria o triste feito, como agora. Aliás, muitos cães domésticos caem nestas armadilhas, muitas vezes montadas junto às aldeias; a GNR já tomou nota de várias ocorrências, em diversos distritos, em que cães são agredidos à bastonada e depois até cortados, para “desocupar” estas armadilhas para javalis...

Mais uma vez, várias organizações, do Grupo Lobo à CONFAGRI, de ambientalistas aos Vigilantes da Natureza, vieram reafirmar que “é urgente assegurar acções que compatibilizem a presença desta espécie com as actividades humanas, como o combate eficaz à perseguição ilegal ou o apoio aos produtores pecuários para a correcta protecção dos seus animais perante a predação do lobo”. Isto, sendo certo que “a passividade das entidades competentes” continua a ser a regra, assistindo-se por norma a uma inércia daninha, para não dizer má vontade, sempre que algumas instituições são chamadas a cumprir o seu dever na salvaguarda de espécies ameaçadas.

As 18 entidades subscritoras desde comunicado afirmam-se disponíveis para discutir o tema da conservação do lobo ibérico, nas vertentes ambientais, sociais e económicas, «promovendo o diálogo construtivo» com as autoridades. Que haja vontade e capacidade de decidir com coragem; porque está em causa preservar a herança que vamos deixar aos nossos filhos.

Um Projecto sem fronteiras

Como vimos há quinze dias, é impossível gerir as populações de animais em estrita observação das fronteiras; se um lobo pode em poucas semanas deslocar-se mais de mil quilómetros, de pouco adianta uma só nação querer lidar com os seus animais selvagens, sem colaborar com os países vizinhos. Um lobo não sabe se está em Portugal ou em Espanha; nem sabe que se arrisca a ser legalmente exterminado em províncias espanholas, como as Astúrias.

Mas há mais razões para partilhar informação, experiências e métodos, mesmo entre países sem fronteira comum. Por isso o Projecto Med-Wolf está em acção em territórios portugueses e italianos; por haver bastante em comum nas realidades sociais, naturais e administrativas destas duas nações, e pelas sinergias que podem ser aproveitadas ao criar planos de acção que ultrapassam uma só realidade nacional.

É que um Projecto desta dimensão não se pode limitar a minimizar os danos causados pelos lobos, nem a fomentar a predisposição para uma coexistência mais pacífica. Estes objectivos são fundamentais; mas têm de ser dirigidos por um entendimento rigoroso e científico do que se está a passar no terreno, nos habitats, nas aldeias e vilas. Assim, cada passo é cuidadosamente ponderado, a nível europeu. Cada acção do Projecto é sujeita a uma avaliação conjunta, antes, durante e após a sua implementação.

Temos portanto um projecto europeu que em Castelo Branco e na Guarda está a minimizar as tensões entre lobos e homens, instalando vedações, distribuindo cães de gado eficazes, esclarecendo, formando as gerações mais jovens. Há ainda um outro lado deste Projecto que avança com menos visibilidade, embora com igual utilidade. A componente de investigação, de estudo técnico e científico das operações do Projecto Med-Wolf é igualmente fundamental. E tem sido um dos seus principais vectores desde que ele arrancou, h pouco mais de um incipais vectores de acçdeias e vilas.bos, nem a fomentar o entendimento e a predisposiçá pouco mais de um ano. Na vertente científica, produzem-se estudos sobre a distribuição do lobo no nosso território; sobre as ideias e atitudes que demonstramos; sobre a eficiência dos métodos de prevenção de ataques. E isto a nível internacional.

Reuniões periódicas comparam experiências, expectativas e métodos aplicados nos dois países que colaboram neste Projecto. A aprendizagem mútua, com a partilha de saberes e técnicas, é um dos pontos fortes da filosofia Med-Wolf. E esta avança ainda mais, apresentando-se ante a comunidade científica internacional como um pólo de agregação de conhecimento: no âmbito do Projecto, foi recentemente relançada a revista “Large Carnivore Damage Prevention News” (Notícias da Prevenção dos Danos Causados por Grandes Carnívoros), agora dirigida por uma investigadora portuguesa e agregando artigos oriundos de vários países, europeus e não só, colocando o nosso país no mapa das fontes de conhecimento deste tema.

A verdadeira conservação ambiental faz-se assim: combinando medidas práticas e extremamente úteis com a criação de saber que amanhã irá aproximar ainda mais o objectivo último de preservar a biodiversidade que nos rodeia, de modo a que a possamos legar aos nossos filhos.

Um mundo de ameaças

Ao longo destes meses de presença quinzenal aqui no “Terras da Beira”, já muito falámos do lobo ibérico, das ameaças que ele enfrenta, dos passos legais que foram dados para o proteger, das actividades do Projecto Med-Wolf na Guarda e em Castelo Branco, na sua luta por uma coexistência mais tranquila e proveitosa entre homens e lobos. Até chegámos a esboçar uma pequena árvore genealógica deste predador, recuando alguns milhões de anos, em busca de uma evolução que ainda hoje se apresenta algo misteriosa.

Mas nem só em Portugal se joga o futuro do lobo. Nos diversos países onde ainda sobrevive qual a situação do lobo face à lei e às ameaças humanas? Será esta uma luta global que ainda pode ser ganha?

A área de distribuição deste carnívoro encontra-se hoje bastante reduzida, tendo em vista a sua situação original. Na Europa as populações lupinas estão por norma fragmentadas em núcleos, sendo que as maiores populações sobrevivem ainda nos países de Leste, sobretudo em zonas pouco sujeitas à presença do Homem e da sua interferência sobre os habitats naturais. Mas há boas notícias: no decurso dos últimos anos, a população lupina aumentou em número e em área de distribuição na Europa Central, recolonizando áreas de onde havia desaparecido. Lobos dos países de leste expandiram-se para oeste (Alemanha e República Checa) e alguns lobos de Itália migraram para norte, rumo a países como a Suíça, Áustria e França. Naturalmente, os animais não reconhecem Estados nem fronteiras, atravessando estas sem receio de incidentes diplomáticos... em geral, os carnívoros utilizam áreas muito vastas e as suas populações funcionam em espaços com muitos milhares de quilómetros quadrados. Foi recentemente observado um lobo na Escandinávia que viajou mais de 1.000 km, em linha recta. Isto vem tornar um pouco mais difícil a gestão das suas populações, que por vezes se alargam a vários países, obrigando a esforços concertados.

Na América do Norte e Central verificou-se nas últimas décadas uma grande diminuição da população de lobos. Mas aqui também há algumas boas novas: no Leste dos Estados Unidos da América, nas regiões fronteiriças com o Canadá, verifica-se hoje em dia uma marcada expansão da população lupina.

O panorama legal está longe de reflectir um consenso internacional que corresponda à importância que o lobo tem nos nossos ecossistemas. Este predador é protegido na maioria dos países europeus pela Convenção de Berna e por directivas comunitárias para a conservação da fauna silvestre. Mas encontramos excepções em algumas regiões autónomas de Espanha, na Grécia e em alguns países de Leste, onde o lobo é considerado uma espécie que pode ser caçada após a obtenção de uma simples licença.

Nas Astúrias, aqui mesmo ao lado, foram legalmente abatidos lobos em 2012 e 2013, respondendo à pressão política dos criadores de gado. No entanto, os primeiros dados indicam que ali os ataques têm... aumentado! A perturbação da estrutura social de alcateias, com a fragmentação em novos grupos, pode ajudar a explicar este importante fenómeno. Algo em que devemos ponderar seriamente antes de aceitar os argumentos dos que desejam fazer do lobo mais uma espécie cinegética.

Educar para a coexistência

Mowgli, o jovem criado por lobos na Índia, foi o herói de muitas histórias do poeta Rudyard Kipling. Depois, veio a encantar milhões através da animação da Disney. Mas trata-se apenas de fantasias; os lobos são animais selvagens e dificilmente cuidariam de um bebé humano que encontrassem.

Mais perto de nós, temos visto nos noticiários relatos de ataques de lobos a rebanhos, acompanhados por testemunhos de pessoas que se dizem com medo de circular na rua à noite e receosas pelos seus filhos. Ora eis mais uma fábula: em Portugal, mesmo com as inúmeras crianças que, ao longo de décadas, foram subindo aos montes para tomarem conta, sozinhas, de rebanhos, não há notícias de que tenham sido atacadas por lobos. Animais como os cães vadios devem inspirar muito mais receio do que o lobo, criatura que hoje foge dos humanos a sete patas, mal lhes apanha o cheiro.

Impõe-se portanto informar os nossos jovens, sobretudo aqueles que vivem em territórios onde o lobo está presente, das realidades do nosso maior predador. Dos seus hábitos, da sua morfologia, das razões que têm levado à sua perseguição.

Por isso, o Projecto Med-Wolf já iniciou, nas escolas da Guarda e de Castelo Branco, a divulgação do Wolf Kit. Um conjunto de conteúdos didácticos, com informação, filmes, jogos e desafios, orientado para a divulgação da realidade em que vive o lobo, esse predador quase sempre incompreendido.

Os alunos do segundo e terceiro ciclos ficarão assim a conhecer melhor diversos aspectos dos ecossistemas que os rodeiam; mas também dos motivos que levam muitos criadores de gado a ver o lobo como bicho daninho e inútil. Entrevistas com vários pastores fazem parte deste pacote didáctico, que não pretende "glorificar" o lobo em desfavor das actividades humanas, mas sim explicar que a coexistência é possível e que ninguém ficaria a ganhar com a extinção do lobo ibérico no nosso país. Incluindo também informação destinada aos professores, o Wolf Kit é uma ferramenta imprescindível à formação de gerações mais conhecedoras da Natureza e educadas no seu respeito.

Como reconhecer pegadas e outros vestígios da presença de uma alcateia? Como funciona ela e como escolhe o seu habitat? Que pensam os pastores da ideia de partilhar espaço com um predador? E como está este presente na cultura que nos rodeia, da Arte ao nome de ruas?

Akela era o líder da alcateia que protegeu Mowgli, o pequeno rapaz que aprendeu como cada um tem o seu lugar próprio e insubstituível no mundo. Hoje, muitos lobos sem nome são perseguidos e mortos por causa da ignorância. Que ao menos as próximas gerações saibam crescer com menos preconceitos e receios infundados.

Outros tempos, outras terras

Já nestas páginas ficámos a conhecer um pouco melhor o lobo ibérico; como é, a que ameaças está sujeito, que mitos originou, que futuro o pode e deve esperar. Mas quais as suas origens? Como evoluiu pelo mundo fora?

A investigação do começo de tudo também passa, curiosamente, por Portugal. Perto de Leiria, no local da descoberta do famoso “Menino do Lapedo” – que talvez tenha nascido do cruzamento entre um humano moderno e um Neandertal há cerca de 25 mil anos–, foram encontrados abundantes vestígios de lobos. Na raia espanhola, perto de Ciudad Rodrigo, existe uma imagem paleolítica de um lobo, dentro da figura de um auroque; no nosso Vale do Côa, podemos ver uma gravura que parece ilustrar um homem com cabeça de lobo – estes legados artísticos, com pelo menos 15 mil anos de idade, demostram que o lobo desde sempre foi uma personagem importante na vida humana.

Alguns cientistas crêem que os canídeos surgiram na América do Norte, espalhando-se daí para a Ásia; outros julgam que um tipo de lobo primitivo, de pequenas dimensões, emigrou da Sibéria para o Alasca, quando ainda se encontravam ligados, tendo depois evoluído até ao lobo moderno.

Certo é que há 200 milhões de anos os primeiros mamíferos conviviam com os dinossauros. Mais ou menos quando estes se extinguiram, um pequeno animal, o cimolestes, terá sofrido uma mutação que o dotou de dentes capazes de mastigar carne. Destes antecessores dos carnívoros evoluíram duas famílias muito importantes: a Viverravidae, que acabou por originar os felinos, e a Miacidae, linha que, após mais alguns milhões de anos, resultou nos canídeos. Ou seja, cães e gatos, hoje inimigos figadais, descendem de antepassados comuns, tendo-se separado há cerca de 65 milhões de anos.

Hesperocyon, Mesocyon, Cynodesmus, Leptocyon. Estes nomes fazem parte da galeria de antepassados notáveis do Canis davisii, que, há 8 milhões de anos, foi o fundador do género Canis, com ossadas descobertas pela primeira vez bem perto de nós, em Espanha. Há menos de um milhão de anos, o Canis lupus já vivia na Europa e na América. O lobo distribuía-se por todo o Hemisfério Norte, incluindo o Norte de África, vivendo em diferentes habitats: nas terras geladas do Alasca, na tundra siberiana, em florestas na América do Norte e na Eurásia, até nas regiões semidesérticas da Arábia.

Hoje, sobrevivem três espécies: o lobo vermelho, o lobo da Etiópia e o lobo cinzento, Canis lupus. Deste, conhecemos inúmeras subespécies, como a ibérica, que provam o seu grande poder de adaptação: do grande lobo da Península de Kenai, no Alasca, com dois metros de comprimento e hoje extinto, ao pequeno lobo árabe, adaptado à dura vida no deserto, que pesa em média apenas 18 kg, passando pelo lobo ártico, de pelagem branca, ideal para se camuflar na neve.

Poderíamos ainda mencionar muitos outros parentes célebres, como o “lobo das Falkland”, canídeo (mas não um lobo) descrito por Darwin pouco antes da sua extinção, ou o dingo, provável regresso australiano do cão ao estado selvagem.

O último censo a nível mundial, de 1998, refere a presença de lobo em 43 países; em 36 o número de lobos é estável ou tende a aumentar, nos restantes 7, o número de lobos está a diminuir. Das ameaças que ele presentemente enfrenta, assim como do seu estatuto legal em diferentes nações, falaremos noutra ocasião.

Presentes envenenados

Custa a crer, mas em Portugal o uso de venenos já foi incentivado pelas autoridades para reduzir os efectivos de várias espécies silvestres, como a águia real e, claro está, o lobo. Em 1836, a Câmara de Ponte de Lima aconselhou oficialmente o envenenamento como “remédio” para o controlo dos lobos; no início do século XX, vivia em Pitões de Júnias (Montalegre) um cidadão que tinha a seu cargo o envenenamento dos lobos, estando por isso livre de outras obrigações comunitárias; em 1925, as peles dos últimos lobos capturados no Fojo de Parada foram oferecidas pelos aldeões ao Presidente da Câmara, em troca de um frasco de estricnina, também conhecida como “mata-lobos”. Meio século depois, na Serra do Soajo ainda havia dias em que todos os cães eram mantidos à corrente, para não consumirem os iscos distribuídos pelos seus donos por montes e vales…

Em 1976 a banalização do uso de venenos acabou por ter consequências trágicas, quando 21 pessoas morreram no concelho de Belmonte, após terem comido uma rês envenenada que tinha uma alcateia como destinatária.

Mas nem com esta desgraça aprendemos a lição mais importante: uma vez espalhados na Natureza, os venenos não atacam apenas as espécies que consideramos “daninhas”; qualquer animal que se alimente de uma carcaça envenenada, ou leve carne dali para o seu ninho ou para a sua toca, está a selar o seu destino e a condenar as suas crias.

Hoje, os venenos são ainda empregues de forma ilegal por muitas razões: dos caçadores que querem livrar-se de ameaças às espécies cinegéticas, a criadores de gado que julgam assim proteger os seus animais; passando por gente que deseja apenas matar cães de vizinhos. Conflitos entre caçadores, ou entre estes e as populações locais, também têm dado origem ao uso irresponsável e ilegal de venenos. A tentativa de erradicação de roedores e aves consideradas prejudiciais à agricultura é outra realidade demasiado frequente.

A facilidade com que se adquirem ainda hoje estas substâncias, combinada com a simplicidade do seu uso, faz dos venenos uma praga de consequências tremendas. Note-se que há pesquisas, baseadas no estudo de casos reais, que provam que um só isco pode chegar a causar a morte de três dezenas de lobos. Todas as entidades que colaboram no Projecto Med-Wolf defendem um maior controlo na comercialização de venenos, assim como o fim da impunidade para o seu uso ilegal. O Programa Antídoto (www.antidoto-portugal.org) tem como objectivo minimizar este flagelo, através de pressão sobre os legisladores, sensibilização das populações e operações de detecção nas zonas mais problemáticas. Todos podemos e devemos ajudar.

Se deparar com o que lhe parece ser um caso de envenenamento, contactede imediato o SEPNA/GNR, pelo telefone 21 750 30 80, ou a Linha SOS Ambiente: 808 200 520. Não deve tocar nos corpos; estes serão recolhidos pelas autoridades, que as entregarão a um médico-veterinário. Este, por sua vez, procederá à obrigatória necrópsia.

O filósofo romano Séneca deixou escrito que “A maldade bebe a maior parte do veneno que produz.” Também aqui é verdade: com o uso indiscriminado e ilegal de venenos, até o Homem acaba por sofrer.

Saber mais, conhecer melhor

Nunca é de mais repetir isto: o Projecto Med-Wolf tem como objectivo final a melhoria da coexistência entre o lobo e o Homem. Tal começa, obrigatoriamente, por um conhecimento mais aprofundado dos hábitos, números e localização das alcateias que vivem nos distritos da Guarda e Castelo Branco. Saber mais também é um imperativo para todos os que directa ou indirectamente lidam com os efeitos da presença deste predador; e mesmo a população em geral só tem a ganhar quando se livra de mitos e crenças erróneas que sempre acompanham aquilo que se conhece mal.

Mas a informação sobre o lobo tem outras facetas, talvez mais invisíveis ao público, mas não menos fundamentais. Por exemplo, as próprias autoridades, do serviço da GNR que lida com a preservação da Natureza, o SEPNA, aos Vigilantes da Natureza que devem inspeccionar cada alegado ataque a rebanhos das circunstâncias em que ele ocorreu... todos conseguem trabalhar melhor com mais dados, mais formação.

Por isso, os técnicos e investigadores deste Projecto dão prioridade a acções de divulgação e treino que aumentem esse conhecimento. Além de participarem em encontros com as populações, um pouco por todo o país rural que conta com a presença de lobos, auscultando desejos e receios de todos os grupos interessados, eles organizam igualmente Encontros Científicos mais específicos. Em Junho de 2013, o Sabugal acolheu já um destes seminários, com apresentações sobre temas díspares como a utilização ilegal de venenos, o uso de cães para detectar vestígios de lobos, etc. De militares da GNR a criadores de gado, o público compareceu em grande número, sendo o resultado final bastante positivo.

No passado dia 12, a Universidade de Tás-os-Montes e Alto Douro foi palco de um seminário de natureza mais técnica e específica; destinado a aprofundar o conhecimento dos Vigilantes da Natureza, equipando-os com mais ferramentas e conhecimentos para destrinçar os ataques a gado cometidos por lobos das acções de predadores como cães vadios.

De Itália, veio o veterinário Simone Angelucci, técnico superior do Parque Nacional de Majella. Como especialista nacional, esteve presente o Dr. Nuno Santos, da Pygargus, Lda. Com abundantes auxiliares audiovisuais e incluindo mesmo a necrópsia de animais atacados por lobos, todos os pormenores cruciais foram passados em revista, numa sessão sem paralelo até à data, em Portugal. Como distinguir as dentadas aplicadas em vida daquelas que decorrem da acção de animais necrófagos? Que tipo de marcas caracterizam os ataques de lobos? Quanto tempo decorreu desde o ataque? Como proceder à recolha de amostras biológicas para análise forense? E que ferramentas coloca hoje a Genética ao serviço de quem trabalha nesta área?

Para que nem uma cabeça de gado vitimada por lobos fique sem ser compensada, é obrigatório saber, com a maior certeza científica possível, em que casos o lobo ibérico culpado foi mesmo o responsável. Desta forma, qualquer tentativa de fraude será detectada muito mais depressa; levando também a que os pedidos legítimos possam ser atendidos sem demoras. Só através de acções formativas como esta poderemos reduzir ao mínimo as dúvidas no momento da decisão das compensações.

É um trabalho que dá sempre frutos. E que se aprofundará durante todo o Projecto Med-Wolf. 

Os melhores amigos da pecuária

Já aqui o escrevemos: o objectivo número um do Projecto Life Med-Wolf – Boas Práticas para a Conservação do Lobo em Regiões Mediterrânicas – é “diminuir o conflito entre a presença do lobo e as actividades humanas, em regiões rurais onde os hábitos culturais de coexistência se perderam.” Mas que significa, afinal, isto dos “hábitos culturais”? E que implicações práticas terá?

Não se trata de temas intangíveis. Falamos sim de métodos de protecção do gado que foram caindo em desuso, como sistemas de maneio que maximizam a segurança dos animais e, ainda mais notório, o uso de cães de gado.

Torna-se evidente, para quem anda no terreno, a conversar com criadores, que esta útil tradição hoje pouco mais é do que uma memória pouco nítida. Há pessoas se queixam de que “os cães não funcionam”, ou expressam abertamente desconfiança da eficácia deste método de protecção milenar. Mesmo uma raça como o Cão da Serra da Estrela talvez só tenha sobrevivido graças às suas aptidões para cão de companhia, apesar de isto ter acarretado a popularização da variedade de pêlo longo, menos apta a trabalhar em zonas de mato.

Acontece simplesmente que não basta pegar num cão qualquer, por mais simpático ou inteligente que ele nos pareça, e deixá-lo a conviver com cabras, ovelhas ou vacas para que ele assuma, por instintos mágicos, as funções de protector, pronto para enxotar qualquer predador mais atrevido.

Não. Os cães de gado devem pertencer a raças específicas, sendo seleccionados durante gerações pelo seu comportamento adequado face ao gado: deve estar sempre atento, deve acompanhar o gado em todas as ocasiões, terrenos ou condições climatéricas e, claro está, deve ter um comportamento protector face a esta sua “família”, sem brincadeiras nem comportamentos agressivos. E todo o processo de integração destes guardas nos rebanhos tem a sua ciência; ocasiões propícias, cuidados a ter, observações criteriosas a fazer.

O Grupo Lobo, entidade líder deste Projecto, tem o seu Programa Cão de Gado em operação há 17 anos. Em zonas mais expostas a ataques de lobos, já foram entregues mais de 300 cães, pertencentes às raças Cão de Castro Laboreiro, Cão da Serra da Estrela, Cão de Gado Transmontano e Rafeiro do Alentejo. Todos foram oferecidos, sem encargos nos primeiros anos de vida do cão, aos criadores de gado; vacinados, desparasitados e já com “microchip”. O seu acompanhamento e avaliação, tal como apoio alimentar nos primeiros meses, é sempre contínuo e cuidadoso.

E resultados? Segundo os mais de 100 criadores de gado beneficiados, a presença dos cães permitiu reduzir, em 74% dos casos, os prejuízos causados por lobos, tendo a diminuição por vezes atingido os 100%. O comportamento de mais de 90% dos cães foi avaliado pelos técnicos e pelos proprietários como Muito Bom ou Excelente.

O Projecto Med-Wolf vai ainda este ano iniciar a entrega de cães de gado de linhagens seleccionadas. Ficando de seguida a monitorizar o seu comportamento e eficácia, trocando animais caso tal seja necessário. Com a certeza científica de que este método de protecção, agora recuperado em vários países de diferentes continentes, é mesmo uma forte linha de defesa entre os nossos rebanhos e o lobo.

"Vocês" contra "nós"?

À medida que o lobo intensifica a sua presença em terras onde ainda há pouco tempo  não dava muito que falar, os ânimos tendem a inflamar-se, assim como as palavras. Para auscultar em primeira mão esta tendência, não há como participar numa das muitas reuniões que várias entidades envolvidas na gestão do lobo têm levado a cabo pelo Norte e Centro do país.

Os técnicos falam, expõem ideias, gráficos e números; os autarcas tentam fazer com que as populações envolvidas saibam do que se passa na realidade; estas lá vão comparecendo... e dizendo de sua justiça.

Neste ponto é que  as coisas se complicam. Certo é que alguns criadores de gado têm sido afectados. Sabido é que o lobo continua a ser visto por muitos como criatura daninha, que melhor estaria presa em cercados ou zoos. Mas nunca faltam nestas “tertúlias” vozes mais nervosas e estridentes, que tendem a sobrepor-se a todas as outras.

O conhecido mito do “andam por aí a pôr lobos” surge logo no início das conversas; sempre a propósito de rumores, nunca com provas. Claro que estas provas não são apresentadas porque não existem: como já aqui vimos, jamais em Portugal (nem na Europa) foram libertados lobos. Note-se, aliás, que no parque americano de Yellowstone eles foram reintroduzidos, não porque faziam falta aos postais ilustrados, mas porque os herbívoros que eles antes controlavam estavam a desertificar o parque, comendo toda a sua vegetação.

Depois, acaba sempre a discussão por se cristalizar num falso antagonismo: “Nós” contra “Vocês”. Os primeiros são os donos de explorações pecuárias e as suas famílias; os segundos serão gente citadina que defende o lobo contra os interesses das pessoas.

Temos aqui um mal-entendido bastante ruim, que pode inquinar as relações entre quem se dedica à conservação da Natureza e as populações locais.

É que a verdade é outra: o Projecto LIFE Med-Wolf tem como objectivo facilitar e promover a coexistência entre o Homem e o lobo nos distritos da Guarda e de Castelo Branco. Mas está a fazê-lo exclusivamente através de medidas que beneficiam e fortalecem o criador de gado, reduzindo o impacto dos ataques do lobo – tudo para que os dois consigam viver lado a lado!

Vamos continuar a instalar cercas convencionais ou electrificadas para defender explorações em locais vulneráveis; vamos incentivar a prática de experiências com profissionais de terras onde o lobo sempre esteve activo; vamos em breve iniciar a oferta de cães de gado eficientes e bem escolhidos, sempre de raças autóctones.

Não vamos, naturalmente, soltar lobos nas serras, alimentar alcateias nem dificultar de alguma maneira a vida a quem ganha o pão com a pecuária. Antes pelo contrário! A formação de pastores e proprietários, tendo em vista a adopção de sistemas de maneio que dificultem os ataques, será outro passo importante. Um pouco mais a norte, outras iniciativas tentam reintroduzir presas naturais do lobo, como o corço.

Este Projecto sabe que só atenuando os conflitos entre o lobo e as actividades humanas poderá o nosso maior carnívoro sobreviver. E que no desejo de deixarmos aos nossos filhos uma Natureza mais equilibrada e completa só há um lado: o do “todos nós”.

Cães com pele de lobo?

Estamos tão habituados à companhia dos nossos cães que perdemos a sua origem de vista; esquecemo-nos de que eles descendem de um predador e que mantêm todas as ferramentas naturais – dentes, músculos, instintos – necessárias para regressarem ao seu passado longínquo, se preciso for.

Quando o “Bobby” é abandonado por donos irresponsáveis, ele tem que se adaptar à nova situação. Começamos então a encontrar verdadeiras matilhas de cães vadios, ou “assilvestrados”, que tentam sobreviver nas cidades – até uma gigantesca urbe como Chicago tem hoje um grave problema com cães agressivos – e nos campos. Aqui, o regresso aos hábitos do seu ancestral, o lobo, pode ser completo, passando a alimentar-se das mesmas presas, silvestres ou domésticas.

Ou seja, os cães começam mesmo a competir com os lobos, por alimento, por território, por parceiros de reprodução. E os problemas com os seres humanos, até há pouco os seus “melhores amigos”, tornam-se numa coisa muito séria.

Primeiro, porque os ataques a explorações pecuárias aumentam, sendo estes quase sempre atribuídos ao lobo, calhado para o papel de “mau da fita” tradicional. Por vezes, os métodos de caça destes cães, embora podendo variar, dada a diversidade física das raças caninas, são idênticos aos do lobo. Quando assim é, só mesmo com análises genéticas feitas nos locais dos prejuízos se consegue distinguir os vestígios das duas espécies. E o ICNF apenas compensa os criadores que são vítimas de ataques de lobos...

Os riscos para as pessoas também aumentam, pois muitos cães assilvestrados cresceram habituados à presença do Homem, não o temendo nem fugindo à sua aproximação, como faz o lobo. Assim, não receiam alimentar-se de lixo em zonas urbanas nem evitam o convívio com cães domésticos, comunicando-lhes doenças; podendo resultar tudo isto num grave problema de saúde pública. Depois, quem vive perto deles sente algum receio e acaba por tomar medidas drásticas, por exemplo espalhando veneno, que são ilegais e acabam por causar a morte de inúmeros animais, incluindo aves necrófagas que se alimentam dos cadáveres das primeiras vítimas.

Para piorar o panorama, o cão, sendo geneticamente muito próximo do lobo, consegue reproduzir-se com ele, resultando este cruzamento, sobretudo de cães com lobas, em híbridos das mais diversas morfologias; tendo muitos exemplares, curiosamente, pêlo mais escuro do que o dos lobos. Isto vem colocar um novo risco à sobrevivência do lobo ibérico, já de si tão ameaçado: no limite, dada a preferência que estes híbridos depois demonstram pela vida em alcateia, a diversidade genética do Canis lupus signatus corre perigos acrescidos.

Soluções? Ideal, seria o fim do triste fenómeno do abandono, o que parece difícil, tendo em vista o agudizar da crise económica. Na presença de cães vadios, devemos alertar os competentes serviços camarários, antes que eles acabem por causar todos os danos que passámos em revista. Os nossos actos, até nas mais pequenas povoações, podem ter consequências graves no mundo selvagem. Convém não o esquecer.

A Lei do Lobo

A 13 de Agosto de 1988 era promulgada a Lei n.º 90/88. Pela primeira vez, um animal via-se protegido por legislação específica, que reconhecia a sua importância para o nosso ecossistema e a gravidade das ameaças que sobre ele pesavam.

A situação impunha-o: na década de 30 do século XX o lobo ibérico habitava em quase todo o território de Portugal, chegando às portas de Lisboa e sendo abundante até no Algarve. Nos anos 60 já ele recuava, embora ocupando ainda muito do interior do País. Vinte anos volvidos, a sua situação tornara-se quase desesperada. O veneno espalhado por alguns criadores de gado, a pressão da caça, a progressiva falta de presas silvestres para alimentar as alcateias e a destruição e a fragmentação (sobretudo por grandes estradas) do seu habitat... muitos factores que quase nos levaram a perder um animal emblemático e fundamental para o equilíbrio de tantas espécies no nosso país. Hoje, pouco mais de 300 exemplares viverão por cá, estando a população a sul do rio Douro especialmente ameaçada.

Assim sendo, é bom de ver que a Lei do Lobo chegou mesmo a tempo de impedir uma extinção de consequências imprevisíveis. Esta legislação, pioneira até na Europa e elaborada com a colaboração de cientistas, proibiu o abate, detenção ou transporte de lobos em Portugal. Ou seja: também é ilegal criar e “largar” lobos, o que impossibilita qualquer esforço oculto de repovoamento ‑ em que muitos ainda acreditam, apesar de nunca ninguém ter sido sequer fotografado a libertar lobos na Natureza.

Mas a Lei acautela igualmente os interesses de quem sofre prejuízos com a preservação do lobo: os criadores de gado. O artigo 6.º é claro: “o Estado assume a responsabilidade de indemnizar os cidadãos que venham a ser considerados como directamente prejudicados pela acção do lobo.” Mais: o prazo entre a apresentação de uma queixa e o pagamento da compensação nunca poderia ultrapassar os 60 dias. A portaria 325/90 veio depois regulamentar o processo, em moldes que ainda hoje se mantêm operacionais.

O actual ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas) é responsável por estes pagamentos, em toda a área de distribuição do lobo, através das Áreas Protegidas, a quem deve ser comunicado qualquer ataque. Os técnicos destes organismos, com muitos anos de experiência e métodos que incluem análises genéticas, verificam se os danos foram mesmo causados por lobos. Depois, haverá lugar a indemnizações, que cobrirão o preço de mercado dos animais mortos ou o seu tratamento, se tiverem sido apenas feridos. Mas só se os animais atacados estivessem “guardados por pastores e com um cão por cada 50 cabeças de gado ou quando mantidos em locais que os confinem”, de acordo com a referida portaria.

Note-se que, mesmo com costumeiros atrasos das nossas burocracias, o ICNF pagou, só em 2012, mais de 615.000 € de compensações. Ou seja, nenhum criador responsável, que cuide bem do seu gado, fica desprotegido face ao lobo ibérico. Hoje, o Projecto Med-Wolf já está no terreno a auxiliar explorações mais vulneráveis. E vai arrancar em breve com a distribuição de bons cães da Serra da Estrela; para que a coexistência, mais do que uma bonita palavra, seja aqui uma realidade.

Duas histórias para o Natal

I

Em tempos idos, um bando de cabras vivia numa simpática e alta caverna. Mas, para que a história fosse história, nem tudo podia ser perfeito; ali perto, habitava um casal de lobos. Estes, como todos os lobos, apreciavam carne de cabra. E serviam-se sem cerimónia. Às tantas, apenas uma velha cabra sobrevivia. Mas, por mais que os lobos a tentassem apanhar, a sua manha inventava sempre mais um truque, mais uma fuga.

Já com saudades do seu prato favorito, o lobo sugeriu novo estratagema à sua loba: “vamos enganar a velha chifruda. Dizes-lhe que eu morri e que precisas de ajuda para me enterrar. Pode ser que ela fique com pena e venha cá – nessa altura, deixo de fingir de morto e pumba: o jantar está servido!”

Dito e feito. A loba jurou à cabra que não a mataria, pois estava de luto. Esta acabou por aceder. Só que o lobo, já impaciente e cheio de fome, não resistiu a espreitar onde andaria a cabra velhota. Ela viu o movimento e fugiu a sete patas, voltando à sua caverna. A loba ficou furiosa com o companheiro: “que palerma! Mas vou ver se consigo salvar a nossa refeição...”

A loba aproximou-se da cabra e tentou dar-lhe a volta: “amiga; tens poderes mágicos! Bastou aproximares-te do meu marido para que ele voltasse à vida. Vem festejar connosco e sejamos todos amigos para sempre!”

Claro que a cabra sabida percebeu o truque. E tratou de dar troco à loba: “que notícia maravilhosa, cara amiga! Vamos partilhá-la com todos os animais. Vou já chamar três amigos para irmos todos visitar-vos!”

“E quem são eles?” inquiriu a loba, já antecipando o alargamento do menu.

“São os cães aqui da aldeia vizinha: o Velho Cinzento, o Feroz e o Gigante.”

A loba conhecia bem aqueles mastins e deles só queria distância. Foi a correr avisar o lobo da chegada iminente dos convivas indesejados. Cheios de medo, os dois fugiram sem sequer fazer as malas. E nunca mais tentaram devorar a velha cabra.

 

II

Um ancião acalmava o seu neto, furioso com um amigo que o tinha maltratado.

“Vou contar-te uma história, pequeno amigo. Eu também já senti ódio por quem me fez mal, sem sequer mostrar arrependimento. Mas o ódio enfraquece-te e não faz mal algum ao teu inimigo. É como tomares veneno e ficar à espera que seja ele, o malfeitor, a morrer. Já lutei com esse sentimento muitas vezes.”

E continuou: “é como se tivesse dois lobos dentro de mim. Um é bom e não me causa dano; vive em harmonia com o mundo e não se ofende sem razão. Apenas luta quando é justo fazê-lo, poupa forças para os combates certos, os que valem a pena. Mas o outro lobo... cuidado com ele! Enfurece-se por tudo e por nada, encoleriza-se contra todos, morde o que alcança. A sua fúria cega-o e impede-o de pensar. E tudo para nada; o ódio nada consegue. Por vezes, é difícil viver com estes dois lobos no meu espírito, pois ambos querem dominá-lo...”

O neto mirava-o com toda a curiosidade do mundo. E não resistiu a perguntar: “qual dos lobos ganha, avô?”

Resposta sorridente e sábia: “Aquele que eu alimentar.”

 

Estas duas histórias não podiam ter origens mais distantes. A primeira veio das selvas da Índia. A segunda é um conto tradicional dos índios Cherokee. Além de ilustrarem a importância que o lobo sempre teve nas narrativas que nos ajudam a organizar a nossa visão do mundo, enquanto povos, apresentam dois pontos de vista que hoje continuam lúcidos: primeiro, a astúcia e o recurso aos métodos tradicionais de protecção são a nossa melhor defesa contra os ataques das alcateias – no caso desta história, os bravos cães bastam para afugentar os lobos.

Depois, reafirma-se que o ódio cego não é a resposta para resolver os nossos problemas; pensar antes de agir, respeitando a harmonia entre nós e o mundo, é sempre a melhor forma de estar e de viver.

Que em 2014 todos o consigamos fazer um pouco mais, é o voto de Natal do Projecto Med-Wolf.

SOS Avestruzes

Nas savanas de África, a avestruz é vista por muitos predadores como uma espécie de buffet sobre patas; leões, hienas e chitas são alguns dos carnívoros que a mantêm regularmente no menu. Outras espécies, de abutres do Egipto a mangustos, alimentam-se dos seus volumosos ovos.

Para se defender, a avestruz não depende apenas da velocidade, que atinge 70 km/h. Em defesa das crias, pode ser uma lutadora temível, havendo casos registados em que até leões foram mortos pelas suas patas, tremendamente fortes e munidas de uma afiada garra. Mesmo com toda esta devoção maternal, apenas 15% das avestruzes sobrevivem até ao seu primeiro aniversário...

Perguntará o leitor: e que temos nós a ver com avestruzes? Efectivamente, o Projecto Med-Wolf opera na Guarda e Castelo Branco, algo distante dos habitats naturais da maior ave do mundo. Mas houve em Portugal, nos anos 90, um boom de explorações de avestruzes; chegaram a ser mais de 50. Hoje em dia, restam apenas as mais sólidas; uma delas situa-se em pleno concelho de Almeida.

Ora podemos não ter muitos leões por cá, mas temos lobos. E uma avestruz pouco pode fazer, sem as extensões abertas da sua savana natal, para evitar os ataques de uma alcateia determinada. Resultado? A partir de 2012, esta exploração começou a sofrer prejuízos. Análises ao ADN recolhido nos animais atacados – e provas fotográficas! – certificaram que se tratava mesmo de obra de lobos, não de cães selvagens.

Como impedir a continuação destes prejuízos? Soluções usadas com gado mais convencional, como cães de gado, não eram aplicáveis, dada a urgência do caso.

Hoje, a resposta está pronta: uma vedação que cobre os quase 1.400 metros de perímetro da exploração, com uma altura de 2,50 m, encimada por um fio electrificado (para frustrar escaladas), e com um obstáculo subterrâneo para impedir escavações de lobos mais engenhosos.

A obra resultou da conjunção de esforços entre o Projecto e o proprietário, contando ainda com a colaboração do ICNF. Os técnicos da Escola Superior Agrária de Castelo Branco supervisionaram a construção. O criador das avestruzes apenas suportou os custos relativos à mão-de-obra (40% do total).

Os ataques e consequentes prejuízos terminaram de imediato.

Uma variante desta técnica tão eficaz são as vedações electrificadas móveis, bastante úteis para acompanhar o gado, pois facilmente se desmontam e montam. E, noutros tempos, já se usaram em Castelo Branco as chamadas “bandeiras”: uma corda esticada em torno do bardo, a meio metro do solo, onde por vezes eram penduradas peças de roupa velha ou pedaços de tecido, a intervalos regulares. Sem que se saiba ao certo o motivo, os lobos parecem, pelo menos por uns tempos, intimidados por esta decoração, não se aproximando; em algumas regiões fronteiriças de Espanha, como Zamora, ainda se aplica este método.

Proteger o gado é a nossa primeira prioridade. Para diminuir as razões de queixa dos criadores e demonstrar que lobo e Homem podem e devem viver em harmonia, lado a lado.

A morte de uma loba

“Assim que a fera passou de perfil em frente do tapigo, o rei da criação, que o era pelo direito do bacamarte, despediu-lhe a primeira bala com a destra pontaria de quem havia já morto águias com zagalotes. O lobo, varado pela espádua até ao coração, decaiu sobre um dos quadris, escabujou em roncos frementes, espargindo flocos de neve, ergueu-se ainda inteiriçado numa grande agonia, e morreu”.

Assim descreveu Camilo Castelo Branco, no seu “Eusébio Macário”, a aventura do padre Justino dos Padornelos. Hoje, os homens “de uma bruteza selvagem, antiga” que Camilo evocou são coisa do passado; conhecemos melhor a Natureza e já não receamos predadores que têm mais medo de nós do que nós deles. Mas comportamo-nos melhor? Avancemos 130 anos, até ao presente, para uma outra história, esta bem verídica...

A bióloga do CIBIO percebeu que algo acontecera à “Bragadinha” mal deu conta que ela não se movia havia dias. No Alto Minho, 15 lobos são seguidos por telemetria, graças a coleiras GPS que vão emitindo dados sobre a localização dos animais. Esta loba, uma jovem reprodutora que dera à luz a primeira ninhada em Maio, não dava sinais de movimento desde 17 de Outubro; um dia de caça.

O mau pressentimento confirmou-se quando o corpo da loba foi encontrado, em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês, na Zona de Caça Associativa da Gavieira, em Arcos de Valdevez. A necrópsia confirmou o que estava à vista: a “Bragadinha” fora morta por disparos de caçadeira e por um grupo de cães – tudo aponta para um “caçador” como autor do crime.

Este acto de vandalismo contra a Natureza e contra a lei que protege o lobo ibérico está longe de ser fenómeno isolado: o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas apurou que 70% das 80 mortes de lobos registadas entre 1999 e 2011 foram causadas por ataques a tiro, com laços ou com veneno.

Os culpados não são devidamente punidos: na mesma Zona de Caça, foi no ano passado morto um lobo adulto, durante uma batida ao javali. O responsável acabou condenado... a pagar uma multa de 300€. Um valor que, como agora se comprova, não teve qualquer efeito dissuasor.

Boas intenções não bastam. Urge co-responsabilizar as Zonas de Caça pelos desmandos dos seus associados, dar aos Vigilantes da Natureza as condições requeridas – incluindo as armas previstas na lei – e, acima de tudo, punir de forma exemplar crimes como este.

Não se trata de acusar indiscriminadamente os caçadores; acreditamos que muitos respeitam as leis e, à sua maneira, o equilíbrio dos ecossistemas. Note-se que a Associação Nacional de Proprietários Rurais, Gestão Cinegética e Biodiversidade foi uma das 10 organizações, de Portugal e Espanha, que se manifestaram em comunicado contra a impunidade que continua a resguardar os criminosos, exigindo medidas para proteger o lobo ibérico.

Esta mortandade é insustentável e levará, caso prossiga, ao desaparecimento dos 300 exemplares que ainda sobrevivem em Portugal. O Projecto LIFE Med-Wolf tem como objectivo contribuir para a erradicação de tais práticas nos distritos da Guarda e de Castelo Branco. Mas tal só será alcançado quando todos compreendermos que o lobo não é uma praga, mas apenas mais um habitante, de pleno direito, destas terras.

Afinal, o que pensamos do lobo?

Quando falamos de um animal furtivo, nocturno e envolto numa aura de superstição, é natural que por vezes a verdade também pareça um pouco esquiva. Assim é com o lobo, animal ainda pouco conhecido, sobretudo em áreas onde a sua presença foi muito discreta durante anos, como na Guarda e em Castelo Branco.

Ora se o Projecto LIFE Med-Wolf tem como objectivo ajudar a preservar este predador, ao diminuir os conflitos entre a sua presença e as actividades humanas, era fundamental descobrir ao certo que ideia se faz do lobo nestas paragens. Para tal, procedemos a uma intensiva sondagem, inquirindo centenas de pessoas; entre o público em geral e auscultando grupos específicos, como criadores de gado, caçadores, jornalistas e agentes da autoridade com funções na conservação da Natureza.

Os resultados? Ainda não são finais, mas já nos dão algumas indicações. Vejamos: para descobrir até que ponto as pessoas conhecem os reais hábitos e características do lobo, colocámos-lhes 12 questões de resposta múltipla. A média das escolhas correctas ficou abaixo dos 50%, em todos os grupos. Os criadores e os caçadores destacaram-se um pouco no acerto.

Dados concretos como o número de lobos em Portugal e o peso de um macho adulto (20-40 kg) foram, curiosamente, alvo de exagero: as pessoas imaginam este animal como sendo mais corpulento do que é e atribuem-lhe efectivos superiores aos 300 exemplares que realmente existem. Mesmo os palpites relativos à quantidade de lobos nos concelhos dos inquiridos surgem deformados: aliás, a vasta maioria declarou não saber. Apenas em Idanha-a-Nova a maioria acertou, ao responder... “zero”. E você, caro leitor, sabe quantos lobos vivem na sua terra?

Mas há boas notícias: a atitude genérica face à presença do predador não é muito negativa, mesmo entre os principais afectados, os criadores de gado. E não existe relação entre o acerto do que se julga saber sobre o lobo e o que dele se pensa – mesmo quem mais desconhece o animal não o pinta pior do que ele é...

No mais importante, a sondagem é animadora: muitos já interiorizaram que se trata de uma espécie a respeitar, protegida por lei. Mesmo assim, a visão do lobo como um animal que infunde medo ainda persiste em algumas mentalidades. Faz também parte do objecivo do Projecto atenuar estes mitos, explicando que o lobo não representa qualquer ameaça à segurança de adultos ou crianças.

Quando todos estivermos cientes de que uma saudável população lupina tem um papel importante na Natureza, mormente no controlo do número de javalis, viveremos por fim num mundo em que o abate de lobos e o uso de venenos serão coisa do passado. É que cada vez mais cidadãos reconhecem que vale a pena preservar o lobo ibérico para as gerações vindouras, para manter um ecossistema mais rico e equilibrado.

Urge agora responder aos receios justificados de quem teme os ataques do predador ao seu gado. Aumentando a sua protecção, facilitando o acesso a ferramentas mais eficazes. Para que homens e lobos possam viver lado a lado nesta nossa terra.

Cães que ajudam o lobo, protegendo as suas presas

O Projecto LIFE Med-Wolf visa preservar o lobo ibérico, promovendo métodos de protecção para o gado. À primeira vista, pode parecer uma contradição, retirar o sustento ao predador, que dispõe de poucas presas selvagens nas zonas da Guarda e de Castelo Branco.

Mas não é bem assim. O ideal seria o reforço das populações de corços e veados, só que tal não vai acontecer nos próximos anos. Por outro lado, se as alcateias ficassem livres para se alimentar à vontade de rebanhos mal protegidos, em breve todos os criadores, todas as aldeias serranas se revoltariam contra a presença do lobo. E as perseguições do passado regressariam em força, levando por certo este carnívoro à extinção. É fundamental encontrar um ponto de equilíbrio, apresentando às explorações pecuárias métodos de protecção que diminuam a frequência e a intensidade dos ataques de lobos.

Na primeira linha de defesa, está o programa Cão de Gado. Desde 1996, o Grupo Lobo tem criado e entregue cães de raças portuguesas especializadas, para proteger inúmeros rebanhos. Já foram integrados mais de 300 animais, que em muito contribuíram para a redução de prejuízos; no Norte e Centro de Portugal, do Minho à Beira Baixa.

Além disso, com a protecção de cães de gado eficazes (recomenda-se um rácio de um cão para cada 50 cabeças de gado), os pastores têm o trabalho facilitado, pois os seus companheiros caninos alertam-nos para qualquer presença anormal; pastagens mais expostas aos predadores passam a poder ser utilizadas; as explorações de raças autóctones de ovinos e caprinos, bem adaptadas aos sistemas de pastoreio extensivo tradicional, ganham produtividade; e a criação de cães acaba por ser mais uma fonte de receitas. Aliás, os cães usados neste programa representam um esforço para preservar e divulgar excelentes raças portuguesas, como o Castro Laboreiro e o Serra da Estrela.

Já em 2014, teremos os primeiros cães integrados nesta zona, sob a égide do Projecto LIFE Med-Wolf. Eles serão gratuitos, chegando aos criadores de gado já vacinados, identificados com microchip e prontos a socializarem-se com os animais que vão proteger. Este passo é o “segredo” do programa: quando crescem entre cabras, ovelhas ou até vacas, os cães adoptam-nas como a sua “família”, protegendo-as depois com toda a energia, mesmo quando enfrentam lobos.

Nada disto é invenção moderna. Trata-se da recuperação de métodos ancestrais que durante séculos levaram ao apuramento de raças caninas perfeitamente ajustadas a esta tarefa e a cada região. A ajuda aos canicultores, no aperfeiçoamento de linhagens cada vez mais eficientes e valiosas, redunda noutro benefício para as economias locais.

O Grupo Lobo tem vindo a trocar informação com programas similares noutras latitudes – de África, onde molossos protegem cabras de chitas e hienas, aos EUA, onde os lobos e os coiotes são a ameaça predominante. Todo este esforço já foi recompensado com prémios internacionais; mas, acima de tudo, com a diminuição dos prejuízos sofridos pelos criadores de gado e com a redução da animosidade face ao lobo.

Quantos lobos temos?

Imagine-se a caminhar por uma vereda algures na serra; é noite e a Lua quase não rasga o nevoeiro. De repente, soa um uivo bem perto de si. Surge a pergunta, com um estremecimento: “Será um cão? Ou um lobo?”

(Aqui entre nós, a primeira hipótese é bem mais inquietante: os cães vadios não têm receio dos humanos, ao contrário do seu antepassado silvestre. Mas dos problemas causados pelas matilhas esfomeadas, falaremos depois.)

Se tal lhe acontecer nos próximos tempos, lembre-se de uma terceira alternativa: pode estar a ouvir um biólogo do Projecto Med-Wolf a imitar um lobo. Quando soar um coro distante de uivos como resposta, perceberá o porquê de tal actividade: os lobos reagem a estas provocações dos humanos com o chamado “uivo induzido”, um importante indício para avaliar o número de lobos presentes.

Por outro lado, o acompanhamento dos prejuízos causados ao gado, com análises genéticas à saliva deixada nos animais atacados e aos dejectos de canídeos encontrados no local do ataque, é crucial. Destrinça os danos causados por lobos daqueles atribuíveis a cães, estabelecendo um contacto com os criadores logo após a ocorrência de prejuízos, o que permite explicar-lhes o aparente regresso do lobo e os mecanismos indemnizatórios.

Mas, para que o recenseamento da população lupina seja rigoroso, o Grupo Lobo usa outros métodos: no terreno estão já investigadores que percorrem as 130 faixas de terreno, com comprimento mínimo de dois quilómetros, em que foi dividida a área do Projecto, buscando resquícios da passagem de lobos.

Mais: para esta tarefa, o Projecto conta com um auxiliar precioso e original no nosso país. O cão Zeus foi especialmente treinado para detectar, com o faro, dejectos de lobos numa vasta área, num total superior a 6.000 quilómetros quadrados. Este simpático rafeiro não foi comprado. Foi sim adoptado, através da associação “Focinhos & Bigodes”, que o recolheu das ruas de Lisboa. Para o treinar, veio o especialista Heath Smith, do programa “Conservation Canines” da Universidade de Washington, com larga experiência em desafios similares, em vários países. É a primeira vez em Portugal que um cão adoptado tem uma tarefa ligada à conservação animal, dando a este recenseamento uma eficácia e uma rapidez impossível para os humanos...

Outra técnica está já a ser empregue no campo, com bons resultados e de forma ainda menos invasiva para a vida selvagem: a armadilhagem fotográfica. Com um total de dez câmaras especiais, que reagem à passagem de animais, já foi possível captar testemunhos visíveis da existência de lobos em zonas específicas.

A genética, claro está, é ferramenta essencial: aplicada a amostras recolhidas nos ataques ou aos dejectos encontrados pelo Zeus, fornece informações aprofundadas sobre o número, a variedade genética e a proporção dos géneros numa alcateia. Detectando também o ADN de possíveis híbridos cão/lobo.

Em breve, poderemos fazer uma estimativa realista da quantidade de lobos que vive na área do Projecto. Teremos então dados fiáveis para preparar medidas de protecção do gado mais eficazes, mesmo à medida da efectiva presença deste predador.

Todos ganhamos ao proteger o lobo

Preservar o lobo ibérico, animal emblemático e ameaçado, de que restam apenas 300 exemplares em Portugal, soa a ideia meritória. Mas pode parecer estranho que nestes dias de dificuldades generalizadas, numa crise como há muito não vivíamos, se gaste dinheiro em iniciativas que pouco parecem ter a ver com pessoas, com respostas aos seus problemas, às suas angústias.

Mas a realidade é bem diversa. O Projecto LIFE Med-Wolf é co-financiado pelo programa LIFE + Natureza e Biodiversidade, um instrumento financeiro da Comissão Europeia criado para ajudar os Estados membros a salvar a sua herança natural, conservando espécies, mantendo habitats e modos de vida. Assim sendo, o investimento é exclusivamente da União Europeia; e acaba por representar a entrada no nosso País de verbas significativas. Mais: este dinheiro não se destina apenas a investigadores e a acções de sensibilização – muitos benefícios serão oferecidos a explorações pecuárias, resultando em maior eficiência e rendibilidade. A Guarda e Castelo Branco ficarão dotados de estruturas produtivas mais sustentáveis e lucrativas.

Por contra-intuitivo que possa parecer, até a salvaguarda do próprio lobo irá trazer vantagens a estas regiões. Noutras paragens de Portugal, existem empresas que potenciam e exploram o ecoturismo em torno deste mítico predador, atraindo turistas desejosos de descobrir o habitat do lobo, os modos de vida de pastores e criadores, as gentes e os produtos locais. O Projecto, promovendo o ecoturismo, vai redundar em vantagens generalizadas, a médio e longo prazo.

O objectivo do LIFE Med-Wolf é reduzir os conflitos entre o lobo e as actividades humanas em duas áreas rurais, em Portugal e Itália, onde os hábitos culturais de coexistência se têm vindo a perder. É um esforço conjunto inédito, integrando organizações portuguesas e italianas de natureza agrícola e ambiental, entidades estatais e centros de investigação. Mais uma potencial via para o crescimento das economias locais: a troca de experiências e saberes com entidades como a Escola Superior Agrária do Politécnico de Castelo Branco, a Faculdade de Ciências de Lisboa, o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária ou o Instituto de Ecologia Aplicada, de Roma, irá por certo resultar no aperfeiçoamento da actividade de muitas explorações pecuárias.

E que vai fazer o Med-Wolf? Desde o início, este Projecto liderado em Portugal pelo Grupo Lobo tem vindo a proceder a um cuidadoso censo da população de lobos na região. A avaliação dos conflitos entre homens e alcateias é outro passo fundamental, com uma sondagem, encontros, debates e visitas a criadores. Segue-se a formação dos técnicos envolvidos na conservação do lobo, de forma a melhorar a avaliação dos prejuízos causados por este predador no gado, estabelecendo relações de confiança com os criadores de ovinos e bovinos. Para sensibilizar as comunidades locais, com grande ênfase nas escolas, serão realizadas campanhas de informação e outras iniciativas para melhorar o conhecimento e compreensão deste carnívoro.

Serão 5 anos bem preenchidos; com vantagens para todos.

No menu do lobo

Na raiz de todos os conflitos que opõem homens e lobos, está um facto simples: as duas espécies precisam de comer. O problema é que por vezes desejam comer a mesma coisa; e surgem os ataques de alcateias a animais domésticos, que podem ir de ovelhas e cabras até animais um pouco mais exóticos, como avestruzes. Mas então porque não fica o lobo no seu canto, perseguindo apenas animais silvestres que não façam tanta falta ao sustento das gentes? Porquê os prejuízos causados a rebanhos, que geram tanta má-vontade contra o nosso maior predador e tanta sede de vingança?

Uma resposta foi há semanas ouvida pelos autores desta crónica, num encontro que reuniu criadores de gado, Vigilantes da Natureza e responsáveis do SEPNA, da GNR: um pastor ali presente garantiu, sem hesitar, que “a culpa dos prejuízos é do Homem, que caça tudo e tira a comida ao lobo”. Passe algum exagero, há verdade nesta afirmação. O lobo é um carnívoro generalista e incansável na busca de presas; assim, ele pode alimentar-se de inúmeros animais, de ratos e lebres a veados, passando por cavalos ou vacas e até mesmo outros carnívoros, como o cão e a raposa. Não teme sequer a energia e o mau-feitio do javali, atacando-o sem medo. Mas duas coisas são certas: ele preferirá sempre a presa que menos riscos implicar – e na falta de presas silvestres nada lhe resta a não ser os animais domesticados pelo Homem.

Quer isto dizer que onde há javali e corço em abundância, os ataques a rebanhos diminuem. E que na presença de medidas de protecção, como bons cães de gado e cercas eléctricas, o lobo tenderá a procurar alimento noutro lado. A Ciência tem estudado os hábitos alimentares de lobos: em áreas onde se assistiu à recuperação das presas naturais como o veado, o corço ou o javali, estas constituem quase toda a alimentação do predador. Isto passa-se, por exemplo, no Sul de Espanha e no Nordeste de Portugal.A presença de animais domésticos na dieta do lobo pode variar entre os 20%, na Serra de Ancares (que se estende do Noroeste de Castela e Leão à Galiza, em Espanha)e os 90% na Galiza e na região Centro-Oeste do Norte de Portugal, passando pelos 60% na região de Bragançae os 80% na região a sul do Douro. Claro está que o lobo, com a sua extrema flexibilidade, consome a comida que encontra, mesmo em lixeiras ou vazadouros de matadouros – na região ocidental das Astúrias e da Galiza, essa é a fonte exclusiva de alimento de algumas alcateias.

O lobo consegue comer até 10 kg de carne numa só refeição, mas pode sobreviver durante meses com pouco alimento ou até alguns dias sem se alimentar; infelizmente, também pode matar vários animais sem os consumir por inteiro, sobretudo quando se vê rodeado por animais domésticos sem a protecção de um pastor ou de um cão de gado.

Tudo somado, concluímos que algum conflito é inevitável, sendo efeito da concorrência entre as duas espécies – Homem e lobo – pelas mesmas presas, sejam elas silvestres ou domésticas. Mas estas últimas sofrem mais quando as outras rareiam. E há formas de reduzir em muito esse conflito, sobretudo mantendo rebanhos bem cuidados e bem guardados – mas isso é tema para uma próxima crónica.

Quem ameaça quem?

Em 1734, andava o demo pelas serras do Gerês. Ou pelo menos assim parecia, a fazer fé nos escritos de um tal Miguel Honorato: a criatura em causa “despedaça o que acha viço, ou seja, gente, gados, ou ainda outras feras, a tudo avança embravecida.” Referia-se, claro está, a um lobo. E a ameaça desse bicho feroz não seria fantasiosa; nesses dias, o medo que o lobo infundia ultrapassava os prejuízos causados ao gado – ocorreriam por certo ocasionais ataques a seres humanos.

Assim se compreende que o temido predador, ainda por cima associado à noite e à astúcia, já na Bíblia fosse assinalado como ente a evitar a todo o custo. Ao longo dos séculos, os relatos que corriam de boca em boca, como o que deu origem ao “Capuchinho Vermelho”, sedimentaram a má-fama do lobo. Mas a perseguição a que ele foi sujeito tratou de tornar os ataques extremamente raros, mesmo os que envolveram animais que sofriam de raiva.

Na Península Ibérica, apenas um episódio fatal foi registado em anos recentes: em 1974, perto de Ourense, no Norte de Espanha, uma loba com crias vitimou duas crianças. Aliás, esta é uma marca de ataques que ainda hoje ocorrem em zonas, como a Índia, onde a densidade de ocupação humana é muito elevada e o pastoreio é por norma entregue a crianças. No nosso país, onde tal prática foi comum até há poucos anos, não há registo de incidentes similares.

Em áreas onde as batidas foram comuns, sendo levadas a cabo por multidões armadas, como por cá, cedo o lobo foi seleccionado de forma a que apenas os exemplares mais receosos do Homem sobrevivessem. Por exemplo, uma pesquisa levada a cabo na Suécia descobriu que os lobos detectam a presença humana a pouco mais de 100 metros (dependendo do vento) e fogem de imediato. Mas convém sempre ter em mente que falamos de um animal selvagem, de um predador poderoso e veloz; ainda em 2012 uma professora foi morta por lobos numa região remota do Alasca.

Seria preciso recuar muito para darmos com um ataque comprovado – para lá de receios e arrepios na noite – a seres humanos em Portugal. Mas os ataques aos lobos são uma triste realidade: até à década de 1930, ainda havia lobos nos arredores de cidades como Lisboa, Porto, Coimbra, Caldas da Rainha, Aveiro e Abrantes. 40 anos depois, desapareciam das serras do Algarve e do Alentejo – nunca mais foram vistos a sul do Tejo.

Hoje, com a Lei do Lobo a proteger o nosso maior carnívoro, a matança não parou. Muitas vezes por inconsciência: armadilhas e laços colocados para diminuir ilegalmente o número de javalis que estragam culturas acabam por apanhar lobos – não poupando outros animais, nem sequer os cães da vizinhança. Já os venenos são coisa bem diferente: forma cobarde de matar animais, ameaçam várias espécies, incluindo aves que se alimentam de carcaças envenenadas.

Concluindo: histórias de gente atacada por lobos no nosso país ou são antigas ou são da carochinha. Mas continua a ser fácil ouvir relatos a meia-voz de lobos abatidos e rapidamente enterrados. O Homem mantém os louros de ser o predador mais mortífero.

O lugar do lobo

Muitas vezes ouvimos falar de “ecossistema”. Mas trata-se de uma expressão talvez pouco clara; há quem pense que é uma mera colecção de animais e plantas, um puzzle simples onde não seria muito difícil trocar ou eliminar peças. Mas não; cada ecossistema é como um complicado mecanismo relojoeiro, onde a mais minúscula engrenagem, mesmo que não o percebamos à primeira vista, faz falta ao bom funcionamento do relógio. O pior é que se mexermos no nosso despertador, quando muito teremos de comprar outro; alterar a ordem da Natureza, mesmo com boas intenções, pode resultar em desastres impossíveis de emendar, acarretando consequências até para os seres humanos.

Um exemplo: em 1935, uma centena de sapos marinhos foi libertada na Austrália, com a missão de erradicar os escaravelhos cujas larvas andavam a dizimar as plantações de cana-de-açúcar. Em poucos anos, os sapos, venenosos e bastante férteis, multiplicaram-se e conquistaram território, sendo hoje mais de 200 milhões. Várias espécies estão ameaçadas de extinção por envenenamento ou por doenças espalhadas pelos sapos invasores. Para compor o ramalhete, a importação destes animais nem diminuiu os efectivos do nocivo escaravelho que devia combater...

Um ecossistema é, em termos simples, uma comunidade de seres vivos que interage com o seu habitat, constituindo um sistema de interdependências mútuas. O desaparecimento de um animal-chave num destes sistemas complexos pode desencadear um outro desastre: o efeito de cascata, em que uma extinção leva a outras que em seguida causam mais umas quantas, e por aí afora. Por exemplo, em África, a escassez de leões e de leopardos levou à proliferação dos babuínos, que trataram depois de liquidar a caça antes consumida pelos aldeões locais, destruindo também as suas culturas e contaminando-as com parasitas intestinais. No parque americano de Yellowstone, o fim da última alcateia de lobos, há 80 anos, resultou num empobrecimento drámático da flora, consumida por herbívoros cada vez mais numerosos. Em Portugal, é bem sabido que o desaparecimento do lobo não leva à abundância de lebres, antes pelo contrário; predadores como a raposa e a fuinha, livres da ameaça do lobo, multiplicam-se e caçam todas as lebres que encontram.

As alcateias, aliás, tiveram durante séculos um papel crucial no nosso ecossistema; reduzindo o número de cães vadios e alimentando-se de presas silvestres como o javali e o veado, que, em quantidades exageradas, são uma praga para os campos cultivados. Regressando ao equilíbrio natural, as populações de espécies cinegéticas estabilizariam, sobrando ainda exemplares suficientes para satisfazer o predador de topo... o Homem.

Eis uma excelente razão para não combatermos a recente intensificação da presença do lobo nas nossas serras: ele tem uma missão na Natureza que nos rodeia e alimenta. Não seria em jardins zoológicos que a conseguiria cumprir.

A sua extinção definitiva acabaria certamente por nos prejudicar, ainda mais do que hoje conseguimos prever. E ficaríamos com uma herança bem mais pobre para deixar aos nossos filhos.

Lendas de hoje

Há quinze dias, relembrámos aqui alguns dos mitos que desde sempre acompanharam em Portugal o vulto do lobo, como uma sombra muito mais longa e fantástica do que a realidade que a origina. Hoje, não passam de histórias nostálgicas, boas para assombrar os netos e encher de maravilha os serões entre amigos. No entanto, sendo que a natureza humana também tem horror ao vazio, outros mitos tomaram o lugar das lendas dos nossos avós. Como o das “largadas” de lobos.

Há décadas que esta lenda viaja de aldeia em aldeia, sempre adornada por bizarros pormenores, sempre sob a forma de relatos anónimos, nunca na primeira pessoa. Ouvimos falar de um primo ou de um amigo de um amigo que jura ter visto carrinhas algures no meio do mato a soltar os tais lobos; por vezes, a história até inclui helicópteros e pára-quedas! E até andaria gente, a altas horas da noite, a alimentar os predadores.

Estes, aliás, seriam “diferentes” dos lobos “normais”. Mais pequenos, por vezes amarelados na pelagem e com hábitos estranhos: há quem garanta que os lobos “botados” ou “largados” rondam as aldeias bem de perto, sem medo das pessoas, e que terão perdido a capacidade de caçar.

Tais boatos não se propagam apenas por cá; na outra área de acção do Projecto MED-WOLF, em Itália, os mesmíssimos “testemunhos” são recolhidos. Trata-se tão somente de uma forma de explicar o que parece não ter explicação: o recrudescimento da presença do lobo num dado local. A olho nu, ele parece irromper na paisagem por geração espontânea, do nada.

Mas claro que sabemos que as coisas não se passam assim: embora tenha sido exterminado em muitas paragens de Portugal, o lobo nunca deixou de viver nas Beiras. Com o abandono de muitas terras, e a consequente redução da presença humana, todos os animais silvestres ganharam espaço e condições para aumentar os seus números. A pastorícia, ao integrar menos cabeças de gado, adopta circuitos mais próximos das povoações, o que aproxima inevitavelmente os predadores do Homem. O aspecto “diferente” dos tais lobos “de aviário” explica-se pela grande diferença que os lobos apresentam nas suas pelagens do Verão para o Inverno e por diferenças entre exemplares, que podem ser significativas. Já o seu carácter destemido é pura invenção, verificando-se antes o contrário: o lobo de hoje é diferente do que assolava as serras da Idade Média; só os mais prudentes sobreviveram à perseguição dos homens, dando origem a uma população muito mais tímida.

Resumindo, que uma coisa fique clara: ninguém anda a “largar” lobos em lugar algum. Nunca tal aconteceu em Portugal, excepção feita a um só exemplar capturado por uma armadilha ilegal e libertado após tratamento. Aliás, os lobos em cativeiro no nosso país são rigorosamente controlados.

Estamos a dar um pouco mais de espaço nos nossos campos a este predador único. E ele, naturalmente, recupera territórios que já foram seus, reproduzindo-se sem necessidade de ajuda humana. Hoje em dia, todos teremos a ganhar se aprendermos a conviver com ele com um mínimo de conflitos... e com menos histórias da carochinha para confundir a situação.

Lendas de antigamente

Em Trás-os-Montes, ainda sobrevive na memória dos mais velhos uma oração em forma de pequena história, destinada a invocar a protecção divina para rebanhos: ao caminharem pelas serras, S. João e S. António encontram alguns lobos. E perguntam-lhes onde vão eles, de passo tão estugado. A resposta foi brutalmente sincera: “Vamos ao gado do João, que está sem pastor e sem cão.” Ouvindo isto, os santos protectores não hesitam na resposta em forma de ordem: “Atrás voltai. A tal gado não ireis e mal não lhe fareis”.

Ocupando até as noites dos santos, o lobo desde sempre se agigantou entre as veredas das superstições das gentes serranas. Começando pelos inevitáveis lobisomens, que na sua encarnação portuguesa têm a forma simples de bichos, distinguindo-se por andarem sobre duas patas apenas. O Abade de Baçal aponta-lhes características que os marcam, mesmo sob forma humana: “de cor tipicamente pálida, olhos massados e mãos extraordinariamente calosas”. Muito deviam sofrer os desgraçados que encaixassem em tal perfil...

Não era apenas como fonte de ameaças que o lobo povoava de sombras a fantasia popular: como outros entes “maléficos”, também podia ser usado para o bem, esconjurando maldições e maleitas. Um olho de lobo guardado na algibeira dava coragem ao seu portador; uma cabeça de lobo pregada numa porta afastaria qualquer feitiço que pairasse sobre os moradores da casa. Água passada por uma “gola” (parte da traqueia do bicho) transformava-se logo em cura para doenças dos porcos; o “unto do lobo”, gordura que sobra da cozedura da carcaça de um lobo, aliviaria enfermidades dos ossos.

A perseguição ao lobo fazia parte da vida das populações serranas. Durante muitos anos, os caçadores que mais predadores abatessem ganhavam recompensas significativas. E armadilhas como os fojos – que por vezes incluem muros convergentes, de pedra, com dois quilómetros de extensão! – ainda hoje assombram paisagens, ocultas por séculos de urzes e giestas.

Afinal, porque demos ao lobo um lugar ímpar em lendas e mitos? Veja-se: tudo indica que até ao século XIX tivemos ursos em Portugal. No entanto, este imponente e perigoso animal não deixou pegadas semelhantes às do lobo, na imaginação popular ou na nossa toponímia.

O lobo é um animal naturalmente furtivo e esquivo; ataca em grupos, com manhas de caçador astuto; prefere a noite para se deslocar; tem fama de bicho voraz, que mata por prazer... E, sobretudo, imagine-se a desgraça que era para um pastor ver-se privado do seu sustento, em épocas sem compensações nem seguros. Sim; há motivos para a fama do nosso maior carnívoro.

Mas certas histórias são apenas disparatadas. Como os boatos de que “alguém” anda a libertar lobos nas serras. Há décadas que este mito viaja de aldeia em aldeia, sempre adornado por estranhos pormenores, sempre sob a forma de relatos de alguém não identificado, nunca na primeira pessoa.

Bem; a conversa já vai longa. Voltaremos a este tema fascinante daqui a quinze dias.

O Lobo, esse desconhecido

Canis lupus signatus. O Lobo Ibérico. Quem é, afinal, este predador tão falado, temido e perseguido? Não há só uma resposta, claro. Para quem vive nas grandes cidades, é algo apenas visto em documentários, bicho tão próximo como o elefante. Para quem tem o seu gado sujeito a ataques, trata-se de um adversário, de uma ameaça ao bem-estar económico. Para quem o estuda, é um carnívoro com hábitos e características fascinantes. Para outros ainda, trata-se de um animal aziago, portador de maus-agouros e ameaças mil.

Mas, afinal, o lobo é muito mais familiar do que imaginamos. Tão familiar que muitos de nós temos descendentes seus em nossas casas: os cães. É difícil olhar para um podengo e imaginar que o seu antepassado silvestre foi o lobo. Mas é coisa provada: esta domesticação decorreu ao longo de milhares de anos, culminando, após a selecção levada a cabo pelo Homem, nas mais de 350 raças caninas que hoje são reconhecidas. Talvez os lobos que deram origem a todos os nossos cães tenham sido adoptados como guardas; ou talvez tenham sido eles a adoptar os humanos, acompanhando-os em busca de alguns restos de comida. Certo é que um predador desde sempre temido e acossado acabou por dar origem ao nosso melhor amigo.

O lobo ibérico distingue-se do lobo comum no resto da Europa sobretudo por ser mais pequeno e pela sua pelagem, mais amarelo-acastanhada. A designação “signatus” – que em latim significa marca ou sinal – indica as listas negras que a forma ibérica apresenta na parte anterior das patas dianteiras. Por norma, o seu peso varia entre os 20 e os 40 kg. A altura ao garrote vai dos 55 aos 75 cm, com um comprimento total médio de cerca de metro e meio; os machos são um pouco maiores, sobretudo na cabeça. Em suma, o tamanho de um Cão da Serra da Estrela, não o de um monstro temível...

Até ao princípio do século XX, o lobo vivia em quase toda a Península Ibérica. Mas o extermínio dos animais de que se alimentava, além da destruição da vegetação natural, levou ao seu desaparecimento de muitas zonas da Península. Hoje, o lobo em Portugal ocupa apenas 15% da área de distribuição ibérica da espécie, com uma população total que talvez não ultrapasse os 300 indivíduos.

A “família” do lobo é a alcateia, formada por um macho e uma fêmea reprodutores e por alguns descendentes desse casal. Em Portugal, o número de animais por alcateia varia de dois a oito. A sua alimentação depende da abundância das presas silvestres: onde as presas naturais (veados, corços ou javalis) regressaram em força, como no Nordeste de Portugal, passaram a ser quase 100% da sua alimentação.

Em Portugal, o lobo está legalmente protegido desde 1988, pela Lei do Lobo, assumindo o Estado Português a responsabilidade pela indemnização dos prejuízos causados nos animais domésticos, desde que cumpridos alguns requisitos de protecção. Mas isto já é tema para a próxima crónica. Daqui a quinze dias continuamos a conversa...

Um projecto de futuro

“A minha serra, pedregal, lobos e vento”. Assim descrevia Aquilino Ribeiro, em 1947, as serranias que acolheram tantas das suas narrativas. O lobo era então parte integrante da paisagem, das vidas da Serra.

Mas já então este predador muito sofrera, graças a uma fama muitas vezes injusta. Visto como ameaça à vida humana, portador de doenças míticas como a “lobagueira”, espírito daninho, cúmplice de “fadas dos lobos”. Sem esquecer as crendices acerca de lobisomens – sétimos filhos varões ou criados por enganos dos padres no baptismo, figurantes habituais nos medos e nas histórias sussurradas à beira de fogueiras, entre nevoeiros e urzes.

Mas não era bicho inocente, o lobo. Entre perseguir um bravo javali ou atacar uma vitela, claro que o instinto do bicho não hesita. Por isso, desde há séculos que quem tem gado tem inimizade com o lobo, organizando batidas, construindo fojos, por vezes até espalhando venenos que acabam por matar muitos outros animais. Assim, o lobo tem desaparecido, recuando para domínios cada vez mais escondidos, contando hoje com menos de 300 exemplares nas suas alcateias. Isto porque o Homem sempre foi conquistando mais e mais território, expulsando os outros predadores.

Mas a História começou a fazer marcha-atrás; com o despovoamento do interior, mais terras ficam à mercê dos animais e melhores condições ganham estes para se multiplicarem. O lobo intensifica a sua presença em distritos onde pouco se dava por ele: a Guarda e Castelo Branco. Noutras paragens, como Bragança e o Gerês, nunca chegou a desaparecer, perto de gentes sempre afeitas à vizinhança do predador.

Assim chegamos aos dias de hoje. E aos ataques a rebanhos que têm trazido os lobos para as parangonas dos jornais, a par de muitas queixas de quem vê o seu ganha-pão ameaçado.

Como vimos, o lobo não está “de volta”; pois nunca daqui saiu por inteiro. E muito menos anda a ser “solto” nas serras sabe-se lá por quem – tal seria até ilegal, face à legislação que protege este animal desde 1988. Certo é que a sua presença se faz hoje sentir com mais intensidade. E torna-se necessário (re)aprender a conviver com o lobo, a diminuir a dimensão dos prejuízos que ele causa.

É precisamente esse o objectivo do projecto LIFE MED-WOLF – Boas Práticas para a Conservação do Lobo em Regiões Mediterrânicas. Uma iniciativa financiada pela União Europeia que vai minimizar os conflitos entre o lobo e as populações locais, em regiões onde os hábitos culturais de coexistência se têm vindo a perder. Ao longo de cinco anos, irá fornecer apoio a criadores de gado para que possam instalar as medidas de protecção que há muito são comuns noutras paragens de Portugal, como bons cães de gado ou cercas eléctricas. Partilhando experiências, ensinando os mais novos, explicando o acesso a indemnizações, etc.

É para falar disto que aqui estaremos quinzenalmente. E também para ouvir as vossas sugestões, ideias ou queixas; para tal, estão desde já convidados a usar o mail lifemedwolf@fc.ul.pt. Até já.